Coronavírus: 'Países vão ter que se endividar para salvar o emprego e a vida das pessoas', diz presidente do BID

Para Luis Moreno, pandemia deixou ainda mais evidente a desigualdade da América Latina e mostrou necessidade de se investir na saúde pública

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Mais pobres são os mais prejudicados pela crise econômica, diz presidente do BID

Mais pobres são os mais prejudicados pela crise econômica, diz presidente do BID

Ricardo Moraes/Reuters

 A pandemia do novo coronavírus escancarou para o mundo os dramas da desigualdade social na América Latina, a região mais desigual do planeta. A avaliação é do presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Luis Alberto Moreno, em entrevista exclusiva à BBC News Brasil.

Os males da covid-19 mostraram ainda as falhas do sistema de saúde e a dependência de produtos de saúde fabricados em outros países e continentes, disse Moreno, falando de Washington, nos Estados Unidos, onde está a sede da instituição multilateral.

Na sua visão, os países deverão se endividar e gastar para preservar empregos e vidas.

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Para ele, os mais pobres e os informais estão entre os mais prejudicados nesta crise mundial. "A verdade é que as pessoas mais pobres têm que se colocar diante de uma decisão muito difícil que é a vida ou a comida", disse o presidente do BID, ao responder sobre a situação no Brasil.

Quando perguntado sobre a postura do presidente Jair Bolsonaro e de seus apoiadores, de negação às orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), ele lembra que os governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro, porém, optaram pelas linhas do organismo, como a adesão à quarentena.

Presidente do BID desde 2005, há quase 15 anos, e ex-ministro de Desenvolvimento Econômico da Colômbia, ele informou que o Banco está ajudando vários países latino-americanos na compra de equipamentos para a área de saúde, mas que "neste mercado persa", iniciado assim que a doença surgiu, pelos produtos usados no combate à covid-19, Brasil, México, Colômbia e Peru já começaram a fazer ou a tentar fazer seus próprios equipamentos, como respiradores.

A seguir os principais pontos da entrevista à BBC News Brasil:

BBC News Brasil - O Brasil é o maior país da América Latina e alguns apontam que poderia ser um dos epicentros mundiais da pandemia do novo coronavírus. O presidente Bolsonaro disse que é "uma gripezinha" e seus apoiadores não acompanham as orientações da OMS, seguindo a visão do presidente. Como o senhor vê este tema? Como o senhor está acompanhando a situação do Brasil?

Luis Alberto Moreno - Acho que existe um grande debate sobre isso em vários partes do mundo. No Brasil, sendo um governo federal, existem Estados, como São Paulo e Rio, que foram muito contundentes na administração da pandemia, com a quarentena, na atenção aos seus doentes e ainda assim uma cidade como São Paulo é, provavelmente, a cidade que tem maior número de contágios.

Ao mesmo tempo, o que aprendemos é que o número de contágios aumenta em função do número de testes que é feito. Ou seja, quanto mais testes são feitos, mais aumenta o número de contágios (registrados), mas também cai o número de mortes.

Isso porque, no caso de uma pessoa estar contagiada, é possível rastrear todas as pessoas que estiveram com ela e elas ficam em quarentena e, consequentemente, o fator de multiplicação de contágio começa a diminuir. Mas o equilíbrio entre a saúde da população e a saúde da economia é muito complicado.

Para Moreno, governos precisam garantir que protocolos de segurança sejam cumpridos

Para Moreno, governos precisam garantir que protocolos de segurança sejam cumpridos

Getty Images/BBC Brasil

A verdade é que as pessoas mais pobres têm que se colocar diante de uma decisão muito difícil que é a vida ou a comida. E sem trabalhar as pessoas não têm como comer. Por isso, é importante que o governo dê apoio. Então, hoje no mundo o grande debate é como reabrir a economia. É um debate nos Estados Unidos, na Europa e, sem dúvida, se isso não for bem feito o risco é de que o número de contágios aumente.

Por isso, a forma de fazer isso é pensando nos setores que gerem muito emprego, por exemplo, a construção civil, e, claro, dando muita atenção à cadeia de (produção) de alimentos.

A cadeia de alimentos é fundamental para qualquer ser humano. E temos que cuidar dos idosos e das pessoas que já tiveram alguma doença. Acho que é uma situação na qual vamos aprender a encarar, aprender a nadar já nadando. Vamos ter que aprender a cuidar muito...

BBC News Brasil - O que quer dizer?

Moreno - Por exemplo, na área da construção. Algumas empresas estão dando bicicletas aos trabalhadores, pagando uma parte das bicicletas e financiando a outra parte para que as pessoas possam ir (para a obra) de bicicleta em vez de correrem o risco de usar o transporte público. Estes trabalhadores mudam de roupa na hora em que chegam na obra. Ali, também devem lavar as mãos e a temperatura deles é verificada para saber se eles têm febre ou não.

Além disso, são implementados horários diferentes nos refeitórios e também na chegada das pessoas ao local de trabalho. Tudo isso está sendo feito em alguns países, incluindo na América Latina.

Os governos devem garantir que estes protocolos sejam cumpridos. Mas apesar de todas estas precauções é muito provável que mesmo assim ocorram contágios.

E, então, quando estes contágios ocorrerem devemos saber que a ação deve ser rápida para que a quarentena seja respeitada e, novamente, entrando em contato com as pessoas com quem este trabalhador teve contato tanto no trabalho como na vida privada.

É preciso cuidar de toda essa arquitetura e são coisas que temos que ir aprendendo. E vamos aprender fazendo. Não tínhamos nos preparado antes para isso.

BBC News Brasil - O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que economias do Brasil e dos EUA vão cair fortemente este ano. Como o senhor vê a economia brasileira hoje?

Moreno - Obviamente que todos os países vão ter que aumentar seu nível de dívida, vão ter que aumentar o nível de gasto. O Brasil tem uma lei de responsabilidade fiscal que, como outros países, estabelece que, em conjunturas como as atuais, este é um caso de força maior no qual os Estados devem ocupar (maior espaço), sustentar a economia e defender os empregos e defender a vida das pessoas e, neste caso, defender o bem-estar das pessoas e manter os contratos de emprego.

Pandemia mostrou necessidade de se investir em saúde pública regional, diz Moreno

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Getty Images/BBC Brasil

BBC News Brasil - O BID estava voltado antes para o financiamento de obras, limpeza de rios, baías e etc. O BID também está mudando?

Moreno - Claramente, ajustamos todo o nosso foco de crédito para atender à emergência sanitária, atender às redes de proteção social, como o Bolsa Família, atender às pequenas e médias empresas, criando novos sistemas para atender, especificamente, aos trabalhadores informais que não estão bancarizados e o setor privado, dando a ele o crédito para que sejam mantidos os contratos de trabalho.

E estamos fazendo o que o banco faz melhor, que é a parte do conhecimento. Estamos tentando explicar e reunir a maior informação possível no mundo, como o que fizeram já em Israel, na Coreia do Sul, em Cingapura, na China, na Alemanha, enfim. São muitas as experiências que podemos aprender antes que o pico (do coronavírus) chegue em nossos países.

BBC News Brasil - A América Latina é a região mais desigual do planeta e, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), surgirão pelo menos 30 milhões de novos pobres neste ano. Com essa crise as desigualdades parecem ainda mais evidentes. Pequenas empresas estão quebrando, até bancos estão preocupados e se fala que esta é a pior crise desde a Grande Depressão, nos anos 1930. O que o BID está fazendo para amenizar esta tragédia?

Moreno - Apesar de os países estarem lutando para achatar a curva de contágios, existem curvas que são difíceis de achatar, como as do aumento da pobreza e do desemprego, do endividamento das famílias, do setor privado e de governos.

O que o BID está fazendo diante deste desafio à humanidade e que é comum a todos? A primeira coisa que fizemos foi nos concentrar na emergência sanitária e o que fizemos foi ajudar a diferentes países para materializar as compras de equipamentos médicos, como máscaras e uniformes para o pessoal de saúde, respiradores, testes PCR, porque uma pessoa pode estar com o vírus e ainda não ter manifestado os sintomas. Fizemos e continuamos fazendo para seguir fortalecendo os sistemas de saúde.

De certa forma, como isto chegou antes nos países da Ásia e nos Estados Unidos, deu tempo aos países, através da implementação das quarentenas. Mas não há dúvida de que estamos longe de ter os sistemas de saúde que o mundo de desenvolvido tem, e como vimos em muitos países e em algumas cidades como Nova York, Madri ou Milão, apesar de seus sistemas de saúde também terem tido sobrecarga. O segundo é que essa pandemia evidenciou as desigualdades que já conhecíamos há muito tempo e que o banco vem trabalhando nos últimos 60 anos.

Mas (a pandemia) mostrou diante ao mundo as enormes dificuldades e desigualdades que existem nas nossas sociedades.

Os governos têm que atender (aos mais necessitados) através de programas como o Bolsa Família. Existe uma enorme informalidade no trabalho (na região). Em resumo, o BID está desembolsando US$ 15 bilhões, que é cerca de 50% a mais do que fazemos todos os anos, que é US$ 10 bilhões ao ano. E, ao mesmo tempo, através da parte privada do banco, estamos fazendo (desembolso) de US$ 7 bilhões para linhas de comércio, para facilitar o comércio exterior.

Segundo a ONU, 700 milhões de pessoas no mundo não têm acesso a água

Segundo a ONU, 700 milhões de pessoas no mundo não têm acesso a água

Getty Images/BBC Brasil

BBC News Brasil - O BID anunciou, no fim de abril, que está ajudando vários países na importação de material, como mais de 8 milhões máscaras, para o combate ao novo coronavírus. Como é essa ajuda? Para quais países? A disputa entre Estados Unidos e China ajudou ou complicou a participação de vocês, do BID, para trazer este material? Este material veio principalmente da China?

Moreno - Veio de vários lugares. E essa tensão (entre EUA e China) não nos afetou. Acho que a que sim foi afetada foi América Latina porque os países (equipados para a pandemia) agiram para frear a exportação de insumos médicos para atender, primeiro, às suas próprias populações. Isso refletiu logo na América Latina e se criou um "mercado persa" em torno disso.

Vimos que estes equipamentos tinham alta proteção tarifária, as taxas de importação eram muito altas. As decisões, através dos institutos sanitários, tinham tempos longos de aprovação da possível venda destes tipos de materiais. Isso foi parte do que muitos países enfrentaram. E isso fez com que cada país tente ter sua própria produção desses materiais.

Países como Peru, Colômbia, Brasil e México passaram a produzir ou estão prestes a produzir respiradores. Acho que para o futuro, o que devemos fazer é financiar empresas que estejam se dedicando a estes produtos e não só para atender emergência, mas para termos um sistema de saúde mais forte.

Entre os países que receberam o material médico, através da ajuda do BID, estão Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Honduras e El Salvador, entre outros.

BBC News Brasil - O que o senhor diz é que os países da região devem ficar mais independentes da produção de outros países e...

Moreno - Acho que essa é uma das consequências da covid-19. Vamos ter que fazer esses produtos na nossa própria região.

Essa situação nos surpreendeu, mas no futuro vamos ter que nos preparar mais. Se olharmos para os últimos anos, com as pandemias do SARS, H1N1, Chikungunya, enfim todas estas coisas que tivemos nos últimos quinze anos e que chegam a cada três ou quatro anos, mostram que vamos precisar ter um sistema de saúde muito mais forte.

BBC News Brasil - Segundo a ONU, 700 milhões de pessoas não têm acesso à água e, no caso do Brasil, mais de dez milhões moram em favelas (dados do IBGE). Como podemos falar em distanciamento social e lavar as mãos para evitar a covid-19?

Moreno - Ficam claros os problemas que temos em saneamento básico, mas também há toda a parte da cadeia de alimentos, que será fundamental nos próximos anos.

Vamos ter que atender a estas áreas com urgência. Quando olhamos para a história da América Latina nos últimos anos, o número de cidadãos da região que têm acesso à água e ao saneamento aumentou significativamente. O maior problema que temos é de qualidade, da água tratada, de saneamento básico.

No caso do Brasil, há empresas como a Sabesp, em São Paulo, mas se você for a outras regiões do Brasil, como o Nordeste, não se encontra a mesma capacidade de gestão e os sistemas de água e de saneamento são monopólios locais.

Vamos ter que fazer mais investimentos nestas áreas porque quando comparamos os países da Ásia com os da América Latina ou com o resto do mundo, eles tiveram muitos mais casos em outras pandemias e, de alguma forma, seus sistemas de saúde estavam mais preparados.

Além disso, a cidadania tem mais precaução contra os contágios. Na Ásia, as pessoas usam máscaras quando têm uma gripe. Existe uma preocupação de não contagiar os demais. Isso é uma realidade e nós não temos essa cultura.

Vamos ter que ter uma cultura com muito mais consciência de que a saúde é importante para o conjunto da sociedade e as pessoas vão querer ter cada vez mais informação sobre estes assuntos. E conforme tenhamos uma população mais saudável, as possibilidades de mortes e de contágios de uma pandemia como esta, especialmente na área respiratória, como é o caso da covid-19, poderão ser mitigadas.