Economize Influenciadoras de baixa renda ensinam seguidores a economizar

Influenciadoras de baixa renda ensinam seguidores a economizar

Moradoras do Rio, Nathália Rodrigues e Nathaly Dias fazem sucesso com dicas "realistas" de como aproveitar a vida gastando pouca grana

Influenciadoras Baixa Renda

Nathaly Dias e Nathália Rodrigues em viagem para Buenos Aires, na Argentina

Nathaly Dias e Nathália Rodrigues em viagem para Buenos Aires, na Argentina

Reprodução Instagram

Ensinar educação financeira de forma fácil, prática e rápida para trabalhadores que ganham até um salário mínimo, estudantes, desempregados e estagiários: essa é a proposta do “Finanças com a Nath”.

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Criado em janeiro pela estudante de administração de empresas Nathália Rodrigues, de 21 anos, o canal no Youtube já acumula mais de 15 mil seguidores que buscam aprender como utilizar de forma eficiente o dinheiro que ganha e a investir para, com isso, ganhar mais dinheiro.

Nath ensina educação financeira para baixa renda

Nath ensina educação financeira para baixa renda

Reprodução Youtube

Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Nathália se sentiu motivada em criar uma plataforma após perceber uma falta de representação sobre a área de finanças nas redes.

“Não estava me sentindo representada no meio da internet porque são pessoas que têm uma grana maior e querem ensinar quem é pobre a investir e a guardar dinheiro. Pobre não tem como guardar R$ 1.000”, afirma.

Aos 17 anos, Nathália trabalhava como vendedora em uma loja de calçados. Uma de suas funções era incentivar que os clientes fizessem o cartão do estabelecimento. Apesar de sempre atingir a meta da loja, ela tentava mostrar para as pessoas que elas não precisavam ter muitos cartões, principalmente quando percebia que o cliente ganhava pouco. 

 “Para alguém fazer cartão de crédito, precisa falar quanto ganha, e as pessoas que tinham um salário mínimo, por exemplo, estavam com cinco cartões de loja. Para que isso?”, indaga ela.

Nessa época, a jovem recém-ingressada na universidade já ensinava as pessoas a como consultar o CPF e organizar as finanças pessoais. Após um ano, ela largou o emprego de vendedora para começar a estagiar na área de logística. Entretanto, a nova experiência profissional não fez com que Nathália deixasse de se interessar pela área financeira.

Além do Youtube, o “Finanças com a Nath” também tem perfis no Twitter e no Instagram. Nestas duas últimas, a estudante interage com um público de quase 40 mil seguidores. Segundo ela, o conteúdo que vai para uma rede não é o mesmo que vai para outra.

“São linguagens diferentes. No Twitter, posto muitas notícias e mostro dicas práticas. No Instagram, tiro fotos minhas para as pessoas verem, porque elas gostam de ver um pouco da sua vida. Já no YouTube, falo tudo sobre finanças de forma acessível”, especifica.

Apesar de conciliar o “Finanças com a Nath” com a vida universitária e profissional, a estudante de administração não sonha em trabalhar apenas no ambiente digital. Para ela, o conteúdo de economia que aprende na faculdade e no atual estágio, na área de finanças, serve para agregar ao canal. Quando se formar, Nathália quer atuar como planejadora financeira.

A jovem também é colunista de economia e finanças no jornal Voz das Comunidades, que aborda assuntos relacionados a algumas favelas do Estado do Rio de Janeiro. De forma voluntária, Nathália publica artigos mensalmente sobre a importância da educação financeira nas escolas, 13º salário, entre outros, com o objetivo de explicar economia para as pessoas que moram na favela.

“Tento fazer isso de forma acessível porque esse tipo de conteúdo não é passado tanto assim de uma forma mais tranquila e sem jargões econômicos na mídia tradicional”, explica.

Em um país como o Brasil, em que a taxa de desemprego atinge 12,6 milhões de brasileiros, conforme dados de agosto deste ano do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), saber como economizar pode ajudar na hora de superar dificuldades do dia a dia.

Em um dos vídeos, Nathália explica como economizar, por exemplo, com aplicativos de transporte, de delivery de comida e de streaming de filmes e séries. Fazer uma lista de todas as despesas, dividir o valor entre os amigos em uma corrida, e retirar o cartão de crédito no aplicativo são alguns exemplos de como planejar melhor a vida financeira.

Blogueira ensina a como "sair do vermelho" e controlar as finanças

Blogueira ensina a como "sair do vermelho" e controlar as finanças

Reprodução Instagram

De acordo com dados do Serasa Experian, o número de pessoas com o nome sujo ou com dívidas em atraso alcançou 63 milhões em março deste ano. No canal da jovem, é possível também encontrar conteúdos que auxiliem as pessoas a "sair do vermelho". Um exemplo disso é a recente parceria que Nathália fez com o Serasa Limpa Nome.

“Não faço parceria por conta da grana, e sim por conta do que vai agregar ao meu público e o que aquela marca vai oferecer a ele para que consiga mudar a sua vida financeira”, esclarece.

Nath fez primeira viagem internacional após parceria

Nath fez primeira viagem internacional após parceria

Reprodução Instagram

Contexto político

Após a promulgação da reforma da Previdência pelo Congresso Nacional em novembro, o governo estabeleceu novas regras para aposentadoria do setor privado e de servidores públicos, com exceção de estaduais e municipais.

Apesar de Nathália ainda não ter feito um vídeo dedicado à essa nova mudança que vai impactar diretamente a economia, a jovem acredita que não há como falar de finanças sem abordar o contexto político.

“O sistema financeiro é governamental, então não tem como eu não falar de política, não tem como não fazer críticas tanto positivas quanto negativas do governo porque a gente depende do sistema financeiro do governo. Se existem taxas de juros altos globais, a inflação, o aumento de preço está alto ou baixo, isso tem grande influência no mercado e grande influência do governo”, ressalta.

Sem glamour  

Jovem mostra dia a dia no morro

Jovem mostra dia a dia no morro

Reprodução Instagram

Cerca de 40 km separam Nathália de uma outra influenciadora. Conhecida como Blogueira de Baixa Renda, Nathaly Dias, de 26 anos, mora no Morro do Banco, na zona oeste do Rio de Janeiro. Assim como Nathália, a “Blogueira de Baixa Renda” surgiu de um desejo de mostrar uma realidade que não enxergava na Internet.

Em meio a feeds com mulheres, corpos e vidas perfeitas, a estudante de administração se perguntava. "Será que só eu não sou assim?".

A resposta começou a surgir em outubro de 2017, quando a jovem criou o Instagram. Com mais de 100 mil seguidores atualmente, Nathaly publica fotos e mostra como é a rotina de quem é baixa renda, como ela mesma define.

“Não vou deixar de mostrar que estou lavando a louça só porque não é instagramável. Mostro minha realidade como ela é. Às vezes estou viajando, mas às vezes estou lavando meu banheiro”, disse ela.

Nathaly fez série de vídeos sobre minimalismo no Youtube

Nathaly fez série de vídeos sobre minimalismo no Youtube

Reprodução Youtube

Em junho deste ano, a blogueira começou a produzir conteúdo no Youtube, onde dá dicas de como economizar com compras.

Inspirada no documentário Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes (2015), a jovem gravou uma série de 21 episódios em seu canal em que ensina como aprender a viver com menos e, assim, ter um estilo de vida mais leve. Para ela, ser pobre é ser minimalista. Após a publicação dos episódios, o canal passou de 2.000 inscritos para 100 mil em menos de um mês.

Ainda que atualmente Nathaly se dedique exclusivamente ao “Blogueira de Baixa Renda”, ela não se arrepende de ter cursado faculdade de administração. Para ela, o estudo deu conhecimentos para que ela consiga seguir adiante com o trabalho de influenciadora.

Com a ajuda do marido Guilherme Brainer, que edita os vídeos, Nathaly acredita que é importante que pessoas que ganham pouco possam se identificar com o conteúdo. Com uma taxa de engajamento de 15%, considerado alto entre os influenciadores, o público dela é composto majoritariamente por mulheres do Rio e de São Paulo com idade entre 18 e 34 anos.

“Se o seu conteúdo for bom, impactante e relevante, as pessoas vão te enxergar e vão valorizar isso. No Instagram, as pessoas vêem, seguem, acompanham e te conhecem mais. No Youtube, nem tanto. Muitas vezes a pessoa faz uma pesquisa e aparece o meu vídeo mesmo que ela não me conheça”, destaca a estudante.

Tanto Nathália quanto Nathaly firmaram parceria com uma rede de hotéis e uma companhia aérea brasileira para produzir conteúdo de viagens de baixo orçamento em países da América Latina, como Argentina, Uruguai e Peru. Para as duas, esse tipo de trabalho faz sentido para a comunidade que criaram.

“Queremos mostrar que é possível você viajar e só gastar R$400, R$300, R$500. Isso faz com que as pessoas se empoderem e viagem”, afirma Nathaly. 

Devido aos patrocínios comerciais que vêm firmando, Nathaly tem sido alvo de críticas, por parte de alguns seguidores, em relação ao fato de não ser mais baixa renda. Após mudar para uma nova casa e comprar equipamentos para produzir seus vídeos, eles reprovam o fato dela produzir conteúdo para um público do qual, segundo eles, não faz mais parte.

Nathaly Dias se prepara para 3ª viagem internacional

Nathaly Dias se prepara para 3ª viagem internacional

Reprodução Instagram

“Algumas pessoas falam que eu não sou mais baixa renda porque eu tenho um escritório arrumadinho e uma casa pintada. Mas eu tento explicar e ensinar que não é porque eu tenho essas coisas, que deveriam ser o mínimo, que significa que eu não sou mais pobre. Eu só consegui algumas coisas que algumas pessoas não conseguem. É um processo”, reflete ela.

O maior sonho de Nathaly é ser um modelo de liderança baixa renda, principalmente para as mulheres. No Morro do Banco, ela já é vista como referência pelos moradores, mas a jovem deseja ir além das fronteiras da região onde mora.

Blogueira quer ser uma liderança de baixa renda para mulheres das periferias

Blogueira quer ser uma liderança de baixa renda para mulheres das periferias

Reprodução Instagram

“Quero mudar a vida das pessoas, das mulheres, das comunidades, das favelas, das periferias, dos interiores. Mulheres como a minha mãe, como a minha avó. Mesmo que eu fique rica, vou continuar fazendo esse trabalho. Pessoas fazendo conteúdo para gente rica tem um monte. Vou continuar fazendo para pobre, para as minorias, nós mulheres periféricas e faveladas”, conclui.

*Estagiária do R7 sob supervisão de PH Rosa