Com tempo mais seco, embarques de soja do Brasil devem ganhar ritmo após atrasos

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - As exportações de soja do Brasil, que tiveram atrasos expressivos em fevereiro devido a chuvas intensas, devem ganhar ritmo nos portos do Sul e Sudeste com o tempo mais seco até o final da próxima semana, de acordo com avaliações de especialistas.

Sem as interrupções causadas pelas chuvas, o processo de embarque de grãos flui melhor, colaborando para reduzir o tempo de espera dos navios que chegam para carregar uma safra recorde nos portos brasileiros.

Somente em fevereiro, as chuvas afetaram os embarques durante 12 dias no porto de Santos, o maior para a exportação de soja do Brasil, e em cerca de 11 dias em Paranaguá (PR), outro importante ponto de escoamento da produção brasileira, de acordo com dados da agência marítima Cargonave.

Dessa forma, considerando ainda o tradicional aumento da quantidade de navios para carregar soja em períodos de colheita, o tempo de espera das embarcações mais do que dobrou em alguns terminais de Santos, potencialmente aumentando o custo das operações.

Alguns berços no porto paulista têm espera de mais de 20 dias --período delimitado entre o dia que o navio chega no porto e a data de saída programada. Em Paranaguá, a espera supera dez dias em alguns terminais.

Na avaliação da Cargonave, se o tempo ficar mais firme, o período de espera deverá diminuir mesmo considerando a chegada de mais navios para buscar soja no país, o maior exportador global da oleaginosa.

A Cargonave registrou aumento no chamado "lineup" de navios nos últimos dias, incluindo nos portos do Norte e Nordeste, como Itaqui (MA) e Barcarena (PA), à medida que a colheita no Brasil está próxima de ser finalizada em cerca de metade da área de cultivo. A expectativa de alguns analistas é de uma safra recorde superior a 125 milhões de toneladas.

Outra agência marítima, a Williams, indica 10 milhões de toneladas no "lineup" de navios para março e mais embarcações podem ser reportadas à medida que o mês avança, segundo relatório da Refinitiv, que mostra que as exportações brasileiras poderiam mais que dobrar neste mês em relação a fevereiro, quando somaram aproximadamente 5 milhões de toneladas, segundo dados do governo.

Para o analista da Safras & Mercado, Luiz Fernando Roque, os atrasos nas exportações causam problemas momentâneos, mas nada que impacte as exportações globais do Brasil.

"Se não embarca em março, vai embarcar em abril. Claro, se continuarem as chuvas, aí a gente se preocupa... Com o tempo seco, a gente consegue desafogar esta fila de navios", disse ele, ressaltando que a preocupação seria maior se a colheita estivesse mais adiantada.

De acordo com previsões da Rural Clima, o tempo seguirá com poucas chuvas diárias até pelo menos o dia 14 em Santos. Depois é esperado um período sem precipitações até o dia 19 de março. A situação climática é bastante semelhante em Paranaguá e nos portos de Tubarão (SC) e Rio Grande (RS).

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ENCALHE

Roque citou que as operações em Santos ficaram paralisadas em alguns dias neste início do mês, devido a intensas chuvas que atingiram a Baixada Santista, causando pelo menos 24 mortes.

Segundo a autoridade portuária de Santos, devido às chuvas constantes nos dois primeiros dias desta semana, os embarques de granéis sólidos nos navios não aconteceram na maior parte do período.

Na noite de segunda-feira, devido às condições meteorológicas, com rajadas de vento de até 80 km/h, o tráfego de embarcações chegou a ser suspenso no canal de navegação.

Não bastasse o problema climático, um navio encalhou ontem no porto de São Francisco do Sul (SC), suspendendo as operações entre a madrugada de quarta-feira e o início da tarde desta quinta-feira.

No momento, novas atracações no porto catarinense deverão levar em conta o tamanho das embarcações, enquanto o navio Aeolian Grace, carregado com 65.804 toneladas de soja, continuar encalhado.