Ações de assistência psicossocial estão "empacadas" e pacientes buscam UPA

Prestes a completar uma década do lançamento do plano para reformulação de atendimento à saúde mental pelo governo federal, políticas na área ainda permanecem “empacadas” em Mato Grosso. Neste período, apenas 43 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) foram criados no Estado. Desde 2011, quando o plano foi lançado, nenhum Caps na modalidade 24 horas foi implantado.

Pacientes em surto, por exemplo, são atendidos em Unidades de Pronto Atendimento (Upas) e no Pronto Socorro. Apesar de, em dezembro do ano passado, o Estado assinar termo para que três municípios criassem Caps 24 horas, o projeto ainda não saiu do papel.

Promotor Alexandre de Matos Guedes, da Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital, avalia que a Rede de
Atenção Psicossocial em Cuiabá, assim como em outros municípios, é precária. Um dos apontamentos é exatamente a
falta de um Caps que atenda 24 horas. “Cuiabá e Várzea Grande já deveriam ter um Caps que funcione à noite. Não há no
Estado nenhum Caps modalidade 24 horas, isso é um impacto muito grande para a saúde mental”.

Guedes cita ainda que o Hospital Adauto Botelho, o único público com leitos psiquiátricos, tem uma estrutura extremamente precária. A tendência, segundo ele, é que todos os municípios mandem pacientes para a unidade, o que compromete ainda mais a rede. “Não há o que se falar em rede, ela não existe de fato e quem sofre mais nesta situação é o paciente que necessita de atendimento”, diz.

A falta de estrutura é uma das reclamações de Daiane Bomdespacho, 30, moradora do Jardim Vitória em Cuiabá. Desde dezembro do ano passado ela trata depressão na unidade do Caps do bairro CPA IV. Ela afirma que o tratamento é de excelência, mas que o ambiente é precário. Diz ainda que só conseguiu vaga na unidade após a família interceder e o caso ser avaliado como gravíssimo, pois a consulta pela Central de Regulação ainda não foi liberada.

A doença é enfrentada pela paciente desde 2013, porém Daiane diz que a crise mais severa veio no ano passado. Formada em Ciências Contábeis e iniciando uma faculdade de Direito, a jovem trabalhava em agência bancária e desistiu de tudo. Ela afirma que a sobrecarga foi um dos fatores que contribuiu para o quadro, inclusive numa tentativa de suicídio. “Ficava sem comer, sem dormir, abandonei estudo, trabalho e me afastei dos amigos. Nunca pensei que ia passar por isso. Só busquei atendimento porque minha mãe insistiu muito. No começo eu tinha muita vergonha, mas com o tratamento as coisas
começaram a mudar”, conta.

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