Folha Vitória Família de Cariacica não consegue liberar corpo de idosa por não comprovar parentesco

Família de Cariacica não consegue liberar corpo de idosa por não comprovar parentesco

Natural do sul da Bahia, Jesuína Pereira da Silva morava no Espírito Santo há mais de 60 anos com o companheiro, Waldemar Barcellos Rodrigues. No entanto, os dois nunca oficializaram a união

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Foto: Reprodução / TV Vitória
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Uma família de Cariacica tem sofrido com a dificuldade para liberar o corpo de uma idosa, por não conseguir comprovar parentesco com ela. Moradora do bairro Itacibá, Jesuína Pereira da Silva, de 86 anos, morreu no dia 13 deste mês, vítima de complicações cardíacas.

Natural do sul da Bahia, ela morava no Espírito Santo há mais de 60 anos com o companheiro, Waldemar Barcellos Rodrigues. No entanto, os dois nunca oficializaram a relação. 

O casal não chegou a ter filhos, mas dona Jesuína ajudou a cuidar dos filhos de Waldemar e os criou como se fossem filhos. Além disso, a idosa perdeu o contato com seus parentes de sangue desde que deixou a Bahia.

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Jesuína, o neto e a filha de criação, Elizangela

Criada desde pequena por Jesuína, a dona de casa Elizangela Andrade conta que considerava a idosa como mãe, apesar de não ter o mesmo sangue dela. Elizangela disse ainda que sempre fez questão de cuidar de Jesuína. Com o surgimento das doenças que a idosa tinha, esse cuidado ficou ainda maior.

"Em janeiro ela teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Eu e meu filho mais velho levamos ela para o hospital. Ela ficou internada e eu fiquei lá com ela", contou.

Recuperada do AVC, a idosa voltou para casa. No entanto, com o tempo, outros problemas de saúde começaram a aparecer e a família precisou correr atrás de atendimento médico. Em uma das ocasiões, antes do Dia das Mães, Jesuína teve uma infecção urinária e chegou a desmaiar.

"O tempo passou e ela começou a parar de tomar o remédio, parar de comer, parar de beber e nada", lembra a dona de casa.

Situação delicada

Após o falecimento de Jesuína, a família tem passado por momentos complicados, que vão além da dor. A história começa com o fato de Jesuína e Waldemar não serem casados no papel. Dessa forma, a família tem encontrado dificuldades para liberar o corpo da idosa. 

A luta já dura mais de uma semana e tudo o que a família quer e fazer um velório e um sepultamento de maneira digna. O viúvo, Waldemar, tem medo de que a companheira seja enterrada como indigente, mesmo tendo vivido por mais de 60 anos com ele como esposa. 

"Eu não consegui fazer a liberação porque não sou casado com ela. Me disseram que não tinham condições e que eu teria que procurar a Justiça para liberar", disse Waldemar.

A produção da TV Vitória/Record TV entrou em contato com a Polícia Civil, que informou que o corpo de Jesuína não está no Departamento Médico Legal (DML) de Vitória. A PCES esclareceu ainda que, em casos de morte natural, o corpo é encaminhado para o Serviço de Verificação de Óbito (SVO), da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa).

Por meio de nota, a Sesa informou que a liberação de corpos no SVO só é realizada mediante documentação da família. Segundo a secretaria, devido à falta de comprovação de parentesco neste caso, o processo foi encaminhado para autorização judicial. 

De acordo com a Sesa, os trâmites já estão em andamento e aguardando decisão.

O que diz o campo jurídico

A advogada Layla Freitas explicou que a união de um casal no papel é uma condição necessária nesses casos.

"Apesar de existir uma relação conjugal e uma união estável, não de maneira formal, seria necessário que essa união estável fosse formalizada pela Justiça", ressaltou.

Sobre os passos que a família deve tomar para conseguir liberar o corpo da idosa, a advogada orienta que a Defensoria Pública deve ser procurada e, em seguida, o Tribunal de Justiça.

"O que nós indicamos, nesses casos, é que a família busque a Defensoria Pública, para que seja orientada, e que apresente provas como vídeos, fotos, lembranças de todos os familiares, tanto do companheiro como dos filhos socioafetivos e, a partir disso, buscar o Tribunal de Justiça para ter uma solução o mais rápido possível", apontou.

O desejo da família é apenas um: dar um enterro digno a uma pessoa que não era do mesmo sangue, mas era muito especial para todos.

"Não adianta eu gritar e pedir a Deus, porque não tem como trazer ela de volta. Mas é minha mãe e eu não vou deixar de lado. Eu não posso desistir, não vou desistir. Estou pedindo uma força para ver se dá certo. Queremos pelo menos fazer um velório", afirmou a filha de criação.

*Com informações do jornalista Douglas Camargo, da TV Vitória/RecordTV

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