Economia Calote ainda dificulta crédito mesmo após pior momento da crise 

Calote ainda dificulta crédito mesmo após pior momento da crise 

Bancos e financeiras têm adotado precaução contra o risco de calote

Calote ainda dificulta crédito mesmo após pior momento da crise 

Volume de crédito concedido subiu 0,4% em julho

Volume de crédito concedido subiu 0,4% em julho

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Apesar da melhora apresentada pelo setor nos últimos meses, a restrição aos financiamentos, empréstimos e crediários continua em alta. A dificuldade de acesso dos consumidores às mais diversas linhas de créditos disponíveis no mercado está relacionada aos quase 14 milhões de desempregados e, sobretudo, aos 60 milhões inadimplentes, segundo especialistas ouvidos pelo R7.

Somente no primeiro semestre de 2017, 1,5 milhão de consumidores foram incluídos nas listas de negativados, de acordo com dados do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito). O indicador aponta para um total de 59,76 milhões de pessoas físicas com nome sujo no País.

Já os dados mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), referentes ao trimestre finalizado em junho, mostram que a 13,5 milhões de brasileiros estão desempregados em território nacional.

A economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, classifica a união dos dois indicadores como fundamental para compreender o atual ambiente de escassez no mercado de crédito.

— Mesmo que a situação econômica tenha parado de piorar, o consumidor ainda se depara com uma taxa de desemprego muito elevada e de queda da renda. Por conta disso, o nível de inadimplência ainda permanece muito alto e faz com que o concedente de crédito, seja o banco ou a loja, ainda não abra a torneirinha para dar crédito da mesma forma como antes da crise.

O BC (Banco Central) aponta para uma leve melhora no saldo das operações de crédito do sistema financeiro no mês de julho, que atingiu R$ 3,078 bilhões (alta de 0,4% em comparação com o mês anterior). Ainda assim, o volume concedido aos consumidores está longe do patamar registrado nos últimos anos.

O consultor econômico da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), Nicola Tingas, afirma que a liberação de recursos acompanha o ciclo econômico. Ele destaca que, apesar da melhora apresentada no ambiente de concessão de crédito nos últimos meses, os interessados nas linhas oferecidas "ainda são ruins" e impossibilitam a liberação dos bancos.

— O crédito continua seletivo, mas com muito apetite para poder fazer operação. [...] Enquanto a conjuntura econômica não se firmar, as pessoas não começam a ter um fluxo de caixa e nós vemos dificuldade para quem estava com o orçamento complicado, endividado, e está saindo agora disso.

O diretor de economia da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), Roberto Vertamatti, diz que o volume de crédito disponível no mercado caiu cerca de 2% para pessoas físicas e 6% para as empresas entre 2014 e 2017.

Segundo Vertamatti, os bancos e as outras instituições financeiras têm real interesse em emprestar dinheiro porque "vivem dos juros", mas adotaram uma política de precaução contra o risco de não receberem os recursos de volta.

— No momento de conceder o crédito, o banco olha para a perspectiva do cliente com relação às possibilidades de pagamento do empréstimo. Se o ambiente é de desemprego, de inadimplência, eles ficam totalmente desestimulados para emprestar.

Consignado

Exceção à regra das demais linha de crédito disponíveis no mercado, o empréstimo pessoal consignado — aquele com desconto direto na folha de pagamento — ainda é oferecido com maior frequência e quantidade aos interessados.

De acordo com o BC, a linha foi responsável pela concessão de R$ 1,768 bilhão a pessoas físicas no primeiro semestre, volume 5,82% maior do que o registado no mesmo período do ano passado. Kawauti afirma que o crédito consignado ganha espaço no mercado porque é a linha mais vantajosa, tanto para o consumidor quanto para o banco.

— Apesar de o crédito continuar restrito, o empréstimo consignado tem uma garantia muito mais forte. O consumidor já paga a dívida antes de receber o salário na conta.

Segundo o BC, a taxa de juros cobrada pelo consignado sai por, em média, 27,4% ao ano. A linha é vantajosa quando comparada com linhas como o cartão de crédito (+378,3% ao ano) e o cheque especial (+322,6% ao ano) — as duas modalidades mais caras que existem no Brasil.

Apesar de ser uma linha de crédito mais acessível neste momento, o empréstimo consignado é limitado para aposentados, pensionistas e profissionais com carteira assinada em uma empresa conveniada com um banco que ofereça o crédito.