Educação Jovem autodidata estuda em casa e faz 940 pontos na redação do Enem 

Jovem autodidata estuda em casa e faz 940 pontos na redação do Enem 

Jessica Ferraz, de 25 anos, estudou em escola pública, se formou em biomedicina com bolsa do Prouni, e agora quer ser médica

Jéssica Ferraz, estudando com o notebook que ela comprou com a bolsa de pesquisa científica remunerada pela UMC

Jéssica Ferraz, estudando com o notebook que ela comprou com a bolsa de pesquisa científica remunerada pela UMC

Arquivo pessoal

Jéssica Dias da Silva Ferraz, de Poá (SP), tirou nota 940 da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e teve uma média de 680 nas provas objetivas. Não fez cursinho. Estudou sozinha para o Enem, em casa. Também aprendeu inglês sozinha. Sempre estudou em escola pública.

Aos 25 anos, Jéssica é formada em biomedicina na Universidade de Mogi das Cruzes com bolsa de 100% pelo Prouni, além da bolsa de pesquisa científica com remuneração pela UMC. Agora, Jéssica quer usar sua nota do Enem para cursar medicina.

Pretendo usar minha nota para concorrer a medicina, pois sempre foi meu curso principal, mas não achava que conseguiria nota e me surpreendi esse ano.

Jéssica Ferraz

O Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), divulgou que mais de 86 mil candidatos zeraram na redação, um número muito alto se comparado a outros anos. Jéssica, por sua vez, treinou muito redação, mesmo diante das dificuldades da pandemia.

"A chave sem dúvida foi fazer um cronograma e escrever pelo menos duas redações por semana para ficar mais preparada no dia do Enem", diz Jéssica. "O maior desafio nesse tempo de pandemia, foi manter o foco, já que a internet foi minha ferramenta principal de estudos e é muito fácil se distrair nessa rede. "

Jéssica diz que o pai dela, Marcos sempre foi uma inspiração. "Ele sempre estudou muito desde jovem mesmo não tendo tantas oportunidades, já tem três graduações e uma pós graduação", diz a jovem. "Ele mostrou para mim e meus irmãos que isso não é problema e que se nos esforçarmos podemos alcançar qualquer coisa."

Jéssica e a mãe, Gilvanete

Jéssica e a mãe, Gilvanete

Arquivo pessoal

Gilvanete Ferraz, mãe da Jéssica, diz que a filha sempre foi muito estudiosa mas demorou  um pouco  para perceber isso, porque sempre trabalhou fora e não percebia o esforço e dedicação da filha. Quando ela fez graduação na UMC, ela conseguiu uma bolsa de pesquisa com remuneração e comprou o seu próprio notebook e isso me despertou", comenta Gilvanete.

"A partir disso comecei a observar que ela sempre estava no seu quarto estudando, pesquisando e analisando possíveis formas de realizar seu grande sonho que é cursar medicina. Eu já trabalhei como operadora de caixa, fui dona de lanchonete, faxineira e por fim com incentivo do meu marido e filha, fiz técnico de enfermagem e trabalho há 11 anos de cuidadora na mesma residência em São Paulo", diz.

Pressão emocional em períodos de Avaliação

Existe uma cobrança e uma pressão natural sobre os jovens tanto no modo de estudar como nas perspectivas, e em momentos de avaliações ela tende a aumentar, segundo o psicanalista Ronaldo Coelho, especialista em orientação profissional e de carreira.

Ele lembra que o fato de ter acontecido um abalo no planejamento de estudo dos candidatos afetou nos resultados do Enem 2020. Essa pressão desencadeou a ansiedade que contribuiu para o sentimento de incapacidade, levando muitos até mesmo não prestarem a prova.

O clima de instabilidade desestabiliza, foi o que ocorreu neste período de pandemia, tudo se tornou muito instável, antes o leque de possibilidades era maior, hoje mais não, pois a pandemia não deu opção ao jovem

Ronaldo Coelho, psicanalista

Jéssica reconhece que a pressão vem do próprio estudante. "Hoje a gente tem se cobrado muito e se comparado muito com os outros à nossa volta e isso acaba desanimando, porque pensamos que não somos bons o suficiente", diz. "Mas vivemos nessa era da informação e mesmo sem ter uma base forte vindo da escola pública podemos equilibrar esse déficit com a internet a nosso favor e mudar nossa percepção do que é possível por meio da educação."

* Sob supervisão de Paulo Guilherme

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