Economia 'Mais do que atrair talentos negros, é preciso retê-los', diz VP da Bayer

'Mais do que atrair talentos negros, é preciso retê-los', diz VP da Bayer

Em painel online mediado pela jornalista Salcy Lima, líderes executivos defenderam saídas para combater racismo estrutural nas empresas

  • Economia | Nayara Fernandes, do R7

Até sexta (2), movimento Afro Presença discute racismo estrutural nas empresas

Até sexta (2), movimento Afro Presença discute racismo estrutural nas empresas

Fauxels - Pexels

O movimento Afro Presença convidou líderes de três grandes empresas para discutir os principais caminhos para a inclusão e ascensão de profissionais negros no mercado de trabalho como forma de combater o racismo estrutural. O painel online foi mediado por Salcy Lima, jornalista da RecordTV, com a presença de Mauricio Rodrigues, vice-presidente de finanças da Bayer, Eduardo Santos, General Manager da EF -Education First, e Leandro Camilo, sócio e líder de diversidade da PwC. Para os líderes empresariais, cabe ao setor privado a responsabilidade de integrar uma força de trabalho mais diversa nas organizações.

“Do ponto de vista governamental, existiram ações afirmativas para dar mais acesso aos negros nas universidades”, explica Mauricio Rodrigues, VP da Bayer, que neste ano lançou um programa de trainee exclusivamente dedicado a profissionais negros.

“A gente começa a ver hoje o reflexo dessas ações afirmativas quando vê negros se formando e se graduando, eliminando aquele conceito de que não existe gente qualificada para trabalhar nas empresas. Temos um grupo muito melhor qualificado do que existia há 20 anos atrás”, defende o vice-presidente da farmacêutica. “Mais do que atrair talentos negros, precisamos fazer com que eles fiquem retidos, senão vamos seguir contratando pessoas de um determinado nível organizacional."

Salcy Lima, jornalista da Record TV, chamou atenção para os baixos índices de pessoas negras em posições de tomada de decisão.

“Quando falamos em racismo estrutural, a gente se refere a um conjunto de práticas que reforçam um sistema preconceituoso que colocam negros em situações inferiores. O resultado é que de 56% da população negra no Brasil, menos de 5 % ocupa cargos executivos, de acordo com o Instituto Ethos.”

Ainda segundo o Ethos, quando se fala em mulheres negras em cargos executivos, os índices caem para 0,4%.

Veja também: Líderes negras abalam as estruturas do racismo

O mercado de inclusão

Para líderes empresariais, diversidade vai além da contratação

Para líderes empresariais, diversidade vai além da contratação

Reprodução

De acordo com o estudo "A Importância da Diversidade”, realizado pela McKinsey & Company, empresas que se preocupam com diversidade étnica têm 35% mais chances de retorno financeiro em relação aos concorrentes. No painel da AfroPresença, o dado foi levantado por Leandro Camilo, sócio e líder de diversidade da PwC, ao defender o investimento em inclusão como pauta estratégica.

“Há diversos estudos que apontam inúmero benefícios da diversidade nos negócios: desde o aumento do engajamento de funcionários tanto negros como não negros ao aumento de produtividade e senso de pertencimento, explica Camilo.

Já Eduardo Santos, general manager da Education First – empresa de educação internacional cujo quadro organizacional é de 48% negros – alerta que muitas empresas não sobreviverão caso o processo de recrutamento não seja repensado.

“Não estamos falando de uma questão assistencialista, mas de garantir que profissionais da nossa maior comunidade no país - os profissionais negros - estejam efetivamente liderando nossos negócios.”

O senso de pertencimento, de acordo com os três profissionais, também é um fator a ser levado em conta.

“Ter um ambiente onde as pessoas possam trocar entre si é fundamental para que se sintam acolhidas”, explica Mauricio Rodrigues, que também atua como sponsor do grupo de afinidade BayAfro. “É importante a função desses grupos de afinidade para tomarem várias ações e questionamentos. E também para assegurar que alguém esteja de olho na temática racial e trazer essa discussão a tona de maneira efetiva e constante.”

Revisitando processos seletivos

De acordo com os três líderes, a mudança no mercado não ocorrerá sem que os critérios de seleção e cultura empresariam também sejam repensados. Mauricio Rodrigues, da Bayer, defende que o processo seletivo seja intencionalmente desenhado para contornar vieses inconscientes. Entre as medidas de maior urgência, Mauricio chama atenção para o domínio da língua inglesa como pré-requisito de contratação.

“Inglês não deveria invalidar uma pessoa com potencial. É necessário, mas é algo que se treina.”

Mauricio Rodrigues

Além da barreira linguística, o vice-presidente também aponta a contratação exclusiva de profissionais que vieram de universidades de elite como obstáculo para uma cultura mais inclusiva e defende medidas de conscientização e aprendizado não só no time de recursos humanos como em lideranças médias.


“Se você focar só em um desses aspectos, a tendência ao fracasso é grande.”

Até sexta-feira (2), o movimento Afro Presença promove painéis online para discutir saídas para o racismo estrutural nas empresas. As discussões podem ser acompanhadas através do site afropresenca.com.br.

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