Economia Empresas miram classe C e vendem viagem pré-paga e aparelho de dente em até 36 vezes

Empresas miram classe C e vendem viagem pré-paga e aparelho de dente em até 36 vezes

Estratégia é driblar a falta de dinheiro dos jovens, que ganham menos e se endividam mais

Empresas miram classe C e vendem viagem pré-paga e aparelho de dente em até 36 vezes

Jovens entre 15 e 24 anos movimentaram mais de R$ 4,5 milhões neste ano apenas com cartões pré-pagos

Jovens entre 15 e 24 anos movimentaram mais de R$ 4,5 milhões neste ano apenas com cartões pré-pagos

AP Photo/Victor R. Caivano

A alta dos preços de produtos e serviços tem prejudicado o consumo dos brasileiros, principalmente dos jovens da periferia, que ganham menos e acabam se endividando. No País, há 56,5 milhões de pessoas inadimplentes, ou seja, 1 em cada 4 brasileiros está com as contas no vermelho, segundo a Serasa.

Para driblar essa situação, muitas empresas estão oferecendo serviços pré-pagos e parcelamentos longos para esse público como estratégia para escapar do endividamento, sem ter que deixar de consumir. Entre esses serviços estão cartões e viagens pré-pagos e tratamentos odontológicos parcelados em até 36 vezes.

A Vai Voando, por exemplo, fechou uma parceria com a Cufa (Central Única das Favelas) para criar pontos físicos de venda de passagens aéreas nas favelas, com preço acessível aos moradores. Segundo Luiz Andreaza, gerente de marketing e comercial da empresa, o objetivo é oferecer os benefícios do sistema de compra pré-paga.

— Não existe a necessidade de comprovar renda, de consultar órgãos de proteção ao crédito nem mesmo pedimos fiador. Nós parcelamos a viagem em até 12 vezes iguais, e tudo está pago antes do embarque. O cliente que se planeja para a viagem com antecedência, consegue parcelar em mais vezes.

Busca por crédito em bancos é maior entre moradores da periferia

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Os jovens da periferia também têm se preocupado mais com a saúde dos dentes e estão fazendo crescer o mercado de clínicas odontológicas nas comunidades. A Odontoclinic abriu uma loja em Paraisópolis, que teve no primeiro mês de operações o dobro do faturamento médio de uma clínica em início de operações.

O sócio-diretor da empresa Lucas Romi afirma que um dos fatores para o crescimento foi oferecer aos clientes o parcelamento de tratamentos com aparelhos em até 36 vezes.

— O preço é competitivo. Fica um pouco acima do preço médio da comunidade, mas os consumidores querem a qualidade do serviço e pagam mais para ter um resultado melhor. Nós fazemos o parcelamento em boleto bancário. E o serviço é feito conforme o pagamento. Assim não existe inadimplência.

Cartões

Moradores da periferia mantêm o consumo parcelando as compras em mais vezes

Moradores da periferia mantêm o consumo parcelando as compras em mais vezes

Joe Raedle/Getty Images News

Os cartões pré-pagos também estão entre os serviços que ajudam os jovens de periferia a consumir sem se endividar. Para quem já está endividado, esses cartões são um meio de controlar as despesas, já que só é possível gastar o saldo que foi carregado no cartão.

Segundo Flavia Deutsch, diretora de marketing da Acesso (empresa especializada nesse tipo de cartão), as pessoas passam a ter acesso também às compras online mesmo sem ter cartão de crédito.

— O cartão pode ser comprado no varejo, sem nenhum tipo de análise de crédito, a carga é feita pela internet e o cliente pode ter certeza que não terá sustos ao final do mês.

A empresa informa que um em cada três clientes de sua base tem entre 15 e 24 anos. Esse grupo movimentou mais de R$ 4,5 milhões neste ano, com foco principal em compras na internet. Esses jovens realizaram compras em 47 países ao redor do mundo e gastam, em média, R$ 40 em cada compra.

A coordenadora do curso de administração do Centro Universitário Newton Paiva, Andrea Soares Moura, afirma que, apesar da redução da renda dos trabalhadores, eles ainda “continuam consumindo, principalmente quando a prestação cabe no bolso”.

— Se, antes, o parcelamento era feito em dez vezes, agora passa a ser em 14 ou até em 18 vezes.

No Brasil, um em cada três moradores de favelas está endividado

Dívidas X consumo

Em uma pesquisa sobre inadimplência divulgada no início deste mês, o superintendente do Serasa Consumidor, Júlio Leandro, afirmou a forte concentração de moradores de baixa renda nas periferias, a vulnerabilidade e desigualdade social acabam impactando no número de pessoas inadimplentes.

— Por terem um orçamento curto, esses cidadãos possuem dificuldades na hora de pagar as contas, guardar um dinheiro extra para emergências e até mesmo fazer uma poupança para uma compra maior como casa e automóvel. Os recentes aumentos nos produtos, serviços e impostos também acabaram prejudicando ainda mais a renda dos moradores da comunidade.

No caso das passagens aéreas da Vai Voando, entre 65% a 70% das vendas são feitas por meio de boleto (parcelamento pré-pago) e o índice de cancelamento fica entre 3% e 4%.

Para Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisas Data Popular, a crise chegou ao Brasil inteiro, inclusive à periferia e aos jovens da periferia.

— Temos visto esses jovens procurarem soluções mais econômicas para se divertir, por exemplo. Então, a gente vê o crescimento dos bailes de rua com funk na periferia. Por outro lado, eles estão fazendo cada vez mais pesquisa de preços antes de comprar e conseguindo fazer mais bicos para ter uma grana extra e não ter que deixar de consumir nem ter que largar a faculdade.

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