Novo Coronavírus

Economia CNA: ‘Queremos que o processo produtivo flua sem interferência’

CNA: ‘Queremos que o processo produtivo flua sem interferência’

Superintendente da Confederação da Agricultura e Pecuária relatou as ações tomadas para manter o abastecimento de alimentos

  • Economia | Alexandre Garcia, do R7

Setores de perecíveis, como frutas, hortaliças e flores, são mais afetados

Setores de perecíveis, como frutas, hortaliças e flores, são mais afetados

Paulo Whitaker/Reuters - 19.3.2004

A pandemia de coronavírus já causa prejuízo a diversos setores da economia brasileira. A realidade também já é presente no ramo de alimentação, que relata problemas logísticos e lamenta a interrupção do canal de vendas com o fechamento das portas de restaurantes, bares e feiras livres.

 "O setor não pode parar. A gente não consegue desligar uma vaca, não consegue colher em outra hora. Tem que ser tudo no momento que a natureza manda. Queremos que o processo produtivo flua sem interferência", afirma Bruno Lucchi, superintendente técnico da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

Em conversa com o R7, Lucchi relatou as ações do setor em conjunto com o governo federal para minimizar os impactos do vírus no setor e garantir o abastecimento de alimentos para a população.

R7: Quais foram os impactos causados pelo coronavírus até o momento para o ramo agropecuário?

Bruno Lucchi: Desde a semana passada, quando foram implementadas as medidas mais assertivas do ponto de vista sanitário, nós montamos um grupo de monitoramento para avaliar os impactos no Brasil inteiro.

A primeira coisa que queríamos garantir era que a produção de alimentos fosse considerada uma atividade essencial, assim como a saúde a e higiene. Estávamos tendo muita interrupção do processo produtivo e, se faltasse comida, não teríamos abastecimento das cidades e poderíamos gerar um problema ainda maior neste momento em que precisamos das pessoas bem alimentadas e com a resistência mais elevada.

Leia também: Os alimentos não podem faltar na quarentena

Solicitamos à ministra da Agricultura [Tereza Cristina] e ao ministro Tarcísio [de Infraestrutura] um regramento legal para incluir os alimentos na lista de atividades essenciais e também a garantia da logística entre os Estados, porque o agronegócio está no interior e é necessário levar os produtos aos grandes centros e levar também insumos dos portos e dos grandes centros às fazendas.

R7: Como a inclusão do setor alimentício na lista de atividades essenciais ajudou o setor?

Bruno Lucchi: Tudo aquilo que está envolvido na cadeia produtiva foi contemplado no decreto para continuar a produção. De lá para cá, a gente tem passado a informação para as regiões que estão sofrendo com os bloqueios municipais e fechamento de lojas. Acionamos também a Confederação Nacional dos Municípios para nos ajudar na divulgação do decreto.

R7: O transporte dos alimentos está ocorrendo de maneira regular?

Bruno Lucchi: Estamos interagindo quase que diariamente como Ministério da Infraestrutura para relatar as condições de muitos caminhoneiros que não estão conseguindo locais para realizar abastecimento, restaurantes, hotéis, borracharias e oficinas.

Com base nas nossas informações, eles têm acionado as secretarias de infraestrutura dos Estados pedindo por uma estrutura mínima e a gente tem conseguido colocar isso em prática para garantir o fluxo dessas categorias.

R7: Qual é a expectativa para os próximos dias?

Bruno Lucchi: Nossa preocupação maior é resolver os problemas que estão ocorrendo neste momento e que atrapalham a produção, porque o setor não pode parar. A gente não consegue desligar uma vaca, não consegue colher em outra hora. Tem que ser tudo no momento que a natureza manda. Queremos que o processo produtivo flua sem interferência.

Veja mais: Frutas e vegetais podem estar contaminados pelo coronavírus

No segundo momento, vamos começar a pensar em medidas para o médio e longo prazo, porque vamos entrar em uma recessão mais forte que vai afetar o consumo de alimentos. Muito produtos de valor agregado, como os derivados de lácteos, alguns tipos de carne e frutas podem ter seu consumo alterado nos próximos meses, quando a crise se aguçar. Vamos traçar um plano para adotar uma forma de passar por esse momento sem impactar tanto o setor agropecuário.

R7: Essa manutenção do ciclo natural já causou prejuízo em algum setor?

Bruno Lucchi: Desperdício de jogar comida fora não aconteceu. Todos os produtores conseguiram reaproveitar. Pode ter existido algum problema nos centros de distribuição com folhosas, que é um produto que estraga muito rápido. Seria alguma coisa pontual já nos grandes centros, mas nada ainda nas propriedades rurais, onde tudo continua sendo escoado.

Lucchi nega desperdícios na produção

Lucchi nega desperdícios na produção

Expointer 2012/Creative Commons/UnB Agência

R7: Quais são os setores mais afetados até o momento?

Bruno Lucchi: O que a gente tem visto é que os setores mais afetados são os de produtos perecíveis, como frutas, hortaliças, flores e alguns produtos da pecuária de leite, principalmente queijos e outros derivados lácteos. Esses setores tinham um canal muito grande de vendas diretas para restaurantes, bares e feiras públicas. Como esses canais foram fechados, eles perderam completamente os canais de venda.

R7: Algum desses setores precisou interromper as atividades?

Bruno Lucchi: Todos estão em pleno funcionamento, alguns com prejuízos maiores. O setor de flores está sendo muito afetado porque vendia muito para festas, casamentos e floriculturas. Eles estão fechados e a gente solicitou até uma linha de capital de giro para manter eles vivos pelo menos por esse período de quarentena, no qual eles não estão vendendo praticamente nada e os custos se mantêm. São medidas muito importantes para este momento.

R7: O que já foi feito para minimizar esses impactos?

Bruno Lucchi: Estamos trabalhando em várias frentes ao mesmo tempo para tentar reorganizar essa produção. A CNA busca colocar produtores em contato com grandes redes varejistas para absorver um pouco desse excedente de produção, que ficou sem local de venda. Tentamos também trabalhar com a venda no comércio online com o auxílio do Ministério da Agricultura, que tem muitos cadastros de cooperativas de agricultores familiares.

Buscamos ainda garantir que programas de compras governamentais, que compram produtos da agricultura familiar e repassa para as escolas, não parem nesse momento de escolas fechadas. Ao invés da alimentação ir para as escolas, ir para a família das escolas. A ministra já conversou com o ministro da Educação e ele aprovou.

R7: Como está o cuidado dos produtores com a saúde dos profissionais que atuam na área?

Bruno Lucchi: Os produtores já solicitaram ações ligadas à segurança e a saúde desses trabalhadores. Um ônibus que levava 40 trabalhadores para campo está levando só 20. São dois ônibus de 20 para manter um espaço maior. Os refeitórios e os alojamentos estão sendo ampliados nas propriedades rurais.

Existe ainda a contratação de mão-de-obra extra para entrar na linha de frente da colheita caso de algum trabalhador adoeça. A colheita tem que ser feita neste momento, mas os produtores têm tomado todo cuidado necessário para garantir a saúde de seus colaboradores.

Últimas