Cidades ‘Sentença infeliz’ é o novo texto de João Trindade

‘Sentença infeliz’ é o novo texto de João Trindade

Existe uma música de Noel Rosa, chamada “Palpite Infeliz”, que, em criança,

Portal Correio

Existe uma música de Noel Rosa, chamada “Palpite Infeliz”, que, em criança, eu escutava na voz de Miltinho.

Tal título se adapta muito bem à decisão a que vou me referir: a discutida (e discutível!) sentença proferida pelo juiz Manuel Maximiano Junqueira Filho, no processo 936/07, São Paulo. É a famosa sentença do caso do, na época, jogador do São Paulo Richarlisson.

Apesar de também ser advogado militante e professor de Introdução ao Direito, não vou falar sobre o lado jurídico da sentença (lastimável, aliás), mas sobre a linguagem, objeto da nossa coluna.

Há uma diferenciação entre língua e linguagem. A primeira é um sistema de códigos usado para facilitar o entendimento entre os elementos de um grupo social; a segunda é individual e flexível; podendo variar, dependendo da idade, cultura, posição social, profissão, etc.

Entre os diversos níveis de linguagem que temos, destacamos a linguagem popular (coloquial) e a linguagem culta (ou padrão). Cada uma, evidentemente, deve ser usada em determinadas situações, não devendo quem escreve misturá-las.

Infelizmente, foi o que fez o magistrado em questão, na sentença citada: misturou as linguagens popular e erudita, sendo que usou mais a primeira, o que é inadequado num documento daquela natureza.

Começa o magistrado (2º parágrafo):

“Vou evitar um exame perfunctório (…)”

Para, estranhamente, no 8º parágrafo, assinalar:

“Quem é ou foi boleiro (…)”

E, no 5º, arrematar:

“Sejas (sic), Clodoaldo e Edu, no Peixe (…), Carlos, Oscar, Vanderley, Marco Aurélio e Dica, na Macaca (…)

“ Pisou na bola”, também na linguagem, o nosso magistrado. Que pena!

E POR FALAR NISSO…

Vamos explicar alguns termos usados pelo magistrado:

Perfunctório = superficial.

Peixe (no contexto) = denominação popular da equipe do Santos, de São Paulo.

Macaca (no contexto): denominação popular dado à Ponte Preta (de Campinas).

ERROS NA ESCALAÇÃO

De quebra, o magistrado também errou em relação ao futebol. O nome do antigo goleiro do Santos é Cejas; e não, Sejas.

Outro detalhe: O juiz escalou a seleção de 70 de forma errada. Escreveu: Félix, Carlos Alberto, Brito, Everealdo e Piazza; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivelino.

Na verdade, além de errar na escalação (escalou no 4-2-4), sistema que não mais foi usado após a entrada de Zagalo (no lugar de João Saldanha), o novo técnico; com o estilo recuado, que lhe era peculiar, escalou um 4-3-3; e a escalação foi: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza (que fora deslocado por Saldanha para a quarta zaga (era meio –  campista) e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jairzinho, Tostão e Pelé.

* João Trindade | Transcrito do livro “Português descontraído”, Editora Alumnus/Leya, 2018

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