JBS enfrenta ameaça de boicote após escândalo

Pequenas ações contra marcas da empresa já foram divulgadas nos últimos dias

JBS enfrenta ameaça de boicote após escândalo

Banner em frente à churrascaria anuncia boicote à JBS

Banner em frente à churrascaria anuncia boicote à JBS

Rodrigo Félix Leal/Futura Press/Folhapress - 25.5.2017

Consumidores de todo o País ficaram revoltados ao ver o escândalo de propina envolvendo a J&F, dona de grandes marcas nacionais, incluindo Friboi e Seara.

Entretanto, até que ponto essa indignação popular pode se refletir em prejuízos para a empresa?

O conglomerado é administrado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, que firmaram acordo de delação premiada e conseguiram com isso escapar da possibilidade de serem presos.

O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) divulgou, no último dia 25, um pedido de boicote às marcas de propriedade da J&F.

“Segundo as notícias, os empresários admitiram, em delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato, o pagamento de vultosas propinas a políticos de vários partidos para facilitar a expansão de seus negócios”, diz o instituto em nota.

No Brasil, a J&F tem empresas nos seguintes ramos: carnes (a JBS detém as marcas Friboi, Seara, Swift, Maturatta, Massa Leve, Big Frango) laticínios e frios (Doriana, Faixa Azul, Amélia, Vigor, Danúbio, Serrabella, Leco, Fong e Itambé), produtos de limpeza e higiene pessoal (Minuano, Mat Inset, Neutrox, Francis, Albany, Ox, Hydratta e Karina), calçados e vestuário (Havaianas, Dupé, Osklen, Mizuno, Sete Léguas e Meggashop Outlet), além do banco Original e da Âmbar Energia.

Uma churrascaria de Curitiba divulgou em sua página no Facebook um recado aos clientes. “Em respeito ao Brasil, à sociedade e aos trabalhadores desse País, informamos que a partir da presente data não trabalhamos mais com produtos da linha JBS”, diz o comunicado, também colocado em frente ao estabelecimento.

Posteriormente, um tradicional hotel de Campos do Jordão (SP) também adotou o boicote à JBS. "Para que vou ajudar a enriquecer uma empresa como essa, que aprontou tanto, que comprou 1.829 políticos?", disse Aref Farkouh, sócio do hotel Toriba, à colunista da Folha de S.Paulo Mônica Bergamo.

Somente a JBS teve receita de R$ 170 bilhões em 2017. A empresa é hoje a maior processadora de proteína animal do mundo. São 155 unidades de processamento de bovino, suíno, aves e ovinos espalhadas em 15 países (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Itália, França, Holanda, Inglaterra, Irlanda, México, Porto Rico, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos).

Grandes clientes JBS têm política de tolerância zero com corrupção e avaliam punições contra empresa.

É o caso do Grupo Pão de Açúcar, controlado pelo francês Casino, que já notificou a JBS. “A companhia já solicitou esclarecimentos acerca das recentes notícias divulgadas, no que diz respeito à relação das empresas fornecedoras e os fatos mencionados, bem como as salvaguardas adotadas pela companhia e a implementação de mecanismos de compliance e integridade, com o objetivo de prevenir novos atos de corrupção na empresa”, disse o GPA em nota.

Em seus códigos de ética, grandes redes de varejo que atuam no Brasil não admitem que seus fornecedores estejam envolvidos em casos de corrupção.

O Walmart diz que “em relação ao caso da JBS, a empresa informa que está acompanhando o caso atentamente”. 

As regras de compliance da empresa dizem que “em todos os países em que o Walmart opera, os fornecedores recebem informações sobre a Política de Ética na Cadeia de Suprimentos (Compras Responsáveis) e um Acordo de Fornecedores, que apresenta normas e procedimentos para garantir boas práticas em relação à legislação vigente em todas as suas unidades, tanto no campo social quanto no ambiental”.

Já o Carrefour diz que “aguarda o desfecho do caso” envolvendo a JBS. A empresa ainda acrescenta que “não tolera nenhuma prática ilícita e tem como princípio fundamental o combate à corrupção em todas as suas formas em linha com seu Código de Conduta do Fornecedor”.

Poderia, então, um boicote abalar o faturamento dessa gigante de carnes?

Na opinião do advogado e coordenador do curso de compliance da FGV (Fundação Getulio Vargas) Salim Saud Neto, “o consumidor é o grande motor do boicote”.

“Quando a gente fala em varejo, isso faz muita diferença. O consumidor é quem vai ser o grande motor desse boicote ou não. Se o consumidor deixar de comprar, o varejista vai reduzir os pedidos da JBS”, diz.

Saud Neto, no entanto, diz que para os próprios varejistas acionarem um eventual dispositivo de compliance nos contratos e romperem relações comerciais com a JBS deveria existir um vínculo do produto com a corrupção.

“Se eu sou um supermercado e vendo carne da JBS, e a JBS fez um pagamento para um deputado relacionado à compra de gás na Bolívia, isso não afeta muito aquela venda direta, não gera um risco para o supermercado. O que ele poderia alegar é a questão da reputação, dependendo, é claro, da disposição contratual”, observa.

O professor pondera que existe a necessidade de punições para a JBS, mas não considera o boicote como uma solução.

“Eu entendo que o consumidor se sinta lesado, que a empresa tenha que vender alguns ativos, pagar multa. Mas a gente tem que considerar que a JBS gera riqueza, dá emprego. O boicote à JBS não me parece uma ideia inteligente do ponto de vista de cidadania. Se essa empresa quebrar, o prejuízo vai ser ainda maior. Seria, talvez, ingênuo, achar que uma empresa desse tamanho a gente consiga substituir facilmente”, afirma.

O R7 procurou a JBS para comentar o caso, mas até a última atualização desta reportagem ainda não havia obtido resposta.