Educação Docentes e egressos da UFPI criam Manual de Ciências em Libras

Docentes e egressos da UFPI criam Manual de Ciências em Libras

O e-book conta com 11 capítulos, e em todos eles são apresentados diferentes sinais sobre determinadas partes do corpo humano

  • Educação | João Melo, Do R7*

Manual apresenta sinais sobre diferentes informações do corpo humano

Manual apresenta sinais sobre diferentes informações do corpo humano

Reprodução/Manual de Libras para Ciências

De acordo com o censo mais recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, existem cerca de 10 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência auditiva no Brasil, o que corresponde a 5% da população. E, segundo um levantamento feito pelo Instituto Locomotiva em outubro do ano passado, junto com o evento da Semana da Acessibilidade Surda, apenas 7% dos surdos têm ensino superior completo, 15% estudaram até o ensino médio, 46% até o fundamental e 32% deles não possuem grau de instrução.

Diante dessas informações, um grupo de docentes e egressos da Universidade Federal do Piauí (UFPI), decidiu, em 2017, desenvolver um manual de Libras voltado para a área da ciência, nomeado “Manual de Libras para Ciências: A Célula do Corpo humano”.

A ideia surgiu, inicialmente, quando Bruno Iles e Taiane de Oliveira, alunos do Curso de Licenciatura em Biologia da UFPI, estagiavam dando aulas para o oitavo ano do ensino fundamental. Naquela ocasião, eles tinham dois alunos surdos, mas não conseguiam ter uma comunicação efetiva com eles. “Como a escola não tinha muitos intérpretes, a gente não se comunicava direito com eles, então a ideia surgiu mais na necessidade de, como professores, conseguir passar o conteúdo para aqueles alunos, porque nós nos sentimos impotentes”, destaca bruno.

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A partir de então, iniciou-se a produção do manual que, no primeiro momento, contava com a ajuda de toda a sala deles na UFPI, com cerca de 30 alunos. Contudo, com o tempo, a ideia foi se afunilando, e o projeto foi finalizado com a ajuda de apenas 17 pessoas, entre organizadores, fotógrafos, diagramadores, ilustradores, construtores de sinais e tradutores.

Sobre os construtores de sinais, Rosemary Meneses, docente do curso de Ciências Biológicas da UFDPAr, destaca a dificuldade de encontrar pessoas que pudessem criar novos sinais. “Em nosso município, os sinais que os surdos utilizam são muitos limitados à comunidade parnaibana, e eles não tinham conhecimentos técnicos. Teve um momento que a equipe até chegou a pensar em desistir, pela dificuldade de encontrar pessoas surdas que poderiam criar esses sinais”, ressalta Rosemary. Logo, eles tiveram de buscar pessoas residentes em na capital do estado, Teresina, e que já eram graduadas em Libras.

Divulgado em agosto deste ano, o manual é dividido em 11 capítulos, e que falam sobre diferentes estruturas do corpo humano, desde as células, passando pelos músculos, e chegando a todos os sistemas, como o circulatório e o respiratório, por exemplo. Em cada um deles é apresentada, através de ilustrações, a datilologia (representação das letras no alfabeto manual) das palavras, assim como fotografias, onde alguns organizadores aparecem fazendo os sinais específicos para aquelas palavras. No total, são apresentados cerca de 230 sinais.

O manual conta com mais de 230 sinais em Libras

O manual conta com mais de 230 sinais em Libras

Representação/Manual de Libras para Ciências

“Na época do planejamento do que poderíamos abordar, pensamos em escolher uma determinada série do ensino fundamental e focar nesses conteúdos, pensando naqueles reaparecem nos ensinos médio e superior”, conta Taiane Oliveira, egressa da UFPI e uma das desenvolvedoras do projeto. Os organizadores destacam também que, pelo fato dos surdos serem muito expressivos e virtuais, o manual é muito colorido e interativo, para que essas pessoas se sintam atraídas ao acessá-lo.

Sobre o feedback que receberam em relação à publicação, Bruno Iles afirma que foi muito mais rápido do que eles esperavam, e também muito positivo. “O maior feedback é de pais que agradecem a produção do manual, porque o conteúdo ajuda eles a terem uma comunicação mais acessível com seus filhos.”

Segundo Taiane, antes da pandemia a ideia era publicá-lo tanto em uma versão física, como em uma digital. Mas, sem o contato presencial, o conteúdo está, por enquanto, disponível apenas em um e-book. Entretanto, os organizadores entendem também que o modelo virtual facilita o acesso das pessoas a ele, uma vez que quase todo mundo tem acesso a celulares, mas nem todos teriam condição de comprar o material impresso.

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Sobre os empecilhos econômicos para o desenvolvimento do manual, Bruno ressalta que tudo partiu do zero, dado que eles não tinham condições de investir muito no projeto. Então, algumas saídas encontradas foram fazer rifas para arrecadar fundos e também contar com a ajuda de um aluno do curso de biologia que sabia fotografar, e que, por sua vez, precisou pegar uma câmera emprestada para fazer o trabalho. “O manual foi feito na força de vontade, porque dinheiro não tinha”, ressalta Taiane.

Rosemary Meneses, que foi uma das orientadoras de Bruno e Taiane desde o começo da produção do projeto, destaca a importância da iniciativa dos dois alunos, afirmando que é necessário ter empatia para seguir na área da educação. “As pessoas precisam se ver, e também ver o outro. E o surdo precisa dessa visão de todos. Eles tiveram essa coragem de sentir na pele a necessidade do outro, e fazer algo pelo outro.”

*Sob supervisão de Paulo Guilherme

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