Jovens empreendedores de Brasília criam ‘janela para o mundo’ com realidade virtual  

Vídeos em 360º produzidos por eles podem ser vistos, ou vivenciados, com um smartphone e um óculos de papelão

Os cineastas Henrique Siqueira e Filipe Gontijo mostram os aparelhos que melhoram o acesso aos vídeos em 360°

Os cineastas Henrique Siqueira e Filipe Gontijo mostram os aparelhos que melhoram o acesso aos vídeos em 360°

Rodrigo Vasconcelos/R7

Imagine a realidade virtual ao alcance das mãos. Imagine a possibilidade de ‘viajar’ a qualquer lugar do mundo e poder explorar o ambiente em 360º, ouvir o som ambiente e se sentir no local. Parece algo distante, mas não é. A realidade virtual já é acessível para todos e deve, cada vez mais, se tornar parte da nossa rotina. Basta ter um smartphone, um fone e um óculos de papelão de R$ 30.

Apostando nisso, um grupo de jovens empreendedores de Brasília desenvolveu produtos, trouxe experiências de outros países e já está produzindo filmes de realidade virtual a um custo baixo, pensando em levar o conteúdo para as salas de aula.

— Como a experiência é imersiva e cria a sensação de realidade virtual, você leva o estudante a uma excursão sem gastar dinheiro com a logística ou alimentação. Quando se fala em educação, a prática é muito importante, e não só no ensino fundamental, mas na educação técnica também, na qual o 360° pode ajudar a trabalhar em vídeos de treinamento, diz Vinicius Magalhães, criador da produtora Me Gusta.

Com o crescimento dos investimentos dos gigantes mundiais da internet na realidade virtual a Me Gusta resolveu produzir conteúdo de realidade virtual. Mas para fazer os vídeos em 360º primeiro precisou desenvolver uma peça para acoplar as seis câmeras Gopro (para imagens em movimento e de alta definição) que captam as imagens. Mesmo sem conhecimentos em engenharia eles desenharam uma peça e a produziram em uma impressora 3D.

O primeiro protótipo deu errado, mas após algumas tentativas eles chegaram a uma solução e puderam começar a filmar os vídeos e editar o conteúdo. 

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Projetos de gigantes

Dois projetos do Google serviram de inspiração para os empreendedores brasileiros. Um deles é o Google Cardboard, que transforma simples caixas de papelão em óculos que usam a tela do smartphone como janela para a realidade virtual dos vídeos.

Outro projeto da gigante norte-americana da internet que inspirou os brasilienses é o Google Expeditions. Com o lema “vá a lugares aonde o ônibus escolar não chega”, a ideia é filmar vídeos didáticos de expedições com a tecnologia 360° e levar os óculos de papelão até crianças de escolas ao redor do mundo, aliados a parceiros como os museus Smithsonian e o de História Natural de Nova York.

O criador da Me Gusta, Vinicius Magalhães, conta que a acessibilidade da realidade virtual pelo celular, principalmente após os investimentos do Google para que o YouTube consiga receber e reproduzir dos vídeos em 360°, estimularam a ideia da produção do material próprio.

— Depois dos investimentos do Google, do Facebook e da Samsung, estes vídeos vão ser tendência. Até porque eles são acessíveis, pois temos um dispositivo de acesso no bolso (celular), e por R$ 30 você faz o óculos de papelão, que te permite uma experiência muito diferente, então por aí a gente resolveu apostar.

A partir daí, a empresa aceitou o projeto dos cineastas Filipe Gontijo e Henrique Siqueira para criar por conta própria, sem patrocínios, os dois vídeos pilotos da série ‘Brasília 360°’, com narrativas de cartões postais da cidade. No primeiro, publicado em junho, eles subiram numa roda gigante do Parque da Cidade para mostrar o pôr-do-sol no centro da cidade. O mais recente, de agosto, conta a história de três amigas que passeiam de carro pela Ponte JK, no Lago Paranoá.

Estes vídeos inspiraram Gontijo a pensar em projetos novos voltados para a área da educação em diferentes vertentes, inspiradas pela ideia do Google Expeditions e pela imersão causada pela realidade virtual.

— Numa excursão tradicional aqui em Brasília, você poderia ir até ali no Poço Azul, por exemplo. Com a realidade virtual, você pode ir para um deserto na Austrália. Numa campanha de trânsito, que é o que queremos oferecer, para alguém estar dentro de um acidente de carro, talvez ajude a pessoa a não beber e dirigir. Esse tipo de coisa que já se faz com vídeo e foto pode ser ainda mais impactante, e tem muitas outras aplicações.

Por enquanto, Siqueira explica que o foco do grupo é finalizar o projeto cultural ‘Brasília 360°’, para conseguir uma base de experiência mais sólida antes de criar os vídeos educacionais. No entanto, Magalhães afirma que os pilotos fazem parte do plano de negócios da empresa.

— A gente tem usado esses dois primeiros vídeos como portfólio. Eles entraram na nossa apresentação comercial, e a gente hoje tem uma série de propostas da produtora para realizar projetos em 360°, como uma caixinha de papelão para o óculos, que pode ser personalizada com o logo do cliente [para assistir aos vídeos 360º feitos para o cliente]. 

Aspectos técnicos

A criação da peça que acopla as câmeras, desenvolvida pela equipe, custou apenas R$ 300 e, ao todo durante os quatro meses da concepção até a publicação do primeiro piloto, os brasilienses gastaram aproximadamente R$ 30 mil no processo.

O material filmado foi levado para um programa especial de edição que reúne os diferentes arquivos das câmeras e os converte em uma única imagem mais nítida para criar a ilusão do ambiente em 360º. Ao todo, foram 20 profissionais engajados na produção dos dois vídeos do Brasília 360° ao longo de sete meses de trabalho. Em cada vídeo, a empresa gastou apenas um dia para as filmagens finais, mas a fase de testes durou mais tempo. Na roda-gigante do Parque da Cidade, por exemplo, tiveram de subir quatro vezes antes de levar a equipe inteira. 

Segundo Henrique Siqueira, a produção de vídeos nessa plataforma no Brasil, por enquanto, ainda está em fase inicial: na divulgação de testes e meros registros de locais com a nova tecnologia. A ideia da empresa para criar um diferencial é criar narrativas para ampliar a sensação de imersão do espectador em uma história e um ambiente diferente, no intuito de se preparar para uma popularização do 360°.

— Temos suporte para todas as etapas da produção, desde a filmagem, passando pela edição até a distribuição do produto final. Depois do ‘boom’ de investimentos, as empresas imaginam que, até o final deste ano, teremos o ‘boom’ de pessoas descobrindo e aproveitando, e por isso estamos entrando antes. Estamos descobrindo a tecnologia para usar da melhor forma possível e colocar numa narrativa.

Além do celular, no computador também é possível assistir aos vídeos com a tecnologia 360°, em navegadores como o Google Chrome, e redes sociais como o YouTube, utilizando o mouse para girar o ângulo de visão.

Aplicações na educação

A especialista em novas tecnologias na educação da UnB (Universidade de Brasília), Leda Maria Rangearo, é otimista com relação aos resultados de projetos com realidade virtual nas salas de aula.

— Essa tecnologia tem um potencial enorme, pois permite que você veja um cenário de uma maneira que só teria condições se estivesse lá. Não só para lugares desconhecidos dos alunos, mas também para outros de difícil acesso, e os alunos têm uma visão concreta que permite ver detalhes que numa fotografia fica dificl de perceber, e um vídeo comum demora muito para mostrar.

Contudo, a professora da Faculdade de Educação da UnB alerta que o uso dos vídeos em 360° precisa ter limites para que não se torne prejudicial ao aprendizado.

— A realidade virtual serve a muitos propósitos, mas tem seus limites. É preciso ter clareza, se não a pessoa usa de qualquer jeito. Esta tecnologia não substitui a experiência real, e nem outras mídias mais tradicionais.

Veja aqui um dos vídeos do 'Brasília 360':