Elas empreendem mais que eles: conheça mulheres que driblaram a crise e criaram seus negócios

Estudo do Sebrae-SP mostra que a crise econômica aumentou o número de empreendedoras

De dentro do hospital, Isadora (esq) abriu sua confecção para ajudar o pai doente. O negócio deu certo e hoje vende pela web
De dentro do hospital, Isadora (esq) abriu sua confecção para ajudar o pai doente. O negócio deu certo e hoje vende pela web Arquivo Pessoal

As mulheres empreenderam mais nos últimos dois anos do que os homens por um motivo simples: a crise econômica que assola o País. É o que mostra mais recente estudo do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) sobre o assunto, com base na pesquisa GEM (Monitor Global de Empreendedorismo, na sigla em inglês) Brasil 2015.

A proporção total de mulheres adultas ligadas ao empreendedorismo cresceu e, entre os "patrões mais recentes" (quem tem um negócio com menos de 3,5 anos), elas são maioria: 15,1% contra 14,7% no caso dos homens.

O percentual de mulheres que empreendem por necessidade é 12 pontos maior do que a dos homens: eles são 32%, enquanto elas alcançam a marca de 54%.

É uma reação imediata delas à crise, o que se reflete em novos salões de beleza, restaurantes, lojas de perfumaria e higiene pessoal, prestadoras de serviços domésticos, cabelereiras, manicures, vendedoras, entre outras profissões.

Os homens, por sua vez, começam seus negócios em construção, restaurantes, cabeleireiros, manutenção de veículos, obras de acabamento e móveis de madeira.

O estudo ressalta que “particularmente em 2015, com a desaceleração da economia, cresceu muito o empreendedorismo por necessidade no grupo das mulheres, puxando a proporção de empreendedorismo por necessidade geral do País”. Isso se deve a necessidade de complementar a renda ou pagar as contas de casa.

As mulheres empreendedoras também buscam menos os órgãos de apoio para abrir suas empresas e, em comparação com os homens, as novas donas de negócio são mais jovens, mais escolarizadas, ganham menos e têm maior proporção de pessoas que se classificam como negras ou pardas (veja mais no quadro abaixo).

A seguir, você vai conhecer negócios abertos por mulheres, que decidiram encarar a crise, começaram seu próprio negócio e enfrentam os desafios da nova profissão. Os motivos para empreender são diversas, mas o objetivo é comum: necessidade de complementar a renda.

Pelo pai

Aos 20 anos, a estudante Isadora Donay Ribeiro viu sua vida mudar totalmente. Ela fazia faculdade de engenharia no Sul do País e foi visitar os pais que moram no Rio de Janeiro em 2015. Quando chegou lá, soube que o pai iria perder o emprego e havia acabado de descobrir um caso de trombose na perna esquerda.

— Éramos eu, meu pai, minha mãe e nossos animais de estimação vendo o dinheiro sair e não entrar. Meu pai ficou 3, 4 meses no hospital internado. De 100 Kg foi pra 50 Kg e o risco de perder a perna era enorme.

Isadora e a mãe não trabalhavam, eram estudantes. Foi aí que a jovem decidiu apostar em uma loja. "Foi um tiro no escuro”, diz, afinal nunca tinha trabalhado com arte, design e muito menos em criação de roupas. Mas em janeiro de 2016, de dentro do hospital, criou a Close Clothing Store.

— Divulguei [os produtos] em alguns grupos do Facebook e acabou que a lojinha deu certo. Não tenho loja física. Todo meu contato com os clientes é via Facebook e pelo site da loja. Tento ser o mais próxima de todo mundo que compra lá, mais do clientes, são pessoas que de alguma forma estão ajudando minha família. Merecem todo amor do mundo.

Segundo ela, mesmo com a ajuda da mãe, que às vezes consegue trabalhos com um amigo, a maior parte da renda da casa vem da confecção que criou. A jovem conta que alguns familiares ajudam a família financeiramente até o pai conseguir se estabilizar no mercado de trabalho novamente.

Isadora diz que o diferencial de sua loja é que ela trabalha com todos os tamanhos, sendo totalmente inclusiva e sem distinção de gênero. Além disso, garante que pode fazer a estampa que o cliente quiser, mesmo com os desenhos prontos.

Veronica deixou trabalho em empresa e, atualmente, faz faxinas
Veronica deixou trabalho em empresa e, atualmente, faz faxinas Arquivo Pessoal

Pela paixão

"Quis mostrar que eu faço porque eu sou boa nisso e gosto de fazer". A afirmação é de Veronica Oliveira, de 35 anos, que trabalhava como operadora de telemarketing até dezembro do ano passado, mas resolveu pedir demissão para fazer faxinas.

O trabalho dela começou para garantir uma grana extra, já que gostava da tarefa de limpar ambientes. Começou a divulgar o serviço para os amigos e, depois, nas redes sociais de uma maneira bem extrovertida e criativa.

Veronica diz que, desde que passou a mostrar na web a limpeza que faz, começou a atender muito mais.

— Quando vejo a forma que as pessoas divulgam o trabalho delas com limpeza, sempre tem um tom melancólico, do tipo: "Eu faço faxina pois não tenho outra opção".

As postagens dela em sua página na web, a Faxina Boa, são sempre bem divertidas e isso trouxe a simpatia de clientes que pagam a partir de R$ 150 para ter os serviços dela por cerca de 5 horas. Ela mora no Tatuapé, zona leste de São Paulo, mas afirma que atende em toda a cidade e região metropolitana: "Vou onde o bilhete único me levar".

Veja os dados da pesquisa