Economia Liquidação no mercado de bônus se torna real e gera dor de cabeça para BCs

Liquidação no mercado de bônus se torna real e gera dor de cabeça para BCs

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Reuters - Economia

Por Dhara Ranasinghe e Sujata Rao

LONDRES (Reuters) - Os rendimentos dos títulos soberanos ajustados pela inflação estão subindo, assim como a pressão sobre autoridades de política monetária do Fed e do BCE para de alguma forma conterem o aumento antes que ele destrua a recuperação econômica que os BCs cuidadosamente nutriram com enormes quantidades de impressão de dinheiro.

As taxas soberanas têm aumentado neste ano com perspectivas de que estímulo fiscal dos EUA e distribuição de vacinas contra a Covid-19 fortaleçam o cenário para crescimento e inflação, movimento que agora se espalhou para os chamados rendimentos reais --custos de empréstimos ajustados pela inflação.

Os mercados de ações até recentemente ignoravam a venda de títulos, possivelmente vendo tal movimento como um sinal tranquilizador de melhora econômica. Mas a mudança sutil que agora está em andamento não é bem-vinda nem para os mercados nem para as autoridades.

Os rendimentos reais do Treasury de 30 anos subiram acima de zero na sexta-feira pela primeira vez desde junho, e os retornos reais do papel de dez anos saltaram 20 pontos-base na semana passada.

A liquidação envolveu até mesmo a Europa, apesar de sua recuperação lenta e inflação fraca, com a Alemanha registrando na semana passada aumento de 26 pontos-base nos juros reais de dez anos --o maior em quase um ano.

Pior ainda, as elevações nos retornos reais estão ultrapassando os acréscimos nas taxas nominais na Alemanha e nos Estados Unidos. Essencialmente, as expectativas do mercado quanto à inflação futura estão caindo ao mesmo tempo que os custos dos empréstimos aumentam.

O resultado é um aperto nas condições financeiras --um fator negativo para o crescimento econômico.

"Se eu fosse um formulador de política monetária, ficaria muito preocupado", disse Charles Diebel, chefe de renda fixa da Mediolanum International Funds.

"Se os rendimentos reais aumentarem suficientemente, de repente haverá um aperto bastante significativo nas condições financeiras e toda a flexibilização --monetária e fiscal-- será em vão."

Isso pode já estar acontecendo. Um índice de condições financeiras globais compilado pelo Goldman Sachs atingiu seu nível mais alto em cerca de um mês.

Um índice de liquidez da CrossBorder Capital tende a cair 12 pontos do índice para cada aumento de 100 pontos-base nos rendimentos reais, de acordo com o diretor-gerente da consultoria, Michael Howell.

Portanto, a mudança deste ano implica um declínio de 2,5 trilhões de dólares na liquidez --cerca de 1,5%, estima Howell.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, quebrou o silêncio dos formuladores de políticas sobre o assunto, dizendo que está "monitorando de perto" o aumento dos yields. O chair do Federal Reserve, Jerome Powell, prometeu, entretanto, que as políticas acomodatícias permanecerão em vigor por "algum tempo".

Os rendimentos reais são importantes porque, diferentemente das taxas nominais dos títulos, representam o custo real do capital e, portanto, exercem impacto maior sobre custos de empréstimos para governos, empresas e famílias.

Eles também determinam o prêmio que investidores ganham ao manterem em carteira ações em vez de títulos. Foi um salto de 100 pontos-base nos rendimentos reais que alimentou o "tantrum" do mercado em 2013.

No mercado financeiro, "tantrum" é um termo usado em referência a uma violenta reação de investidores a mudanças em condições de liquidez e de estímulos. O episódio mais famoso, que ficou conhecido como "taper tantrum", é de maio de 2013, quando os yields dos Treasuries dispararam após o Fed sinalizar redução de estímulos.

Um salto nos yields agora pode explicar por que o S&P 500 marcou na segunda-feira a maior sequência de quedas desde fevereiro passado e o bitcoin caiu 12% nesta semana.

"O movimento do rendimento real será um verdadeiro teste desse ambiente de mercado, especialmente para algumas das classes de ativos mais arriscados, onde vimos rendimentos reais baixos usados ​​como justificativa para 'valuations' muito altos", disse Ross Hutchison, gestor de fundos da Aberdeen Standard Investments.

Os mercados parecem relutantes em aceitar promessas. Os comentários de Lagarde não impediram que os rendimentos da zona do euro subissem ainda mais na terça-feira, enquanto os custos de empréstimos da Nova Zelândia aumentaram apesar dos comentários "dovish" do banco central na reunião de política desta quarta-feira.

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