Coronavírus

Economia Bom Retiro reage, mas ainda sofre com lojas fechadas pela pandemia

Bom Retiro reage, mas ainda sofre com lojas fechadas pela pandemia

Bairro das confecções em SP viu lojistas baixarem as portas ou trocarem de ponto para poupar aluguel até maio. Agora, sente a retomada com reabertura

  • Economia | Giuliana Saringer, do R7

Negócios do Bom Retiro voltam a aquecer na pandemia

Negócios do Bom Retiro voltam a aquecer na pandemia

Douglas Cometti/Folhapress

O empresário Christos Kritselis, dono de uma confecção do Bom Retiro nascida há 49 anos, sentiu na pele e no bolso os efeitos da pandemia no comércio do bairro, tradicional pela venda de confecções em São Paulo.

Kritselis lembra dos dias difíceis que enfrentou, de março a maio, período em que o comércio ficou completamente fechado devido à pandemia do coronavírus. Isso porque o comércio de rua é altamente dependente do fluxo presencial de pessoas.

“O grosso é venda presencial. A partir de junho, quando reabriu veio um ritmo muito fraco e, a partir de setembro para cá, melhorou bem”, afirma Kritselis. Segundo o empresário, no início da pandemia, houve o fechamento de muitas lojas e outros espaços foram alugados, principalmente quando os donos dos imóveis diminuíram os aluguéis para não perderem negócios.

Apesar de já perceber uma melhora nas vendas depois da reabertura do comércio no meio do ano, o Bom Retiro ainda enfrenta mais portas fechadas do que no período pré-pandemia. “Ainda tem lojas fechadas, mas diminuiu bastante. Ainda é um número [de lojas fechadas] acima do normal”, argumenta Kritselis.

A gerente da loja Aloicia, confecção de roupas femininas no Bom Retiro, Rosana Figueira, afirma que muitas lojas da região fecharam por causa da pandemia e outras ainda encaram dificuldades para se manter devido aos aluguéis altos e o encarecimento das matérias-primas, como o plástico para embalar produtos, os aviamentos e os tecidos.

Segundo Rosana, as principais ruas afetadas foram a José Paulino, da Graça, Júlio Conceição e Ribeiro de Lima. Apesar da melhora das vendas, muitos pontos ainda estão desocupados. “Aqueles que estavam fechados e conseguiram alugar, de julho para cá, é porque entenderam a situação e baixaram o preço do aluguel”, afirma.

Dentro do Lombroso Fashion Mall, shopping onde fica a loja em que Rosana trabalha, 14 das 66 lojas encerraram as atividades por causa da pandemia, sendo que duas trocaram de ponto e outras continuam vazias.

Rosana conta que setembro foi o melhor mês de venda desde o início da pandemia. Para não perder clientes, a empresa está oferecendo descontos de 10% para pagamento à vista e mais dias para aqueles que preferem à prazo.  

O vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) Bom Retiro, Nelson Tranquez, afirma que o início da pandemia fez com que os lojistas enfrentassem grandes dificuldades nas vendas. Apesar da adoção de ferramentas online, como sites, redes sociais e o whatsapp, o volume caiu consideravelmente de março a maio.

Região da 25 de Março tem rotina de aglomeração e ambulantes nas ruas

Durante este período, houve fechamento de lojas, com a saída de muitos lojistas do bairro, principalmente devido ao alto valor do aluguel na região. “Mantivemos uma saída até maio. A partir do momento em que as lojas abriram, muitas voltaram a ser alugadas. Nós já tivemos um volume grande de lojas fechadas, mas isso já melhorou muito”, afirma.

Tranquez conta que outro movimento comum no período foi a troca de imóveis. Para não deixar de ter uma loja no Bom Retiro, alguns empresários optaram pela troca de ponto em busca de aluguéis mais em conta. As lojas que de fato saíram já estão sendo substituídas por outras.

Lojistas enfrentaram dificuldades entre março e maio, mas veem retomada agora

Lojistas enfrentaram dificuldades entre março e maio, mas veem retomada agora

Mathilde Missioneiro/Folhapress - 06.08.2020

Em junho, no entanto, o governo de São Paulo autorizou a reabertura das lojas e, de lá para cá, o movimento tem aumentado “semana a semana”, segundo Tranquez.

“A observação que a gente tem é de que nós já estamos voltando. O faturamento do mês de setembro para outubro mostra que já estamos em 70%/75% do que se faturava mesmo período do ano passado”, afirma Tranquez.

Apesar da recuperação, o representante da CDL Bom Retiro diz que muitas pessoas ainda não saem às ruas devido à pandemia e que isso faz com que a retomada não aconteça na velocidade que os lojistas gostariam.

Segundo o vice-presidente da CDL Bom Retiro, o bairro recebe um alto fluxo de visitantes de fora de São Paulo e, com as pessoas deixando de viajar por causa da pandemia, o número de pessoas circulando no bairro diminuiu. Além disso, o faturamento foi afetado pelas lojas estarem fechadas em datas festivas, como o Dia das Mães. No entanto, as expectativas para o final do ano, com a Black Friday e o Natal, são altas.

O presidente do Conseg (Conselhos Comunitários de Segurança da Região Central) do Bom Retiro, Saul Nahmias, diz que ainda existem muitas lojas fechadas no bairro por causa da pandemia e muitos pontos para alugar.

“As lojas ficaram com o ônus da crise econômica, mas não teve nenhuma compensação por causa disso”, afirma Nahmias. Segundo ele, não há diálogo por parte da Prefeitura para tentar compensar a situação dos lojistas neste período em que o comércio enfrenta dificuldades. Apesar de já estar em uma situação melhor do que no início da pandemia, o bairro ainda não conseguiu se recuperar completamente.

“Eu diria que ainda assim não vimos, por parte da Prefeitura, eu não vi nada uma movimentação para atrair o comércio, para melhorar o comércio no bairro. Eu sinto que não tem esse diálogo”, afirmou.

Retomada aos níveis pré-pandemia

Tranquez, da entidade dos lojistas da região, considera que o comércio só deve voltar ao patamar de vendas pré-pandemia quando for descoberta uma vacina contra a doença.

“Guardadas as proporções e pelos problemas que ainda temos, que a pandemia está aí, a gente tem restrições ainda. Com tudo isso, [a recuperação] foi rápida demais. Para retomar totalmente eu acho que só após vacina”, afirma Tranquez.

Segundo ele, o mercado de confecções já vinha sofrendo efeitos negativos há alguns anos e a pandemia foi apenas uma dificuldade adicional para os lojistas do setor. Grande parte do público do Bom Retiro vem de turistas que estão visitando São Paulo e de lojistas locais e de outras cidades e estados. Ele explica que os lojistas diminuíram a frequência de idas ao bairro para realizar compras pela internet.

Apesar de estar confiante que o final do ano pode trazer bons resultados, Kritselis diz acreditar que as vendas não devem assumir o patamar normal para o final do ano.

“A gente acha que não vai ser o final de ano normal, mas que vamos ter uma acelerada, sim. Está se desenhando uma situação de acelerada. As pessoas estão vindo, clientes de fora de São Paulo estão vindo”, afirma Kritselis, que diz que será possível recuperar parte do prejuízo causado pela pandemia.

Palavra de economista

O assessor econômico da Fecomércio-SP Guilherme Dietze afirma que, em termos gerais, o comércio ainda não conseguiu recuperar as perdas causadas pela pandemia e que espera-se um resultado para 2020 inferior ao de 2019.

Para Dietze, a tendência é que o movimento seja bom neste final de ano em ruas comerciais do Bom Retiro, 25 de Março e Brás, por exemplo, principalmente pelos preços  mais baixos dos produtos vendidos.

“O que eu diria é que a gente está pior do que há um ano, mas muito melhor do que a gente projetava em março e abril”, afirma. No começo da pandemia, as expectativas eram de recuperação muito mais lenta do que a que tem acontecido de fato.

“A gente esperava um ano catastrófico para o varejo. As previsões foram sendo revistas, a gente já vê um resultado positivo nas vendas”, diz Dietze. Por estar em um ano assolado pela pandemia, o resultado final provavelmente poderá ser considerado satisfatório.

Apesar da retomada, Dietze ressalta que é importante ter um otimismo cauteloso sobre as vendas, já que o auxílio emergencial, por exemplo, estimulou mais o consumo. O benefício será pago até o final do ano.

Mudança que veio para ficar

O atendimento online não era a realidade para muitas lojas do Bom Retiro, segundo Tranquez. A pandemia forçou as lojas a implementarem a venda online para continuarem a atuação e também fez com que os locais que já faziam este tipo de atendimento buscassem melhorias.

“O bom disso é que a partir do momento que as lojas voltaram a abrir, com provador, melhorou a loja física e caiu a virtual. No entanto, caiu para 150% acima do que era antes”, conta Tranquez. 

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