Economize Furo no teto de gastos deve elevar ainda mais taxa básica de juros

Furo no teto de gastos deve elevar ainda mais taxa básica de juros

Previsão inicial era que a Selic passasse dos atuais 6,25% para 7,25%. Alta deve ser maior e também impactar a taxa de câmbio

  • Economize | Márcia Rodrigues, do R7

Resumindo a Notícia

  • Ministro da economia, Paulo Guedes, sinalizou que governo pode extrapolar teto de gastos
  • A infração fiscal foi apontada como única solução para conseguir pagar o Auxílio Brasil
  • A quebra da responsabilidade fiscal, porém, pode gerar insegurança no mercado financeiro
  • Situação pode afetar as taxas de juros e de câmbio do país, além da inflação
Guedes: 'Como a solução técnica não funcionou, nós vamos ter que gastar um pouco mais'

Guedes: 'Como a solução técnica não funcionou, nós vamos ter que gastar um pouco mais'

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

O anúncio de que o governo federal pode extrapolar o teto de gastos para pagar o Auxílio Brasil — benefício que substitui o Bolsa Família — no valor mínimo de R$ 400 até o fim de 2022 fez especialistas do mercado financeiro elevarem a projeção de alta da Selic (taxa básica de juros) na próxima semana.

A previsão inicial era que o Copom (Comitê de Política Monetária), do BC (Banco Central), elevasse a Selic em 1 ponto percentual, passando dos atuais 6,25% para 7,25%.

Veja: Tire 10 dúvidas sobre o programa Auxílio Brasil, que vai pagar R$ 400

Em meio a temores fiscais, especialistas do mercado financeiro acreditam que a taxa básica deve subir mais do que 1 ponto percentual.

Guedes, que até então se opunha a estourar o teto de gastos do governo, admitiu que a brecha foi necessária em meio aos entraves para aprovar reformas e a PEC dos Precatórios. “Como a solução técnica não funcionou, nós vamos ter que gastar um pouco mais.”

Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor-executivo da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), acredita que o auxílio é importante considerando o momento que estamos vivendo. A questão, porém, é muito maior, segundo ele.

"O governo teve muito tempo para buscar alternativas e viabilizar recursos para atender a população, mas sua preocupação agora é melhorar sua avaliação pensando nas eleições do ano que vem. A questão que fica é a regra do teto de gastos, criada para evitar que os governos se endividassem sem limites porque isso traz consequências", diz.

Oliveira destaca que o país já deve começar a sentir as consequências na próxima semana, com o resultado da reunião do Copom, que deve elevar a taxa de juros em mais de 1 ponto percentual.

Se não subir na próxima, certamente subirá na seguinte. Com isso o juro e o dólar ficarão mais caros e impactarão diretamente a inflação.

Miguel de Oliveira

Oliveira vai além: "A forma como foi conduzida a situação é muito ruim. O recado que trouxe para o mercado. O governo poderia ter criado mecanismos, reduzido as despesas e buscado alternativas que não fossem furar o teto porque vai gerar dívida sem limites, e isso trará juros, inflação e desemprego".

Por que manter o teto de gastos é tão importante?

Caio Megale, economista-chefe da XP, destaca que o teto de gastos é importante pelo fato de o Brasil ser um país muito endividado.

"A nossa dívida pública está na ordem de 80% do PIB [Produto Interno Bruto], ou seja, 80% de tudo o que a gente gera de riqueza nós temos em dívida, enquanto a média dos países emergentes é em torno de 50%. E essa dívida não é só elevada como tem um juro alto no país que atua sobre esse estoque de débitos", conta.

O equilíbrio do déficit público, segundo Megale, é importante porque dá a credibilidade de que nossos ativos, ao longo do tempo, vão ser honrados, que nossa dívida e títulos públicos serão honrados e o governo será solvente. Não vai ser preciso acelerar a inflação, emitir moeda ou aumentar a dívida para pagar seus compromissos.

Não é muito diferente da gestão da nossa casa ou da empresa. As contas têm de estar relativamente em ordem. Não significa que é ruim ter dívida. Uma pessoa física tomar um empréstimo para comprar um carro pode ser saudável. O mesmo ocorre com uma empresa que pede um empréstimo para fazer um investimento. Desde que se tenha um fluxo de renda que dê confiança para quem te empresta este dinheiro de que a dívida será paga.

Caio Megale

Assim como Oliveira, Megale também considera que o auxílio é importante para ajudar a população neste momento.

Porém, não é positivo o fato de o governo sinalizar que pode extrapolar o teto de gastos em vez de ajustar o orçamento cortando despesas não relevantes como emendas parlamentares, subsídios a diversos setores da economia.

"Se o endividamento do governo será maior, a taxa de câmbio e de juros também será maior. Provavelmente haverá um aumento maior na inflação e pressão maior sobre a gasolina e alimentos. Com isso, o BC deve subir ainda mais a Selic na próxima semana, mais do que 1 ponto percentual."

'Auxílio de R$ 400 é um Band-Aid numa fratura exposta'

A professora de economia do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) Juliana Inhasz engrossa o coro dos demais economistas ao afirmar que a população precisa da ajuda, mas é ruim a forma pela qual o governo está conduzindo a situação.

"Não há um estudo que mostre como chegaram a esse valor, quem vai receber, como serão tratadas as pessoas que não receberam o auxílio antes mas estão hoje em situação de vulnerabilidade. É um programa que está muito remendado", comenta.

Juliana ressalta que furar o teto de gastos vai totalmente contra tudo aquilo que o ministro Guedes prometeu, que era fazer um reajuste fiscal e melhorar a confiança e o ambiente de negócios.

"Não ficou claro como será conduzido o auxílio de R$ 400. Sabemos que fura o teto dos gastos e piora as expectativas. A pergunta que fica no ar é como atender uma população vulnerável e as pessoas que hoje não recebem o auxílio?", questiona.

Para a professora, "até agora o que percebemos é uma clara tentativa de o governo diminuir o impacto para ver se consegue sobreviver até o ano que vem".

O auxílio de R$ 400, a meu ver, é um Band-Aid numa fratura exposta. Não vai resolver a situação, que é bem sistêmica e na verdade empurra um pouco a bomba para a frente. Gera uma sensação no fim do ano de que a situação está bem, quando na verdade não está.

Juliana Inhasz

Juliana também acredita que o Copom vá rever a elevação da Selic na próxima semana e espera que o aumento seja superior a 1 ponto percentual.

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