Site recebe mais de 10 mil currículos de mães que buscam emprego

O site "Contrate uma mãe", iniciativa que tem como objetivo ajudar mães a voltarem ao mercado de trabalho, já recebeu mais de 10 mil currículos até setembro deste ano.

Por meio do site, mulheres com filhos podem cadastrar o currículo, que é enviado a empresas parceiras. A iniciativa foi criada pela Agência Team Worker.

O CEO da Agência Team Worker, Rogério Pinheiro, diz que o projeto nasceu em conversas internas entre membros da companhia. “Para que a gente pudesse fazer um projeto bacana e percebemos uma tendência por profissionais multifacetados. Ter muitas coisas para fazer e ter foco, forte resiliência. Vimos em uma pesquisa que esses são atributos que a mulher aprimora depois da gravidez”, explica.

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Segundo Pinheiro, hoje há 30 empresas parceiras que selecionam funcionárias desta base de candidaturas e que o sistema funciona como uma ponte entre os contratadores e as mulheres.

O site é gratuito e possui mulheres com todos os perfis profissionais: desde pessoas sem escolaridade a mestrado, com filhos de todas as idades.

Mercado de trabalho
A fundadora do site "Fico com a Cria", Juliana Martins, diz que “existe um movimento de mães que estão se levantando e começando a questionar esses direitos e que têm empresa que já está se preparando [para incluir estas mulheres], mas ainda são poucas”.


A sócia da startup Maternativa Vivian Abukater afirma que a mulher ainda é considerada a principal cuidadora dos filhos e do lar na cultura brasileira. “Existe uma divisão de trabalho muito pouco igualitária. Toda responsabilidade do cuidado dos filhos, dos cuidados domésticos, cai sobre a mulher”, diz.

Para Vivian, questões ligadas a maternidade, como faltar ao trabalho para consultas pediátricas e compromissos escolares ainda são mal vistas pelo mercado. "Isso é muito velado, mas todo mundo sabe que acontece, porque as estatísticas estão ai para comprovar", afirma.

As mulheres que deixaram o mercado de trabalho por opção ou por demissão após a maternidade sentem dificuldades logísticas para voltar, já que precisam contar com pessoas ou um local para deixar a criança durante a jornada de trabalho.

Uma pesquisa da FGV (Fundação Getulio Vargas) aponta que 48% das mães acabam fora dos seus empregos até os filhos completarem um ano.

A sócia da startup B2Mammy, Dani Junco, diz que muitas vezes as mães vivem esta experiência depois de colocar as contas na ponta do lápis. "[Ela avalia] se o custo que vai ter com a rede de apoio e o que ela ganha vale a pena. Na hora que faz a conta, não faz sentido [continuar no emprego]".

Vivian explica que mulheres com melhor condição financeira conseguem contratar uma babá ou escola em tempo integral, enquanto as mães da periferia dependem de creches públicas. “O horário das creches nem sempre atende as necessidades das mães”, afirma.

Para Vivian, a diferença entre os cuidados com o filho já começa logo na licença maternidade, quando a mãe recebe de quatro a seis meses de licença e o pai, de cinco a 20 dias, dependendo da empresa em que trabalham. Transformar a licença na mesma para ambos os sexos é um passo importante: “você começa a equalizar os benefícios e mostrar que o cuidado com a criança é tanto responsabilidade da mãe como do pai”.

Gatilho para empreender
Juliana, de 24 anos, sentiu na pele a necessidade de empreender, já que não conseguia voltar ao mercado de trabalho depois do nascimento da filha, Bia.

"Eu sentia que gostavam do meu perfil, mas que minha experiência era anulada [quando dizia que era mãe]"


Juliana trabalhou como vendedora a maior parte do tempo antes de empreender. Para ela, a rede de apoio é fundamental para que a mulher consiga voltar ao mercado. “Eu não conseguia fazer nada, porque eu não tinha com quem deixar minha filha”.

Hoje, o Fico com a cria é um serviço de babás. As mães interessadas em contratar uma babá precisam entrar em contato pelo WhatsApp, enviar informações pessoais, como CEP, dia e horário que precisa da babá e dados sobre a criança.

É enviado um orçamento e, depois do pagamento, fica confirmada a ida da babá no dia e horário combinados. Hoje a empresa possui 12 babás autônomas e a ideia é que a empresa tenha cerca de 30 até o final do mês. De abril a setembro deste ano, foram realizados cerca de 130 atendimentos.

Dani diz que muitas mães empreendem, seja "pela dor ou pelo amor". Ela explica que existem mulheres que "não têm saída e empreendem para tirar uma grana extra" e as que encontram na própria maternidade negócios que poderiam dar certo, com base nas necessidades diárias.

A maternidade traz novas habilidades para a mãe, como conseguir fazer coisas com muito pouco, aumentar a criatividade e a sensação de urgência para resolver problemas.

Para ela, o primeiro modelo é o mais difícil, como foi o caso de Juliana, "porque a mãe não tem um negócio em mente".