Black Friday de 2020 teve de se adaptar a falta de insumos chineses

Setor de eletroeletrônicos, carro-chefe da data, com forte dependência do país asiático,  viu entregar atrasarem até três meses e ficarem mais caras

  • Economia | Marcos Rogério Lopes, do R7

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Importações da China atrasaram até três meses
Pixabay

A lentidão das fábricas chinesas por causa da pandemia de covid-19 terá reflexos claros na Black Friday brasileira. A edição 2020 da tradicional data de promoções, marcada para esta sexta-feira (27), terá produtos eletroeletrônicos, carro chefe em todas os anos, com descontos mais baixos que em novembros anteriores e muitos itens que andavam parados nos estoques.

Busca por conforto em casa deve marcar Black Friday na pandemia

Isso porque as fábricas da China, maior fornecedora de insumos para as fábricas mundiais, reduziram a velocidade desde o início do ano, quando descobriram por lá a doença que pararia a economia global.

No século 19, Black Friday era sinônimo de tragédia na economia

Além do atraso nas entregas, que dificultaram o planejamento e afetaram diretamente o caixa das varejistas nacionais, a alta do dólar complicou de vez a programação para a data que exige preços mais baixos que no restante do ano.

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A Fecomércio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) considera a Black Friday deste ano uma oportunidade para os empresários darem fluidez ao estoque das mercadorias e desfazerem-se de itens encalhados.

Em outros termos, não é o momento de oferecer novidades ou tecnologia de ponta a preço baixo.

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"A pandemia do coronavírus causou queda da atividade econômica, impactando diretamente no desabastecimento da cadeia produtiva, o que vem causando uma escassez de produtos no varejo", diz a assessora econômica da Fecomercio-SP Kelly Carvalho.

Segundo a federação, as lojas maiores devem ser menos prejudicadas que os pequenos varejistas, porque só as primeiras, com mais recursos, conseguiram segurar no estoque itens mais atrativos.

"As grandes redes se prepararam para atender ao crescimento da demanda na data, mesmo que com um mix reduzido de mercadorias. As pequenas empresas, por sua vez, poderão ser as mais impactadas com a falta de produtos", admite.  "Será uma grande oportunidade para dar descontos para girar o seu estoque e assim, melhorar o fluxo de caixa", segere Kelly Carvalho.

Apesar da crise econômica e do alto desemprego, a federação paulista acredita em alta expressiva nas vendas.

A CNDL (Câmara Nacional de Dirigentes Lojistas) diz que a data é tradicionalmente um momento de queima de estoques para o próximo ano, e em 2020, mais do que nunca, os empresários devem buscar diversificar a linha de ofertas e ir além dos eletrônicos.

"A alta do dólar impacta diretamente nos valores dos produtos, principalmente naqueles que tiveram mais saída e que agora serão comprados com o valor da moeda mais alto", diz o presidente da CNDL, José César da Costa.

Planejamento comprometido

O tecnólogo Rubens Branchini, diretor-comercial da Dealer Shop, distribuidora de soluções em projetos e produtos de segurança eletrônica, diz que te,ve de refazer seu planejamento inúmeras vezes durante o ano para driblar os atrasos no fornecimento sem desagradar aos compradores.

Ele afirma que componentes chineses que usam cobre, por exemplo, tiveram aumento de cerca de 30%, e mesmo assim não chegam a tempo.

Com entregas que têm demorado 60 a 90 dias além do prazo acertado inicialmente, ele decidiu fazer mais encomendas no início do ano para garantir estoque suficiente para os meses seguintes. "Compramos oito, dez vezes mais do que a demanda que nós tínhamos e foi a melhor atitude que poderíamos ter tomado", disse Branchini.

Além de estocar, ele manteve as contas no azul reforçando a atuação de outra empresa sua, a ES Tech, em outro nicho, o de produtos de qualidade superior para os consumidores que trabalham em casa. "Vendemos todas as partes de periféricos para o computador de quem está em home office: câmeras, fones, energia, protetor de tela, teclado, mouse."

Por razões óbvias, as vendas dispararam. "Esperávamos o pior ano da empresa e acabou sendo um dos melhores", diz Branchini.

Ele também prepara ofertas para esta sexta-feira, mais modestas que em anos anteriores. "Vamos reduzir preços de estoques mais antigos, com giro menor. Neste ano não vamos ver descontos expressivos no setor de elettrônicos, como o pesssoal anuncia no mercado, de 70 a 80%. Isso não deve acontecer."

O tecnólogo diz que em conversas com indústrias e varejistas percebeu que a pandemia vai apressar uma decisão que é consenso no setor eletrônico nacional, a da necessidade de se buscar autossuficiência na fabricação de produtos.  

"Ficou para a gente a lição de que a China não vai mais ser o único hub [polo fornecdor de matérias primas]. Com o apoio do governo, é preciso transformar o Brasil num hub de componentes de tecnologia."

No setor segurança, explica, 70 a 80% dos insumos dos produtos são chineses.

Ser o que o especialista chama de hub de tecnologia ajudaria o país a evitar situações como a deste ano, no qual os avanços e recuos da doença covid-19 impediram o planejamento das empresas, fase essencial para o sucesso da Black Friday.

Branchini diz que a estratégia para a data é fechada pelas indústrias em setembro, chegando no máximo à primeira semana de outubro a definição de como farão marketing, distribuição, canais de venda etc. "Mas neste ano tudo atrasou, algumas deixaram para os últimos dias", conta.

Apesar disso, o empreendedor está otimista com os resultados do período de promoções. Devem ajudar a sanar as inúmeras dificuldades trazidas pelo coronavírus o desenvolvimento da logística, com entregas rápidas e mais em conta, e o avanço do e-commerce, dois legados positivos deixados pela crise sanitária. 

"Neste ano, a gente foi dormir analógico e acordou digital, e isso vai aparecer claramente na Black Friday deste ano, com a explosão das vendas online", acredita.

Indústrias sofrem

Segundo pesquisa feita em setembro pela Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), as fabricantes do setor reclamam que os fornecedores de insumos estão com dificuldades para atender a demanda, o que leva a elevação de preços e desabastecimento.

As entrevistadas também comentaram, que no caso de componentes eletrônicos, principalmente os destinados aos notebooks, o aumento de demanda global destes produtos também foi responsável pela falta de alguns itens, como telas e peças no mercado mundial.

Segundo o levantamento, 85% das fabricantes perceberam pressões acima do normal nos custos de componentes e matérias-primas. Em janeiro, no início da pandemia na China, esse percentual estava em 30%.

Entre os principais fatores que estão pressionando os custos de componentes e matérias-primas, de acordo com a Abinee, está a desvalorização cambial, citada por 70% das empresas entrevistadas.

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