Internações de crianças na rede pública por doenças mentais dobrou em 10 anos no Brasil

Foram 25 mil casos nos últimos 10 anos, 107% a mais que na década anterior, de acordo com um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria

Foto: Pixabay
Folha Vitória

Folha Vitória

Folha Vitória

O número de internações de crianças na rede pública de saúde por doenças mentais aumentou mais de 100% na última década. Os números correspondem aos casos em todo o Brasil. São crianças hiperativas, com déficit de atenção, ansiedade e até depressão. Alguns desses problemas, até pouco tempo, eram típicos de adultos. Porém, agora são os mais novos os mais atingidos. 

Um ambiente familiar de conflitos, abusos, a falta de cuidado por parte dos pais, o abandono, tudo isso faz a família crescer de forma disfuncional, o que representa um desafio para as crianças. O desenvolvimento delas é afetado, e carregam feridas por toda a vida.

As condições, apesar de graves, segundo especialistas, são apenas alguns dos motivos que justificam o alto número de internações por doenças mentais de crianças e adolescentes com idade entre 10 e 14 anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). Foram 25 mil casos nos últimos 10 anos, 107% a mais que na década anterior, de acordo com um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria. 

"Os transtornos mentais na infância, eu falo infância, adolescência, inclusive o adulto jovem, eles duplicaram, triplicaram nos últimos anos. Então, tenho famílias muitas vezes, de pais que não são presentes, a dificuldade muitas vezes de limites e regras, ansiedade, transtorno de atenção e hiperatividade, os transtornos de comportamento, muitas vezes os transtornos de depressão, quando não bem conduzidos durante a infância, eles provavelmente se potencializam na adolescência e acarreta muitas vezes um adulto com transtornos mais graves", afirma o neurologista Thiago Gusmão.

"Os pais estão muito tempo fora, cuidando mais de si mesmo, o advento das mídias sociais, onde as crianças vão para um mundo à parte, e esses pais infelizmente também, e não está se prestando atenção em uma coisa que os cientistas estão vendo, que é o consumo de álcool e outras drogas, que nós sabemos que tem um caráter genético nesse consumo", garante o psiquiatra Vicente Ramatis.

Entre os jovens de 15 a 19 anos, a quantidade de registros do SUS durante o período de relacionados aos transtornos comportamentais e mentais, é ainda mais preocupante: foram mais de 130 mil internações. A depressão, considerada por especialistas o "mal do século", lidera os diagnósticos, seguida pelo déficit de atenção e a hiperatividade.

"Criança tem sim, depressão, e pode ser grave. Se a criança começa a ter uma diminuição na iniciativa de brincar com os demais, e postergar atividades além do que normalmente fazem, se mostram desmotivadas de fazer brincadeiras com amigos, a criança muito triste, muito pelos cantos...", avalia o psiquiatra

O psiquiatra alerta ainda para a importância do início imediato do tratamento adequado, já que entre os fatores de risco para a depressão, estão o sedentarismo, o isolamento, e a queda da imunidade.

"Vai desde baixar a imunidade, tem maior facilidade pra infecções, ganho de peso, uma série de sintomas orgânicos. E tem a questão do desenvolvimento intelectual da criança, que fica comprometido".

A indicação de medicamentos para tratar as doenças, precisa ser baseada no caso clínico do paciente. É que as internações pelo uso de substâncias ansiolíticas, sedativas, assim como de drogas e estimulantes, também apresentou aumento nos últimos 10 anos: passou de 510 para 717, um salto de 41%. Quando o assunto é uso de neuroestimulantes, o país ocupa a segunda posição no ranking mundial de maior consumo.

"Tenho visto crianças de 4 ou 5 anos de idade, 'multimedicados'. Às vezes oito medicações para uma criança de 5 anos de idade".

Com informações da repórter Renata Zacaroni, da TV Vitória/Record TV!