Boate Kiss

Cidades Kiss: 'Achava que era seguro', diz testemunha de sócio sobre o local

Kiss: 'Achava que era seguro', diz testemunha de sócio sobre o local

Engenheiro Thiago Mutti esteve na boate 30 dias antes da tragédia, que matou 242 pessoas e feriu mais de 600 em Santa Maria (RS)

  • Cidades | Fabíola Perez, do R7, em Porto Alegre (RS)

A testemunha de defesa do réu Mauro Hoffmann, o engenheiro civil Thiago Flores Mutti, 46 anos, que passou a informante no tribunal do júri do caso da boate Kiss, disse na manhã deste domingo (5) que, ao saber do incêndio por um telefonema de um amigo, ficou surpreso. “Todo mundo abre um negócio achando que vai dar certo. Nunca me passou pela cabeça, estava lá 30 dias antes. Achava que era seguro”, afirmou ao juiz.

Mutti, que depõe na condição de informante uma vez que afirmou que responde a um processo por falsidade ideológica, disse que a irmã era sócia da boate em 2009. Segundo ele, sua função era visitar a casa noturna na condição de engenheiro. “A boate Kiss, em 2009, foi aberta como empresa em sociedade. Foi aprovada nos Bombeiros e estava tudo dentro das normas, ela já inaugurou com o PPCI [Plano de Prevenção e Proteção contra Incêndios]. Em 2009, todos os proprietários tentaram fazer da forma mais coerente”, disse. “Quando abre um negócio, a gente espera que seja um sucesso”, complementou.

Ao contrário disso, Mutti disse que a abertura foi um “fracasso”. O engenheiro afirmou que a reforma demorou mais do que o previsto e deu prejuízo à irmã. “Como demorou o processo, minha irmã decidiu fazer mestrado. Meu pai se desentendeu com o Alexandre, que era o sócio principal da boate. Meu pai quis correr, eu também não quis ficar nesse negócio. O Alexandre [Costa] não quis comprar a parte da minha irmã porque estava mal”, explicou.

Em 2009, os proprietários da boate eram Elton Cristiano Uroda, Alexandre Costa e a irmã de Thiago Mutti. O engenheiro disse também que chegou a oferecer a parte da sociedade da irmã a Mauro Hoffmann, mas, segundo ele, o réu não aceitou a proposta feita. A negativa teria ocorrido, de acordo com o informante, porque o estabelecimento tinha dívidas.

Mutti contou, então, que ofereceu a parte da irmã a Elissandro Spohr, mais conhecido como Kiko. “O incômodo foi tão grande por parte do meu pai que queríamos vender por qualquer valor”, disse. O engenheiro afirmou que Kiko, até então músico, ofereceu um carro usado, um Volkswagen New Beetle, no valor de R$ 45 mil e uma quantia de R$ 10 mil. Segundo o engenheiro, Kiko disse que só pagaria quando o alvará de funcionamento da Prefeitura de Santa Maria saísse. Em janeiro de 2010, conforme Mutti, Spohr já estava trabalhando na boate junto com o sócio Alexandre Costa.

"Achava que era seguro e seria um sucesso", diz testemunha de sócio da Kiss sobre o local

"Achava que era seguro e seria um sucesso", diz testemunha de sócio da Kiss sobre o local

Fabíola Perez / R7

O engenheiro informou ao júri que somente em abril de 2010 o documento da prefeitura ficou pronto: “Desde dezembro de 2009, nossa família saiu totalmente e fisicamente da Kiss. Só a distância fiquei sabendo que o Kiko transformou a pista dois em um pub”.

Segundo Mutti, quando Spohr assumiu a boate, o movimento aumentou: “O sucesso da Kiss é um mérito do Kiko. Em uma das últimas ligações, em 2012, ele comentou que continuava se incomodando com os vizinhos, que faria um TAC [Termo de Ajustamento de Conduta] e que faria uma parede de pedra para resolver”.

No dia 27 de dezembro de 2012, quando relatou ter ido pela última vez à boate, Mutti se lembra de ter observado a estrutura do estabelecimento. “Notei que era bem diferente, achei ela bem ampla porque ele tirou a pista dois, tinha lustres bonitos, cortinas e o pé-direito, em função do isolamento acústico, foi rebaixado. Na minha visão de engenheiro, achei a boate muito boa. Não vi espuma, vi extintor nas paredes”, destacou.

Elissandro Spohr (de verde) é réu e comprou parte da boate da família de Thiago Mutti

Elissandro Spohr (de verde) é réu e comprou parte da boate da família de Thiago Mutti

Fabíola Perez / R7

Júri

O julgamento começou na quarta-feira (1º) e não tem data definida para terminar. Os depoimentos têm durado entre duas e cinco horas. Em razão disso, o Ministério Público propôs que cada parte reduzisse o número de testemunhas e vítimas. A proposta foi apresentada no plenário e aceita pelo juiz.

Este é considerado o maior tribunal do júri da história do Rio Grande do Sul e um dos mais importantes do país.

Quatro réus são julgados pela morte de 242 pessoas e pela tentativa de homicídio de outras 636 que ficaram feridas no incêndio ocorrido em Santa Maria (RS). Dois deles eram sócios da boate, e os outros dois, músicos da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava no local e pôs fogo no teto.

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