Escort abandonado há quase dez anos em bairro nobre de Brasília é símbolo de problema da capital

No primeiro semestre deste ano, 423 veículos estavam abandonados em todo o Distrito Federal

Escort está abandonado desde 2006 em uma quadra da Asa Sul. Outros três veículos estão largados na mesma área residencial
Escort está abandonado desde 2006 em uma quadra da Asa Sul. Outros três veículos estão largados na mesma área residencial Douglas Lemos/R7

Alguns deles já foram sonho de consumo entre as décadas de 1970 e 1990. Estacionados em vagas públicas, a maioria mostra os efeitos do tempo: muita sujeira, ferrugem, pneus murchos e teias de aranha presentes no exterior. Há veículos até com placas amarelas, utilizadas até 1999. Segundo as Administrações Regionais do Distrito Federal, ao final do primeiro semestre de 2015 eram 423 veículos abandonados em todo o DF, um problema ambiental e para os moradores da capital.

Somados os veículos que estão no Plano Piloto (150), composto por Asa Sul, Asa Norte e Vila Planalto; com os que estão no Sudoeste, Octogonal e Cruzeiro (120), o índice de carros em situação de abandono na área central chega a 63,8%. Isso significa que a maior parte dos abandonos ocorre nesta área, região mais nobre da capital. De acordo com o Detran-DF (Departamento de Trânsito do Distrito Federal), se não estão em situação de infração de trânsito – ou seja, se estão estacionados corretamente – a reponsabilidade sob os órfãos de quatro rodas se torna da administração de cada RA (Região Administrativa).

Após o levantamento, que também é de responsabilidade das RA, a Vigilância Sanitária é acionada para avaliar se existe risco à saúde pública. Pela legislação brasileira, o dono do carro pode ser acionado se houver um passivo de multas e pode ser notificado em caso de risco ambiental. Mas não é penalizado pelo fato de abandonar 'lixo' no meio da rua. 

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Em nota, a Administração Regional do Plano Piloto informa que há uma articulação com Detran-DF para identificação de uma área adequada para o depósito desses veículos. Isso deve ser feito sem que haja qualquer tipo de dano ambiental ou urbanístico.

Procurada pela reportagem, a Administração Regional de Sudoeste, Octogonal e Cruzeiro informa que mais de 50% dos veículos abandonados estão no setor de oficinas da RA e disse que uma operação sucata na região é uma das prioridades da gestão. A administração relatou também que boa parte dos veículos abandonados no Sudoeste foi retirada pelos proprietários, principalmente os localizados na Primeira Avenida. A ação é fruto de campanha educativa realizada pela administração, desde o início deste ano.

O estudante Alex Silva, morador de uma quadra residencial da Asa Sul, disse que, desde 2006 convive com um Ford Escort abandonado em sua quadra. Silva relatou que outro veículo, uma Chevrolet Marajó, chegou a ser vizinha do Ford por algum tempo.

— A Marajó foi retirada, mas o Escort continua abandonado na mesma vaga de sempre.

Alex relatou, também, que o principal incômodo fica pelo uso constante do estacionamento e também pelo risco do automóvel se tornar um foco para o mosquito da dengue ou mesmo de abrigo para ninhos de ratos. Conforme apuração do R7 DF, existem pelo menos outros três veículos abandonados na mesma quadra.

Segundo a Divisa (Diretoria de Vigilância Sanitária do Distrito Federal), que pertence a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, não há um número de veículos retirados das ruas devido ao risco a saúde da população. Ainda de acordo com a Diretoria de Vigilância Sanitária, o principal risco é o de reprodução do mosquito da dengue, devido a água parada em alguns automóveis.

Operações

Após um mapeamento, as Regiões Administrativas pedem que o Detran-DF (Departamento de Trânsito do Distrito Federal) faça a remoção dos carros abandonados. Desde 2011, as operações de retirada de veículos abandonados tiraram 457 automóveis das ruas do DF. Somente no primeiro semestre deste ano, 83 foram recolhidos.

Coube ao Guará o título de campeão de veículos abandonados retirados das ruas no primeiro semestre de 2015: foram 20. Em segundo lugar ficou o Paranoá, com 16 veículos – quatro donos procuraram o Detran-DF e retiraram seus veículos do depósito.

Não houve registro de veículos abandonados nos Lagos Sul e Norte, Park Way, Recanto das Emas, Riacho Fundo II e São Sebastião.

Carros clássicos são fotografados por fãs de automóveis
Carros clássicos são fotografados por fãs de automóveis Reprodução/Facebook

Entusiastas clicam

Os veículos abandonados chamaram atenção de fãs de automóveis. Os designers Marcelo Jatobá e Tiago Araújo a criaram o site Parados no Tempo. O projeto começou em agosto de 2013 e já agrupou cerca de 10 mil seguidores em redes sociais da internet. Agora, os jovens querem dar um passo à frente e lançar uma publicação impressa.

— Nós buscamos mostrar os efeitos que o tempo e a falta de movimento causam: ferrugem, sujeira, queimadura na tinta, teias de aranha, conta Tiago Araújo. 

Ele e Marcelo Jatobá, programador visual da Universidade de Brasília, publicam toda quarta-feira uma série de fotos, de um novo achado, na maioria das vezes automóveis ícones, que marcaram gerações.

— São os ensaios que mais agradam. O Ford Galaxie, por exemplo, recebeu mais de 20 mil visualizações — diz o servidor público.

*Colaborou Douglas Lemos, estagiário do R7 DF