Folha Vitória Após ser diagnosticada com câncer, Neuropsicóloga orienta como cuidar da mente e do corpo

Após ser diagnosticada com câncer, Neuropsicóloga orienta como cuidar da mente e do corpo

Leninha Espírito Santo Wagner explica como neutralizar a dor e o medo para ajudar a superar o luto e a depressão

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Traumas causados por perdas ou trágicos acontecimentos não são fáceis de serem superados, pois passar por situações como essas exigem força, resiliência e determinação para não deixar que o luto perdure para além do necessário.

O luto traz sensação de vazio, um “oco existencial”, gerador de dor e dúvidas. Trabalhar essas inseguranças, como por exemplo em uma “morte anunciada”, evita maiores perdas e adoecimentos por parte de quem “sobrevive a esse terremoto emocional”.

Esconder os sentimentos que foram sendo criados enquanto o marido adoecia e necessitava de cuidados fez com que a Neuropsicóloga Leninha Espírito Santo Wagner desenvolvesse sua própria enfermidade. “A mente tende a realizar realisticamente o que edificamos subjetivamente no inconsciente. Perdi meu marido no dia 19 de dezembro de 2020, depois de seis longos anos de doação total aos cuidados dele. Talvez, secretamente, eu tivesse medo de perder a saúde, e a perdi”, relatou a profissional.

“Enterrei meu marido dia 19 de dezembro de 2020 e dez dias depois recebi o diagnóstico de ‘Adenocarcinoma Tubular’, que é um câncer de intestino bastante agressivo e de difícil remoção cirúrgica. Naquele momento também fui submetida a uma cirurgia de emergência. Passado o primeiro momento, reflito. Sempre acreditei que precisamos identificar nosso maior ‘medo’. Para neutralizá-lo e não realizá-lo. O que me causava medo era perder a saúde e não conseguir cuidar de meu marido que estava acamado. Secretamente e de forma inconsciente realizei meu maior medo. Cabe a mim agora neutralizá-lo com ações positivas”, comentou.

“Neutralizar” o medo faz parte da técnica utilizada por ela para ajudar pacientes que estão na mesma situação a lidarem com as emoções. “O luto, seja de morte concreta ou subjetiva, tem um tempo singular e atravessa as cinco fases: Negação; Raiva; Negociação; Depressão e Aceitação. A perda de algum objeto amado traz, ainda que momentânea, a fragmentação e desestruturação do sujeito. O luto é um processo de reconstrução e reorganização diante de uma perda, desafio psíquico com o qual o sujeito tem de lidar”, salientou.

“Estou ainda elaborando meu luto, e arregimentando forças extras nesse pós operatório, enfrentando o tratamento e buscando novamente por ações e rotina saudáveis para recuperar minha saúde “, destacou ainda Leninha.

Segundo a neuropsicóloga, para esquecer é preciso lembrar. Neste processo, também é importante contar com a ajuda de amigos e familiares. “Tenha alguém para uma boa escuta, para que se possa esvaziar e deixar escorrer essa dor através de palavras ou lágrimas. Até sentir que pode ter novamente espaço nos pulmões para retornar a respirar vida”, orienta. “Os amigos e familiares precisam respeitar o tempo de cada um, sem negativar a expressão legítima de quem fica mais à flor da pele”, finaliza.

Lidar com as contingências da vida exige minimamente coragem e disciplina. “Coragem para enfrentar emoções negativas, entrar em contato com aquilo que lhe causa dor, pois lá você também encontrará a cura. Revendo posições, ações, interpretações. Se quiser resultados diferentes aja de forma diferente. Disciplina para manter no seu cotidiano hábitos mais saudáveis que possam ser sua nova rotina, criando uma forma mais adaptada, mais bem vinda, podendo ser mais bem aceito e feliz, nesse ineditismo da expressão do seu ser. Tudo o que carregamos na psique atravessa o comportamento, tornando o que é latente em manifesto. Na vida tudo é relação, estamos sempre na esfera do olhar do outro. Somos espelho e reflexo todo tempo”.

“Em Psicologia, utilizamos a escuta para criar espaço de singularidades, ouvindo o sujeito para entendê-lo e explicá-lo para ele mesmo. Criando de forma colaborativa diretrizes que o levem a identificar e modificar padrões de repetições, gerando novos paradigmas emocionais e comportamentais”, define Leninha.

É claro que o diagnóstico de câncer ainda é uma notícia que desestabiliza o emocional de qualquer um, ainda mais em meio a elaboração de um luto tão importante quanto o de um parceiro de vida. “Enfrentar medicação pesada, consultas periódicas, exames constantes e invasivos, anemia provocada pelas hemorragias constantes, baixo peso, queda abrupta de cabelo, que mexe demais com a autoimagem e autoestima, não é tarefa fácil. Mas sou prova viva que é possível!”, destaca.

“Quando transmutamos nosso ambiente emocional interno e secreto, quer dizer a emoção negativa em que um momento adverso foi criado, precisa passar por uma ressignificação, somos alquimistas emocionais. Só a partir do confronto com a verdade da “finitude” é que tomamos coincidência que a solução está na transformação desse momento negativo para um mais positivo. Quero viver antes de morrer. Aproveitando os dias de forma produtiva e positiva”, conta Leninha.

Atualmente, Leninha detalha sua rotina: “Já voltei a correr, a malhar, estou fazendo ozonoterapia e eletroterapia capilar para diminuir ou até evitar a queda do cabelo. Sigo a dieta necessária para manter a saúde do corpo, pois o trato intestinal mudou completamente com a retirada de um pedaço importante do intestino. Há dias difíceis, claro. Mas estou muito disposta a enfrentar o luto e o tratamento do câncer com ações positivas”.

Além disso, otimista, ela detalha sua nova vida neste início de 2021: “Voltei a estudar, continuo trabalhando e me cercando da família e dos amigos queridos. Tenho plena consciência que o jogo ainda não acabou, posso ganhar ou perder. Mas pensar positivo ou negativo, traz o mesmo gasto de energia”.

Diante deste desafio, ela completa: “Então opto por pensar e agir positivamente, a favor de mim mesma e valorizando a minha vida. Meu dia de partir chegará, mas não será agora, muito menos sem luta. A morte vai duelar comigo até o derradeiro suspiro”, finaliza Leninha.

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