Entre novo emprego e exposição ao coronavírus: os dois lados da oferta de vagas na saúde

Plataformas de classificados de empregos e entidades profissionais veem aumento na oferta de trabalho para médicos e enfermeiros

    • Economia
    • por
      BBC NEWS BRASIL
Plataforma  de empregos viu avanço de até 700% em vagas na área de enfermagem

Plataforma de empregos viu avanço de até 700% em vagas na área de enfermagem

Adriano Machado/Reuters

"60 vagas enfermeiro com ou sem experiência, São Paulo."

"Técnicos de enfermagem. Nós precisamos de vocês."

"Contratação emergencial! Precisamos de médicos com urgência."

Convocações como essas, encontradas em grupos no Facebook reunindo profissionais de saúde, são apenas alguns dos muitos anúncios que têm proliferado não só nas redes sociais, mas também em plataformas online de recrutamento divulgando novas vagas em hospitais privados, no atendimento prestado por associações beneficentes, e em unidades vinculadas a secretarias de Saúde municipais e estaduais pelo Brasil.

São instituições públicas e privadas de saúde correndo contra o tempo na preparação para a escalada de casos de coronavírus no país — número que já cresce a cada dia.

Ainda não há dados oficiais sobre um aparente aumento na oferta de trabalho para profissionais da saúde, mas entidades profissionais e empresas de recrutamento já veem sinais evidentes disso — em particular para certos cargos, como aqueles de atuação nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), que recebem os casos mais graves.

A pedido da BBC News Brasil, a Catho, site de classificado de empregos, constatou que, na comparação com o mesmo mês em 2019, março de 2020 teve um aumento de 281% no número de anúncios com novas vagas na área de saúde (um mesmo anúncio pode divulgar uma ou mais vagas). A empresa não divulga números absolutos, apenas porcentagens.

Por cargo, o maior avanço observado na plataforma foi para enfermeiro de UTI (718% na comparação com março de 2019), seguido de técnico de enfermagem (708%) e enfermeiro (397%).

A Catho reconhece que, na sua plataforma, a oferta de vagas para médicos é residual.

Além dos classificados na Catho, a corrida por profissionais de saúde é exemplificada por anúncios de contratações por grandes hospitais, hospitais de campanha em instalação, prefeituras e governos estaduais em todo país.

Apenas nesta semana, foram divulgadas mais de 800 vagas temporárias na saúde pelo governo do Estado do Rio Grande do Norte; 270 pela prefeitura de Porto Velho (RO); entre outras.

Isto fora as mais de 5 mil vagas, com contratos de um ano, anunciadas pelo governo federal em março no âmbito do programa Mais Médicos, para o combate ao coronavírus.

Mais vagas para enfermeiros

O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) — Estado que teve os primeiros registros de coronavírus e hoje é o que tem mais casos e óbitos no país — também detectou em seus dados um grande aumento na demanda por profissionais da área no último mês.

De 11 a 31 de março deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, o volume de pedidos de inscrições no conselho foi 49% maior — passando de 4.242 para 6.316.

O número de inscrições emitidas pelo conselho (quando o número de registro do profissional já foi emitido e ele está apto a exercer a profissão) foi 22% maior, saltando de 3.383 para 4.132 inscrições. O conselho atende a enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem.

Renata Pietro, presidente do Coren-SP, destaca que os profissionais de enfermagem compõem cerca de 70% da força de trabalho da saúde no país, então é esperado que sejam das funções com maiores demandas no cenário atual cenário de pandemia.

Diferente dos médicos, em que a contratação por prestação de serviço (como autônomo ou pessoa jurídica) é frequente, Pietro diz que profissionais de enfermagem tendem a ser contratados como celetistas — e, nas vagas emergenciais que se vê agora, há muitos contratos temporários do tipo RPA.

E, apesar de nos últimos anos a categoria ter se destacado em relação a outras na oferta de trabalho — foi a categoria de nível superior com mais contratações no primeiro trimestre de 2019, segundo a plataforma Quero Bolsa com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) —, isto está longe de indicar um ramo profissional sem problemas.

"Apesar de termos aparecido como a profissão com mais contratações nos últimos dois anos (em alguns trimestres específicos), há um subdimensionamento. As instituições tendem a trabalhar com um mínimo", diz Renata Pietro, apontando também para o crescente número de faculdades e formados entrando no mercado.

"Precisamos de mais gente no mercado, e um cenário como esse (da pandemia) é uma oportunidade de fazer esse ajuste. A pandemia também pode contribuir ao dar aos recém-formados uma primeira oportunidade — muitos contratantes não estão nem perguntando se o candidato tem experiência."

Em grupos de enfermeiros no Facebook, o mural tem ficado repleto de postagens de profissionais comemorando o primeiro emprego na área, a saída do desemprego ou o enriquecimento do currículo com a conquista dessas vagas emergenciais — ao lado também de comentários sobre a preocupação com a exposição à nova doença.

Hospital de campanha é construído ao lado do estádio do Maracanã

Hospital de campanha é construído ao lado do estádio do Maracanã

Lucas Landau/Reuters

'Sustentar meus filhos'

Para a enfermeira Kátia Oliveira, 37 anos, contratada há uma semana em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em uma cidade catarinense, a oportunidade de trabalho vinda com o novo coronavírus foi um a "luz em meio a todo esse caos".

"É uma doença muito ruim, não queríamos estar trabalhando com ela. Mas olhando pra parte do emprego, será muito bom para o currículo, vai ajudar muito as pessoas da área da saúde. Muito mesmo. Eu tiro por mim, meu Deus. Vou conseguir ajudar meus filhos, sustentar minha casa", contou a enfermeira à BBC News Brasil por telefone, "mãe e pai" de quatro filhos há quinze anos, quando ficou viúva.

"Eu não sabia na verdade como ia fazer esse mês para colocar comida dentro de casa, porque seria quase tudo (do orçamento) pro aluguel."

Formada há três anos, Kátia conta já ter vivido um início de profissão de sacrifícios. Natural de uma cidade no interior de São Paulo, ela se mudou para Santa Catarina por encontrar lá mais vagas que aceitassem recém-formados.

Até encontrar a vaga aberta na UPA por conta do coronavírus, a enfermeira estava trabalhando em uma clínica psiquiátrica — hoje, acumula os dois trabalhos, às vezes emendando turnos.

E, agora, o próximo passo do seu "sonho" é ser contratada por tempo indeterminado na UPA, onde diz estar satisfeita com o ambiente e condições de trabalho. Aliás, diferente de relatos de outros colegas pelo Brasil, ela diz estar recebendo Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) contra o coronavírus adequados — e conta já ter atendido pacientes com suspeita da doença.

Em São Paulo, o Coren-SP protocolou nesta semana um ofício ao Ministério Público denunciando condições inadequadas de trabalho em hospitais com base em denúncias de profissionais — que apontaram não disponibilização de EPIs para toda a equipe, carência de materiais mínimos de higienização e reutilização de materiais descartáveis.

Apesar de admitir que tem medo de se contaminar, Kátia diz que não pensou duas vezes em aceitar o emprego nesta pandemia. Ela sustenta os filhos e um deles, de 20 anos, foi diagnosticado recentemente com leucemia, o que traz novos custos com transporte para exames, remédios e outros procedimentos.

Com o diagnóstico do filho e o trabalho com pacientes de coronavírus, a enfermeira também ficará afastada fisicamente dele por tempo indeterminado. Ele vive com os avós no interior de São Paulo para continuar o tratamento ali iniciado.

"Ver meu filho, só depois que passar essa fase. Estou tendo exposição direto e ele está com a imunidade baixa, não posso ter contato com ele. Meus pais também são idosos. Vamos matando a saudade de longe, falamos todo dia no WhatsApp."

Enfermagem se destacou nos últimos anos em número de contratações

Enfermagem se destacou nos últimos anos em número de contratações

Adriano Machado/Reuters

Novas vagas também para médicos

Em um mercado com divulgação de vagas e tipos de contratos diferentes da enfermagem, os médicos também têm visto novas oportunidades surgirem motivadas pela prevenção ao coronavírus.

Criadora do Quero Plantão, um conjunto de grupos no WhatsApp e Telegram para regiões de todo o Brasil e que em breve se tornará um aplicativo, a médica Ana Paula D'Artibale tem há muito tempo uma rotina frenética fazendo a ponte entre profissionais da saúde (principalmente médicos) e instituições públicas e privadas — ela conta que são cerca de 30 mil pessoas usando o Quero Plantão.

Mas, com a pandemia de coronavírus, essa procura por profissionais ficou ainda mais intensa.

"Todo dia é um cenário novo: ontem eu tinha um pedido de X vagas para determinado serviço; hoje eu acordo de manhã e já tenho mensagens pedindo um número maior de profissionais. Por quê? Os médicos que estava trabalhando foram afastados, porque estão com suspeita de coronavírus, então precisamos suprir essa demanda. Essa rotatividade tem sido muito grande."

A Associação Médica Brasileira (AMB), assim como o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), tem demonstrado preocupação com os riscos aos quais profissionais são submetidos sem condições adequadas de trabalho diante do coronavírus.

Em um canal de denúncias na internet especificamente dedicado ao assunto, a AMB recebeu até 29 de março 2.513 denúncias de profissionais sobre falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) contra o coronavírus — máscara tipo N95 ou PFF2; óculos e/ou face shield; luvas; gorro; capote impermeável e álcool gel 70%.

Com base nas reclamações, presentes em todos os Estados, a associação calculou que falta álcool em gel em 35% dos estabelecimentos denunciados; em 75% deles, há falta de pelo menos três dos EPIs; em mais de 30% dos casos, todos os EPIs estão em falta.

"De um lado, você vai ter um número maior de pessoas prestando o atendimento em saúde; do outro, uma grande entrada de pacientes. E no meio deles, a falta de proteção", diz o vice-presidente da AMB, Diogo Sampaio, tendo em vista um pico de casos de coronavírus no país entre abril e maio.

"Essa falta de equipamento é complexa porque não se trata da proteção apenas do médico. Se ele não estiver protegido e atender um paciente de covid-19, ele provavelmente vai ficar contaminado e vai transmitir (o vírus) para outros pacientes. Transmite também para outros profissionais de saúde e para a sua família."

"Pior que isso: ele pode ficar doente, será testado, ficará em isolamento e não poderá prestar atendimento à população por 14 dias."

"Na Itália, quase 6 mil profissionais de saúde saíram da linha de atendimento porque ficaram doentes", afirma Sampaio, destacando que o afastamento de profissionais adoecidos foi parte do colapso do sistema de saúde italiano com o coronavírus, junto com a falta de leitos de UTI e equipamentos, entre outros.