Coronavírus

Cidades 'Tenho ódio de ver aglomeração', diz enfermeira que perdeu marido

'Tenho ódio de ver aglomeração', diz enfermeira que perdeu marido

Relaxamento das estratégias restritivas para conter pandemia resultou em mais casos e mortes pela covid-19 no Brasil

Agência Estado
Parentes de vítimas da covid-19 contam a revolta que sentem ao ver aglomerações

Parentes de vítimas da covid-19 contam a revolta que sentem ao ver aglomerações

Callaghan O'Hare / Reuters - 30.12.2020

Enfermeira na Policlínica de Florianópolis, Adriane Sônia Martins, de 41 anos, usava seu conhecimento sobre a covid-19 para proteger os parentes. Militante das medidas de prevenção, não imaginava que veria o problema atingir sua família. Em outubro, ela e o marido, Antônio Martins Filho, se contaminaram. Adriane teve sintomas, mas se recuperou em casa. Ele foi para o hospital e não resistiu.

O relaxamento das estratégias restritivas para conter a pandemia - que vem resultando em mais casos e mortes pela covid-19 no Brasil - expôs quem tinha conseguido se cuidar nos primeiros meses de pandemia. De norte a sul do País, familiares de vítimas relatam angústia.

Com 43 anos, Martins Filho era motorista do Departamento de Trânsito da prefeitura de Florianópolis, sem comorbidades e "jogava os 90 minutos" de futebol toda semana. Por medo do vírus, tinha se afastado do esporte. Lavava todas as compras do supermercado e era visto pelos amigos como medroso.

Ao ser contaminado, desenvolveu hipoxemia silenciosa, sem sintomas nem falta de ar. "Agravou de um dia para o outro, com febre. Na tomografia, o resultado deu 50% do pulmão comprometido sem ele sentir nada. No dia seguinte, a saturação começou a cair", diz Adriane.

"Foi a pior notícia da minha vida, eu tinha muita esperança na recuperação dele. Pelos meus conhecimentos, sabia que poderia ficar com sequelas, mas tudo parecia reversível", conta a viúva.

"Trabalhei tanto pela conscientização e tive essa grande perda na minha vida." Martins Filho passou 17 dias entubado na UTI do Hospital Baía Sul, na capital catarinense, lutando contra a infecção que sufocou o pulmão e os planos da família.

Ainda afastada do trabalho, a enfermeira diz que não sabe como vai ser a volta às atividades. "Tenho ódio de olhar as pessoas nas ruas se aglomerando e pena dos meus colegas, que estão esgotados. Eu sempre escutei muitas piadinhas de pacientes, tipo: 'essa doença é coisa para derrubar o governo'; 'é coisa da mídia lixo'. Isso já me deixava muito triste."

Na família Carvalho, em Belo Horizonte, a esperança de que seria possível vencer o novo coronavírus durou só algumas horas. "O médico ligava toda noite para dar notícias. Um dia disse: 'o quadro é favorável'. Na madrugada do dia seguinte: 'ele não resistiu'". O professor e administrador público João Victor Teodoro Carvalho, de 22 anos, relata assim os últimos momentos do pai, o consultor de material de construção José Márcio de Carvalho, de 58 anos.

Dos quatro integrantes da família, pai, filho e mãe - a dona de casa Bernadete Júnia, de 56 anos - ficaram doentes no início de dezembro.

Na segunda semana de sintomas, o pai apresentou febre alta e palpitação. José Márcio, que era diabético e tinha sobrepeso, já tinha ido ao hospital, mas resolveu consultar o médico de novo. "Na segunda vez, já mediram a saturação e viram que estava baixa. O levaram para o oxigênio, depois para o CTI, mas na madrugada do dia 27 teve parada cardiorrespiratória e morreu. É uma doença traiçoeira", lamenta João Victor.

Em Manaus, 17 dias separaram a morte do casal Miguel da Silva Peixoto, de 74 anos, aposentado, e Rose Arcângela Silva, de 59, funcionária pública federal. "Nossa família foi totalmente destruída", diz Anne Gabrielly, a filha mais velha.

Quando todos em casa tiveram febre, dor de cabeça e cansaço, a família recorreu a um kit comumente receitado no Amazonas durante a crise sanitária, com vitaminas, inalação, ivermectina e azitromicina. Essas medicações não têm eficácia cientificamente comprovada para a covid-19. Os filhos tiveram sintomas leves, mas Rose acordou mal em 3 de setembro, quando foi levada ao hospital e imediatamente internada, já com 70% dos pulmões comprometidos. Hipertenso e diabético, Miguel teve piora e morreu logo depois.

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