Crise faz procura por estagiários disparar

Sites de recrutamento dizem que número de vagas para estudantes cresceu até 35,6%

Recrutadores negam que a crise aumente o risco de que estagiários sejam usados pelas empresas como mão de obra barata
Recrutadores negam que a crise aumente o risco de que estagiários sejam usados pelas empresas como mão de obra barata Getty Images

Apesar do cenário econômico desanimador, muitos sites de oferta de emprego têm assistido a um aumento surpreendente da demanda por estagiários.

A Catho, por exemplo, diz que o número de vagas de estágio anunciadas nos primeiros cinco meses deste ano pela empresa teria passado de 30.382 para 41.215 — um aumento de 35,6%. Para se ter uma ideia, no mesmo período, a abertura de vagas na economia caiu 14,2%, segundo cálculos de Raone Costa, economista da Catho-Fipe.

Na Cia de Talentos, o volume de vagas de estágio também teria crescido 25%. Já a Webestágios, agência online ligada ao BNE (Banco Nacional de Empregos), diz ter registrado um aumento da busca por estagiários de 15% a 20% no primeiro semestre deste ano.

Segundo Eraldo Vieira, especialista em recrutamento e seleção da Webestágio, o ponto alto da procura foi janeiro, quando houve um aumento de 216% sobre o mesmo período de 2014.

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"Podemos dizer que as empresas estão fazendo um investimento no futuro, já que, no presente, a situação econômica está complicada", diz Vieira, acrescentando que o custo também contribui com o quadro.

Segundo dados do IBGE, divulgados nesta quinta-feira (23), o desemprego nas principais regiões metropolitanas brasileiras (medido pela Pesquisa Mensal de Emprego) subiu para 6,9% em junho. Em maio, a taxa foi de 6,7% e, no mesmo período do ano passado, de 4,8%. Foi o maior índice para um mês de junho desde 2010.

Salários mais baixos

Para Costa, da Catho-Fipe, a maior procura por estagiários faz parte de uma tendência mais ampla no mercado de trabalho ditada pelo imperativo da redução de custos: o achatamento dos salários.

"Os diretores estão sendo substituídos por gerentes, ou diretores que ganham menos, por exemplo", diz ele.

"No geral, não acho que as empresas estejam demitindo profissionais efetivos para contratar estagiários - até porque há regras sobre o programa de estágio que impedem essa substituição. Essa seria uma visão muito simplista. Mas, de fato, há uma tendência geral para a contratação de pessoas com salários mais baixos que parece estar favorecendo a entrada de estagiários nas empresas".

O economista lembra que o salário médio dos profissionais admitidos está caindo de forma significativa nos últimos meses.

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"Só em junho, a queda no salário dos que foram contratados foi de 2%", diz ele. "Já o salário médio dos demitidos vinha subindo nos últimos meses, apesar de, em junho, ter apresentado uma ligeira queda, ficando próximo da estabilidade."

Paula Esteves, diretora da Cia de Talentos, acredita que a necessidade das empresas de se reestruturarem também faz com que vejam com bons olhos a possibilidade de incorporar em seus quadros jovens com ideias novas. "O estágio também pode ser uma porta para a oxigenação e inovação das empresas", diz ela.

É verdade que nem todos os recrutadores têm registrado essa tendência de maior procura por estagiários.

A Page Talent, unidade de negócio da Page Personnel especializada em atração, seleção e desenvolvimento de estagiários, por exemplo, diz ter tido uma redução no número de vagas para estagiários no primeiro semestre.

"Mas, certamente, o impacto da crise neste segmento foi muito menor do que entre profissionais mais experientes. Acho que é importante dizer que ainda há ótimas vagas para os jovens que estão começando a carreira tanto em trainee quanto em estágio", diz Manoela Costa, gerente executiva da Page Talent.

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Os recrutadores negam que a crise aumente o risco de que os estagiários sejam usados pelas empresas como mão de obra barata.

"É claro que pode haver abusos em casos específicos, de empresários 'malandros'. Mas, no geral, as empresas sabem que estagiário não é mão de obra barata. Há uma lei sobre o tema que garante que o estagiário está lá para aprender, tem uma carga horária reduzida e precisa de um acompanhamento. Não dá para colocar um estudante de direito no telemarketing, por exemplo", diz Vieira.

"Na realidade, mesmo com a crise temos um aumento do investimento e da qualidade (dos programas de estágio), do desenvolvimento e acompanhamento destes estagiários", concorda Esteves. "Nas empresas que desenvolvem esses programas estruturados, o estagiário está longe de ser mão de obra barata", defende.

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