Distrito Federal Tráfico de drogas toma conta de escolas no DF, paralisa atividades e obriga polícia a ficar dentro das unidades de ensino

Tráfico de drogas toma conta de escolas no DF, paralisa atividades e obriga polícia a ficar dentro das unidades de ensino

Amedrontados, diretores e professores só trabalham em paz com a PM dentro dos colégios

Escolas do medo no Distrito Federal têm maconha em aula, sala para Polícia e traficante que cobra dívida montado em cavalo

Alunos circulam pelo pátio principal da CEF 04 onde um rapaz de 15 anos entrou montado num cavalo para cobrar uma dívida de R$ 30

Alunos circulam pelo pátio principal da CEF 04 onde um rapaz de 15 anos entrou montado num cavalo para cobrar uma dívida de R$ 30

Sandro Guidalli

Um problema silencioso, o do tráfico de drogas dentro de escolas (e não mais apenas do portão para fora), foi escancarado há três semanas em uma escola de Ceilândia (DF) quando um traficante da região entrou montado a cavalo em um colégio para cobrar uma dívida de um aluno. A cena, digna de filme, desencadeou uma série de ações que paralisaram o ensino na escola e mostraram que o tráfico está dentro de outras instituições de ensino da capital do País. 

Ao longo das duas últimas semanas, a reportagem do R7 visitou quatro escolas onde ensino e tráfico convivem, e testemunhou o trabalho da polícia dentro dos centros de ensino, professores e diretores acuados e consumo de drogas. Em uma das manhãs em que passou na escola, a reportagem viu uma menina sendo atendida após ter usado droga em um banheiro. Professores relataram que já flagraram consumo dentro das salas de aulas, e que não sabiam como coibir. Ameaçada de morte pelo tráfico, uma diretora foi exonerada. 

A ação do traficante montado a cavalo é apenas uma de uma sucessão jamais vista de ações praticadas por supostos traficantes dentro das escolas da rede pública de ensino no Distrito Federal. Após o incidente, a rotina de diretores, professores e alunos em Ceilândia, a mais populosa cidade-satélite de Brasília, com aproximadamente 500 mil habitantes, mudou. 

Os ataques paralisaram as atividades letivas, provocaram a exoneração de diretores e obrigaram o governo a reforçar o policiamento do Batalhão Escolar. Em alguns dos colégios, policiais militares têm uma sala só para eles. É o caso do CEF (Centro de Ensino Fundamental) 04, colégio com cerca de mil alunos, onde despacha o capitão Gislando Alves da Costa.

A presença dele e de um auxiliar na vigilância, prevista para durar um mês, inibiu os traficantes e usuários, mas não foi suficiente para interromper os flagrantes. Ainda é comum a apreensão de pequenas quantidades de maconha e outras substâncias, como o lança-perfume, embora, em outra escola, já tenha sido registrado o consumo de cocaína.

O pedido de socorro ao Batalhão Escolar ao qual pertence o capitão foi feito pela direção depois que um suposto traficante de 15 anos invadiu três vezes a escola montado num cavalo para cobrar uma dívida de R$ 30 de um aluno usuário de droga.

A cena, inusitada, ainda está na cabeça de uma professora, que, por razões de segurança, prefere manter-se anônima. Ela, que desenvolve um projeto de ensino de judô para alunos e aprendizes da comunidade, conhece o adolescente, reconhecido como líder de um grupo de menores infratores em parte porque é irmão de um temido criminoso de Ceilândia. Os dois perderam o pai vítima de um acerto de contas e desde então vivem no crime.

Segundo a instrutora faixa preta de judô, o adolescente gosta de animais e tem predileção por cavalos. Com um deles, na segunda-feira, 11 de maio, pouco depois das 15h, invadiu pela primeira vez a escola para onde retornou do mesmo jeito na mesma semana. Para funcionários do colégio, a ação teve efeito antagônico: o de torná-lo conhecido da Polícia e o de aumentar sua fama na comunidade.

Leia mais notícias do R7 DF

Aulas de escultura quebram rotina do medo em escola marcada pelo tráfico de drogas do DF

O precoce traficante é oriundo da Escola Classe 2 onde estudam 520 alunos do primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental. A escola tem um problema crônico, a falta de um porteiro ou vigilante que garanta a segurança de professores e alunos. Aliás, o portão da escola abre diretamente para as janelas das salas, o que a amplia a sensação de insegurança. Já o segundo portão, que dá acesso às dependências, recebe uma vigilância improvisada, feita em revezamento pelos próprios funcionários. Nos últimos dias, uma dupla do Batalhão Escolar garante a segurança fora da escola mas apenas nos horários de entrada e saída de alunos. O contingente de policiais do Batalhão, aliás, é um outro problema. São pouco mais de 300 agentes para fiscalizar quase 1.200 escolas.

Como a Centro de Ensino Fundamental 33, ou CEF 33, vandalizado num domingo quando não havia policiamento ou vigilância. Nas paredes, os nomes de dois diretores já exonerados foram pichados com ameças de morte a ambos. Segundo o coordenador regional de ensino da Secretaria de Educação, Marco Antônio Sousa, a invasão da sala dos diretores foi uma reação dos traficantes incomodados com a presença da polícia. Ele prometeu que em 30 dias o problema da falta de vigilantes será resolvido.

Segundo o comandante da guarnição que vigia as escolas, tenente-coronel Júlio César Lima de Oliveira, a PM não resolverá o problema do uso e tráfico de entorpecentes dentro e fora das escolas mas desenvolve um papel importante de prevenção ao crime, além da mera repressão. Para a presidente da ABRAMD (Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas), a pós-doutora em Psicossociologia e professora da UnB Maria Fátima Olivier Sudbrack, a polícia deve ser treinada para lidar com adolescentes em situações de risco. Ela condena a presença da PM dentro das escolas.

— Até é possível compreender as difíceis circunstâncias vividas por diretores e professores mas a patrulha deve ser pontual e não na repressão ao consumo dentro dos centros de ensino. Quem deve atuar nas escolas é o Conselho Tutelar em parceria com a direção, não a Polícia, avalia Maria Fátima.

Na opinião de Luis Claudio Megiorin, presidente da ASPA-DF (Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF), a presença ostensiva de policiais do Batalhão Escolar é uma necessidade.  Para ele, a situação passou dos limites e a vulnerabilidade das escolas se tornou crônica e corriqueira. Megiorin, que é advogado, identifica na desagregação dos lares e na falta de escolas em tempo integral, que pudessem resgatar os alunos com problemas familiares, algumas das causas da situação limite a que chegou o ensino no DF.

Ele também acredita que falhas na chamada ressocialização de menores infratores são fundamentais para agravar o problema já que adolescentes apreendidos não voltam para a sociedade livres do comportamento que os levou para o sistema que deveria tratá-los além de protegê-los.

— Enquanto não há uma solução para a crise nas escolas e para o problema do sistema sócio educativo, a polícia precisa estar nas instituições para espantar os traficantes. Ainda que a solução seja tópica, ou seja, pontual, diz Megiorin.

Assista às reportagens:

    Access log