Educação Jovens periféricos usam YouTube para democratizar conhecimento

Jovens periféricos usam YouTube para democratizar conhecimento

Laura Sabino e Thiago Torres, o Chavoso da USP, acreditam que educação é o principal instrumento para romper barreiras entre periferia e universidade

  • Educação | Sofia Pilagallo, do R7*

Para Thiago, o Chavoso da USP, a periferia e o centro são dois universos diferentes

Para Thiago, o Chavoso da USP, a periferia e o centro são dois universos diferentes

Arquivo pessoal

"É necessário sempre acreditar que o sonho é possível / Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível". Os versos da música A vida é desafio, dos Racionais MC's, é a inspiração para os youtubers Laura Sabino, 21 anos, e Thiago Torres, o Chavoso da USP, 20 anos. Eles não apenas romperam as barreiras e as dificuldades de viver na periferia como ajudam outros estudantes a ampliar seus horizontes.

Laura estuda História na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), e Thiago, Ciências Sociais na USP (Universidade de São Paulo). A realidade desses jovens influenciadores, no entanto, é um sonho distante para a maioria dos alunos de baixa renda.

Em uma tentativa de mudar essa situação, Laura e Thiago criaram canais no YouTube para tornar o conhecimento acessível à população pobre e periférica. Em entrevista ao R7 eles contam sua história de vida e Chavoso desabafa: "Escola pública destrói sonhos, mas não vamos desistir."

Redes sociais tornam o conhecimento acessível

Enquanto Laura aborda assuntos como política e economia, Thiago discorre sobre os mais variados temas, como sociologia, religião, sua experiência pessoal na USP e dicas para ajudar jovens como ele a ingressar na universidade.

Filha de professor, o primeiro letrado da família, Laura cresceu cercada de livros na pequena Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte. Aos 14 anos, já demonstrava interesse pela política e notava que os colegas de sala não compreendiam muitos conceitos, para eles complexos demais.

Filha de professor, Laura cresceu cercada de livros

Filha de professor, Laura cresceu cercada de livros

Arquivo pessoal

“Sempre fui muito comunicativa e gostava de ensinar o que sabia. No final do ano passado, já no segundo semestre da faculdade, senti que era hora de criar um canal e assim fiz”, afirma Laura, que conta com mais de 30 mil inscritos.

Já para Thiago, tudo começou em maio de 2019, quando ele decidiu fazer um desabafo em uma rede social sobre a dificuldade de "viver em dois mundos diferentes" — a periferia e a Cidade Universitária —, post que chegou a ter mais de 56 mil curtidas e 16 mil compartilhamentos.

Criado na Brasilândia, zona norte de São Paulo, Thiago é filho de ex-feirantes e foi a primeira pessoa negra da família a entrar em uma universidade pública. "No texto, eu começo falando que a periferia e o centro são dois universos diferentes. Quando você mora na periferia, você não está inserido na lógica daquela cidade, você está segregado."

"Ao longo do texto, vou denunciando todos os problemas que enfrentamos. Saio no meu bairro e vejo gente caída no chão drogada, gente alcoolizada brigando na faca, gente entrando para o crime..." e completa:  "Aí pego dois ônibus, dois metrôs, chego na USP e dou de cara com um pessoal com uns baita carrões, que mora no centro de São Paulo e estudou em boas escolas."

Depois que o post viralizou, ele ganhou milhares de seguidores e foi chamado para dar entrevistas e palestras em escolas públicas. "Um dia, o pessoal começou a me pedir para criar um canal até que, em setembro, fui lá e fiz." Hoje, o canal conta com quase 70 mil inscritos.

O objetivo é democratizar o conhecimento. "Em meus vídeos, falo em uma linguagem muito simples e acessível com a finalidade de descomplicar a política e elevar a participação popular na esfera pública", diz Laura. "Dizem que conhecimento é poder, e é verdade. O resultado de uma população que não tem acesso a uma educação política é a apatia e a incapacidade de questionar."

"O intuito do meu canal é dialogar principalmente com as pessoas da periferia", afirma Thiago. "Entendo que esta é a parte da sociedade que está impedida de acessar uma educação de qualidade e quero poder ajudar de alguma forma — seja as conscientizando sobre seus direitos ou as incentivando a pegar gosto pelo estudo."

"O pensamento é a força criadora, irmão", Racionais MC's

Na visão dos youtubers, a escola pública é um ambiente com pouco ou quase nenhum incentivo. "Para mim, o principal problema é a falta de investimento nas instituições das áreas periféricas", diz Laura. "Já estudei em sala com goteira, precisei pular poça de água para ir ao banheiro, sentei em cadeira quebrada que machucava. Tudo isso desestimula os alunos, claro. A impressão que fica é que não vale a pena estudar."

"No máximo, é cobrado que você faça as lições e copie o texto da lousa", afirma Thiago. "Mas o incentivo para fazer uma faculdade e ter um futuro diferente do que é esperado para um jovem periférico não existe — muito pelo contrário."

Chavoso é duro em suas críticas. "A escola pública destrói seus sonhos. Ter aula não era regra, era exceção. E quando tinha, não era tipo 'vamos fazer uma roda de conversa'. Não existe isso", diz. O professor passa um texto na lousa, a galera da primeira fila copia e é isso, acabou a aula. Isso sem contar as vezes que perdemos todo o horário da aula porque o professor tem que ficar separando aluno que está brigando ou resolver algum outro problema."

"Acreditar e sonhar", Racionais MC's

Para o influenciador, conquistar uma vaga na universidade sendo estudante de escola pública é algo extremamente raro. "A maioria sai para trabalhar em subempregos, isso quando não entra para o crime. As garotas, muitas vezes, engravidam, e a partir dali, ficam fadadas a ser donas de casa."

Os jovens acreditam que a educação é o melhor instrumento para romper o ciclo da pobreza. "A desigualdade social no Brasil é crônica e estrutural", afirma Laura. "Tivemos um passado escravocrata que produz consequências até os dias de hoje. É preciso pensar em uma educação focada na formação de pessoas que reivindicam seus direitos."

Thiago partilha do mesmo pensamento. "É um ciclo que vem de décadas e décadas, às vezes séculos, e, se não rompermos, vai continuar sendo reproduzido", diz. "O estudo é um instrumento de luta. A educação tem o papel de conscientizar a população sobre seus direitos, seu lugar no mundo, na sociedade, na história, para que haja uma perspectiva de futuro. Se você não sabe como chegou até aqui, você também não vai saber como sair desse lugar."

Para Laura, os jovens periféricos que estão desacreditados dos seus sonhos devem olhar para suas raízes com orgulho e manter a cabeça erguida diante das adversidades. "Não é vergonhoso ser periférico. A periferia é construída por pessoas trabalhadoras que fazem coisas incríveis todos os dias. Por isso, devemos sempre continuar lutando por melhorias em nossas condições de vida."

Já para Chavoso, eles devem buscar pessoas em quem se espelhar. "Não necessariamente porque uma conseguiu, todas vão conseguir, mas é importante acreditar que é possível. Pode ser difícil, pode ser demorado, mas vale a pena e é muito gratificante."

*Estagiária do R7 sob supervisão de Karla Dunder

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