Economia na América Latina deve encolher 9,1% em 2020, prevê Cepal

Queda deve representar um retrocesso de 10 anos nos níveis de renda por habitante da região

Economias da região serão afetadas pela pandemia

Economias da região serão afetadas pela pandemia

Cadu Rolim/Fotoarena/Estadão Conteúdo 14.3.2020

A pandemia do novo coronavírus vai levar a uma queda de 9,1% na atividade econômica da América Latina e do Caribe em 2020. Com a retração, o PIB (Produto Interno Bruto) — soma de todos bens e serviços produzidos — per capita da região deve voltar ao alcançado em 2010, ou seja, a queda representa um retrocesso de 10 anos nos níveis de renda por habitante da região.

A estimativa foi divulgada nesta quarta-feira (15) pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), organismo ligado à Organização das Nações Unidas. O órgão lançou um relatório atualizando para baixo a previsão de retração na atividade econômica da região.

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O texto ressalta que a região vai acompanhar a tendência de queda na economia mundial. Dados da Cepal indicam que a queda no comércio mundial de bens e serviços pode chegar até 32%. Na região, as exportações já apresentaram queda de 23%.

Em abril, a projeção de queda no PIB era de 5,3%. Agora, segundo o relatório, a região apresentará uma queda do PIB de -9,1% em 2020, com diminuições de -9,4% na América do Sul, -8,4% na América Central e México e -7,9% no Caribe excluindo a Guiana, cujo forte crescimento leva o total sub-regional a uma menor contração, de -5,4%.

Entre os países, as quedas mais significativas apontadas pelo relatório ocorrerão na Venezuela, cuja estimativa de queda do PIB é de 26%; Belize, com queda de 14% e Peru, com redução de 13%. No Brasil, a queda projetada do PIB é de 9,2%.

Com a redução da atividade econômica espera-se que a taxa de desemprego regional seja em torno de 13,5% no final de 2020, o que representa um aumento de dois pontos percentuais na comparação com a estimativa divulgada em abril e um aumento de 5,4 pontos percentuais em relação ao valor registrado em 2019 (8,1%).

O relatório estima ainda que a retração econômica deve ocasionar o fechamento de mais de 2,7 milhões de micro e pequenas empresas, ocasionando perda de 8,5 milhões de postos de trabalho. As microempresas serão as mais afetadas.

A crise econômica provocada pelo novo coronavírus deve ocasionar o fechamento de 2,65 milhões de empresas. Além disso, 100 mil pequenas empresas de setores mais afetados pela pandemia, como o comércio, turismo entre outros, devem fechar as portas.

De acordo com o relatório, o número total de desempregados deve chegar a 44,1 milhões de pessoas, o que representa um aumento de quase 18 milhões com relação ao nível de 2019 (26,1 milhões de desempregados).

O relatório destaca ainda que a queda do PIB e o aumento do desemprego teriam um efeito negativo direto sobre a renda familiar. Com isso, a Cepal projeta que o número de pessoas em situação de pobreza aumentará 45,4 milhões em 2020, ficando em 230,9 milhões.

A projeção corresponde a um aumento de 37,3% da população latino-americana em relação ao registrado em 2019, quando 185,5 milhões se encontravam nessa condição.

“Dentro desse grupo, o número de pessoas em situação de extrema pobreza aumentaria em 28,5 milhões, passando de 67,7 milhões de pessoas em 2019 para 96,2 milhões de pessoas em 2020, número que equivale a 15,5% do total da população”, informou a Cepal.

Medidas

A Cepal defende que, apesar de os países da região, em sua maioria, terem adotado medidas com renda básica de emergência para auxiliar financeiramente as famílias, é necessário um esforço adicional para satisfazer as necessidades básicas e sustentar o consumo das famílias.

Entre as medidas apontadas como necessárias estão a criação de um bônus contra a fome, equivalente a 70% de uma linha regional de extrema pobreza (US$ 67 de 2010) e cujo custo total é estimado em US$ 27,1 bilhões (0,52% do PIB regional), a possibilidade de expansão da renda básica de emergência para nove meses, além de iniciativas para apoiar empresas e trabalhadores em risco.

O relatório diz ainda que os países devem impulsionar a retomada da atividade econômica, evitando medidas de austeridade e promovendo estímulos fiscais. Também diz que as instituições financeiras internacionais devem aumentar as linhas de crédito.