Servidores, patrimônio do Estado

Antônio Magalhães

Antônio Magalhães

Gazeta Digital

A trama é antiga e se iniciou no governo anterior: os servidores públicos são os vilões. Não trabalham, dizem. O Estado está quebrado por conta da folha salarial.

Assim, é preciso dizer que o serviço público é, em última instância, o único acesso que a população tem, a serviços de saúde, segurança e educação. E não falo só dos pobres. Se um cidadão de classe média alta for atropelado em frente a uma boate em Cuiabá, quem vai é a ambulância Alfa do Samu. A pessoa será levada ao Pronto-Socorro. A Polícia Militar isolará o local, a Polícia Civil iniciará a investigação e chamará os Peritos Criminais para a perícia de local de crime, assim por diante. Todos serviços públicos.

Para que essa dinâmica (Samu, Pronto-Socorro, PM, PJC, Politec) funcione, são necessários servidores que façam andar os processos de aluguel de viatura, ambulância, combustível, arma, munição, medicamentos e até o sistema de informática/telefonia instalado no Ciosp.

Se em um caso concreto, tudo isso funcionou, é porque os servidores públicos, quem diria, estão trabalhando!

Além de trabalhar, os servidores muitas vezes bancam o Estado. Logo que entrei para a Politec, lotado no interior, fui chamado para uma ocorrência envolvendo morte por eletroplessão (choque elétrico). Antes de me deslocar para o local procurei na base o multímetro (aparelho que mede tensão e corrente elétrica). Não tinha. No caminho parei em uma loja de ferramentas e comprei um, do meu bolso. Sem ele a família jamais teria descoberto onde estava a corrente de fuga que matou um adolescente e provavelmente faria outras vítimas. PS: ainda é o único multímetro da unidade.

Entretanto, nenhum servidor do Estado que leia meu relato vai se espantar, já que o que fiz é rotina em centenas de unidades, das mais diferentes áreas, de modo que chama a atenção a quantidade de críticos, que usufruem diretamente do trabalho de milhares de servidores públicos, sem se darem conta. São os que dizem que nós não trabalhamos e ao mesmo tempo que não podemos fazer greve para não prejudicar a população. Estranho, não?

Certamente existe muito a se melhorar no serviço público. São gargalos enormes, principalmente se a gestão estiver mais preocupada em favorecer determinadas empresas em detrimento das necessidades da população. Quantas sugestões de melhoria em gestão ou implementação de novas ferramentas que ampliariam o atendimento ao cidadão e gerariam economia ao próprio Estado são “engavetadas” porque não se atendem determinados interesses? Podem acreditar que nos últimos anos fizemos vários desses apontamentos, várias parcelas de contribuição, solenemente ignoradas, sabe-se lá porquê.

Antônio Magalhães é médico, perito e presidente do Sindicato dos Peritos Criminais de Mato Grosso (Sindpeco).

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