Coronavírus

Economia Como o avanço do coronavírus pode afetar a economia brasileira

Como o avanço do coronavírus pode afetar a economia brasileira

Brasil, um país que tem na China – epicentro da doença – o maior cliente de suas exportações, deve sentir muito diretamente os impactos

Agência Estado
Homens usam máscara na frente de painel da Bolsa de Valores de Tóquio

Homens usam máscara na frente de painel da Bolsa de Valores de Tóquio

Kimimasa Mayama / EFE-EPA - 26.2.2020


O crescimento dos casos de coronavírus em todo o mundo – incluindo a descoberta de um caso no Brasil – elevou a preocupação sobre os efeitos da doença sobre a economia global.

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Já se sabe que haverá uma redução do crescimento esperado em todo o globo, mas ainda é difícil imaginar qual o tamanho dessa redução. Na Itália, por exemplo, onde já foram registradas 11 mortes por conta do vírus, analistas falam em queda de 0,5% a 1% do PIB este ano, mas tudo ainda é muito preliminar.

O que se sabe é que, muito provavelmente, nenhum país passará ileso por essa crise. E o Brasil, um país que tem na China – epicentro da doença – o maior cliente de suas exportações, deve sentir muito diretamente os impactos disso. Veja a seguir como o coronavírus pode afetar a economia brasileira:

A China, país onde o novo coronavírus foi detectado inicialmente e que concentra o maior número de casos, é o maior cliente das exportações brasileiras. No ano passado, cerca de 30% de tudo o que o país vendeu para o exterior teve como destino o país asiático, que é o maior comprador da nossa soja, do nosso minério de ferro e do nosso petróleo.

Mas o alto número de casos do novo vírus praticamente paralisou a economia chinesa neste início de ano. Fábricas foram fechadas, empregados ficaram em casa, sem produzir.

Ninguém sabe o tamanho do rombo que isso vai causar na economia chinesa, mas já há quem fale até em PIB negativo no primeiro trimestre e de queda de mais de um ponto porcentual no crescimento esperado para o ano (que era algo em torno de 6%). Uma China crescendo menos vai comprar menos produtos brasileiros, e isso deve ter impacto nas grandes exportadores, como Vale, Petrobrás e empresas de alimentos.

Além disso, essas empresas já sentem os efeitos do coronavírus nos preços dos produtos que vendem. Desde que a doença começou a provocar impacto nos mercados financeiros internacionais, em meados de janeiro, os preços do minério de ferro, do petróleo e da soja, produtos que responderam por 78% das vendas externas brasileiras no ano passado, recuaram significativamente.

Numa economia globalizada como a atual, as linhas de produção são muito dependentes de matérias-primas e insumos vindos de vários países. No caso brasileiro, especificamente da China. Montadoras de automóveis, fabricantes de eletroeletrônicos e de medicamentos, por exemplo, importam boa parte do que vai em seus produtos. E, com a paralisação das fábricas chinesas em janeiro e fevereiro, esses produtos já começam a faltar.

Trabalhador em indústria da China, que sofre impacto da doença

Trabalhador em indústria da China, que sofre impacto da doença

Xinhua / Wang Xiang

Alexandre Ostrowiecki, presidente da Multilaser, fabricante brasileira de equipamentos como celulares, tablets e teclados, por exemplo, projetou, em entrevista ao Estado, uma queda de 17% no abastecimento de peças e componentes importados. Mas diz que o quadro pode se agravar se as fábricas chinesas não retomarem seu ritmo normal rapidamente. “A Multilaser está totalmente inserida no olho do furacão do coronavírus”, disse.

O que os especialistas dizem é que o risco de falta de insumos é maior para os fabricantes de celulares e itens de informática, que trabalham com estoques mais curtos de componentes. Mas também é uma ameaça para a indústria automobilística, que usa muita eletrônica embarcada.

Um quadro de menos vendas externas e produção nas fábricas prejudicada por falta de insumo terá, obviamente, impacto no crescimento econômico, num momento em que o País tenta ganhar tração e deixar para trás, definitivamente, os efeitos da recessão vivida entre 2014 e 2016.

O Brasil iniciou o ano com projeções que apontavam um crescimento econômico em torno de 2,5%, o que seria um grande salto comparado às altas de cerca de 1% dos últimos três anos. Mas resultados ruins dos indicadores no final de 2019 já fizeram essas previsões recuarem para algo ao redor de 2% (o banco BNP Paribas já projeta crescimento de 1,5%). Se o coronavírus realmente derrubar as economias ao redor do mundo, é provável que as estimativas para o PIB brasileiro caiam ainda mais.

O Banco Central reduziu, no início deste mês, a taxa de juros brasileira para 4,25% ao ano, o menor patamar da história. Em março, haverá outra reunião para definir os rumos da taxa, e o consenso entre analistas, por enquanto, é que o BC deixará o juro aonde está.

Mas, na ata que detalhou a decisão tomada este mês, o coronavírus apareceu. O que os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) escreveram é que o prolongamento do surto de coronavírus teria impactos sobre commodities e importantes ativos financeiros, e que a consequência do surto para a política monetária depende também de reação dos ativos financeiros e da magnitude da desaceleração global.

Ou seja, não se pode descartar mais cortes de juros em breve. Isso já vem acontecendo em alguns países, como a própria China, em uma tentativa de estimular a economia. Crescem as apostas no mercado de que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) e o Banco Central Europeu (BCE) podem seguir o mesmo caminho.

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