Cidades O perfil da mãe que mata e o mito de Medeia

O perfil da mãe que mata e o mito de Medeia

Especialistas apontam as razões que podem levar mães a matarem os próprios filhos 

  • Cidades | Deborah Bresser, Do R7

Vanessa Aparecida Nascimento matou sua filha, Maria Clara; Marília Cristina Gomes assassinou o filho Keven

Vanessa Aparecida Nascimento matou sua filha, Maria Clara; Marília Cristina Gomes assassinou o filho Keven

Montagem/R7

Autora da tese de direito penal Pais Homicidas e Inimputabilidade: um estudo transdisciplinar - (publicada em 2009), a dra. Fabíola Dornelles aponta, em sua pesquisa, que as mulheres que praticam o filicídio geralmente são jovens, acometidas de algum transtorno mental, e optam por matar filhos mais velhos. A justificativa de doença do filho ou o temor de que algo pior acontecesse a ele também se mostram recorrentes. Gravidezes frequentes e alguns sintomas autopunitivos também são comuns. Não se percebe, geralmente, indício de arrependimento pelo ato. A reiteração de golpes e o uso de instrumentos contundentes, como faca, também chamam a atenção ao fato de que a violência extrema pode ser dita como recorrente. Determinados fatores não podem ser desprezados: o histórico de violência familiar na infância ou na vida conjugal, bem como o abandono e o baixo grau de instrução desses pais filicidas.

Mito de Medeia: filicídio por retaliação

Mito de Medeia: filicídio por retaliação

reprodução

Nos casos que ganharam as manchetes nesta semana — o assassinato das crianças Keven Gomes Sobral, de dois anos, encontrado morto dentro de um sofá e Maria Clara Zortea Ramalho, de sete anos, espancada, colocada ainda com vida no porta-malas de um carro, enterrada em um matagal — não se encontram traços do chamado “Complexo de Medeia”, mães que matam para se vingar dos companheiros. Mas é uma característica normalmente encontrada nos casos de filicídio. O mito grego de Medeia é talvez um dos mais terríveis e assustadores. A trágica história da mãe infanticida que apunhala os próprios filhos para vingar um amor malsucedido costuma se repetir na vida real.

Narra a lenda que Medeia, depois de se apaixonar por Jasão, resolve entregar-lhe o precioso velocino dourado – um carneiro encantado que  produzia infinitamente uma magnífica lã de ouro. Para esta empreitada, Medeia revela ao amado as artimanhas e mágicas para conseguir tal feito, sendo que uma delas era matar o dragão que zelava pelo carneiro. De posse deste precioso animal, depois de alguns anos, Jasão esquece Medeia e se apaixona por Creusa, a filha do rei Creonte. Traída e inconformada, Medeia jura vingança e cumpre: mata Creusa e depois os próprios filhos que tivera com Jasão.

Em seu artigo O Mito de Medeia: quando os pais matam seus filhos, Vanessa Fabiane Machado Gomes Marsden, mestre em psiquiatria e saúde mental pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em Portugal, esclarece que homens e mulheres tendem a matar seus filhos por razões bastante diferentes: homens são geralmente associados à retaliação, disciplina ou rejeição por parte da vítima. As mulheres, por outro lado, matam pois o filho não era desejado (tipicamente neonaticídio, cuja mãe escondeu a gravidez);  porque o assassinato foi percebido como melhor escolha para criança (filicídio altruísta); ou porque a mãe estava em estado psicótico no momento do crime.

Veja também: Mães que matam: o que leva mulheres a tirar a vida dos próprios filhos

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