Rock, MPB, funk, sertanejo e até axé; saiba como estudar história com música para o Enem

 Estilos musicais podem contribuir para ensinar e 'relaxar' durante os estudos para as provas; confira as dicas dadas pelos professores

Resumindo a Notícia

  • Professores de história ensinam como os estudantes podem aprender história com música
  • Canções podem ajudar participantes do Enem a entender períodos históricos do Brasil
Músicas contribuem para estudante entender determinados períodos da história do Brasil
Reprodução/ Unsplash

Sabia que é possível estudar a disciplina de história com música? Estilos como Rock, MPB (Música Popular Brasileira), funk, sertanejo e axé podem contribuir na hora de 'relaxar' durante os estudos. Confira as dicas dadas por Mirtes Timpanaro, coordenadora de história do Colégio Rio Branco e de Guilherme Praça, professor de história graduado e mestre pela UERJ(Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

Timpanaro destaca uma frase dita pelo historiador José Geraldo Vinci da USP (Universidade de São Paulo): "a música faz parte do universo humano, da cultura humana, e obviamente influencia os modos de vida e as relações sociais dos que estão à sua volta; e a sociedade, por outro lado, está construindo a música a todo momento, reconstruindo e pensando". É a partir das reflexões do historiador, que a coordenadora indica cinco dicas para como pensar a música como um bom instrumento de estudos para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio):

1). Entenda a importância das questões trabalhistas de Vargas e sobretudo o período do Estado Novo com a existência do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). "É fazer uma comparação entre a música original de O Bonde de São Januário, e a mesma música só que agora modificada pela ação da censura", reflete. Veja o exemplo:

Originalmente a letra dizia o seguinte:
“O bonde de São Januário/ Leva mais um sócio otário/ Só eu não vou trabalhar”.
Após passar pelos olhos do DIP ela ficou assim:
“O bonde de São Januário / Leva mais um operário / Sou eu que vou trabalhar”.

"Se antes o samba exaltava a figura do malandro, agora com Vargas, o malandro deixa de existir, se 'regenera' e vai trabalhar, como deve ser em um regime totalitário em que o trabalho é preconizado pelo governo. Como cantar o contrário?", comenta Timpanaro.

2). Para se pensar a política do período democrático (1946-1964), conheça os jingles políticos e as marchinhas que caracterizavam este ou aquele candidato. "As marchinhas das campanhas de Dutra, Vargas, Juscelino e Jânio", exemplifica.

3). No período de 1964 a 1985, na perspectiva das propagandas a favor do regime, as músicas ufanistas nos revelam o tipo de mensagem que agradava aos militares.

“Este É Um País Que Vai Pra Frente”, gravada pelo grupo Os Incríveis e Eu Te Amo Meu Brasil Eu Te Amo de Dom e Ravel, são bons exemplos do sentimento ufanista desejado e incentivado pelo governo.

“Este é um país que vai pra frente / Oh, oh, oh, oh, oh, oh / De uma gente amiga e tão contente / Oh, oh, oh, oh, oh, oh / Este é um país que vai pra frente / De um povo unido de grande valor / É um país que canta trabalha e se agiganta / É o Brasil do nosso amor.”
“Este É Um País Que Vai Pra Frente”

"Músicas como essa, tocadas exaustivamente nas rádios, simbolizavam um país sem problemas, feliz, alegre, pronto para, através do trabalho, se agigantar e ocupar os pontos mais altos da política internacional", diz Timpanaro.

Mas segundo a coordenadora, o Brasil da década de 70, pós AI-5 (Ato Institucional nº 5), por trás de toda propaganda existia um país proibido de sentir, de falar e de se posicionar. "A resposta a toda essa proibição veio com as músicas de protesto desse mesmo período", comenta.

4). Algumas letras musicais da MPB (Música Popular Brasileira) foram escritas, para dizer sem ser percebido. "Era para burlar a censura que a tudo proibia, para denunciar a existência de um governo antidemocrático", comenta.

Músicas como: Cálice, Apesar de você, O bêbado e a equilibrista, Maninha, Não chore mais, Como nossos pais entre outras tantas, "servem para entender como a arte pode trabalhar à favor da beleza e da liberdade. Ouvir essas músicas conhecendo os artigos do AI 5 faz todo o sentido", avalia Timpanaro.

5). As bandas de rock brasileiro dos anos 80, nascidas entre o fim da ditadura civil-militar e o início na redemocratização do Brasil, conversam amplamente com a sociedade brasileira daquele período. "Barão Vermelho, Paralamas, Legião Urbana, Plebe Rude, Titãs… Nasceram nos anos 80 e entraram nos anos 90 numa discussão sobre a juventude e a política do momento", lembra.

Ainda de acordo com Timpanaro, músicas como Brasil, Que país é esse?, Geração Coca-Cola  e Comida  escritas entre o final dos anos 70 e na década de 80, chamam a atenção para um olhar sobre a juventude brasileira, suas características, suas possibilidades de ação, e suas reivindicações sociais, dentro de um quadro político nacional em amplo movimento: as Diretas Já! em 1984, a eleição de Tancredo Neves em 1985, a Constituição Cidadã promulgada em 1988, a primeira eleição direta para presidente em 1989.

Para o professor Guilherme, várias questões nos últimos anos abordaram a importância de patrimônios históricos e culturais para comunidades ao redor do Brasil, sobretudo utilizando as festas populares e os gêneros musicais como objetos de estudo. "Nesses casos, ao se preparar para o exame é fundamental que o vestibulando tenha um bom conhecimento sobre a diversidade cultural brasileira, conseguindo compreender a importância da música popular para a formação das identidades locais", comenta.

Ainda segundo o professor de história, ritmos como o funk, o forró, o axé e o sertanejo, por exemplo, não são apenas “estilos musicais que dependem do gosto”, mas estão conectados com aspectos culturais de algumas regiões e são instrumentos de resistência às mudanças forçadas e aos diversos tipos de preconceitos. "Não precisa conhecer todas as letras de cor, mas sim compreender a importância histórica desse patrimônio para a manifestação da voz de grupos sociais oprimidos e silenciados nas favelas", explica.

"O mesmo pode ser observado na música sertaneja, que há décadas exalta um Brasil do interior e seus problemas sociais, ou mesmo na relação entre o axé e a resistência das religiões de matriz africana na Bahia", diz Praça.

Ouça uma música e a pense como uma fonte histórica

Para Praça, da antiguidade ao mundo contemporâneo podemos observar essa relação entre música e história, mas a prova destaca principalmente os séculos 20 e 21 em suas questões. "Um dos temas mais recorrentes que utiliza a música como fonte e texto de apoio é o da Ditadura Militar, principalmente através das canções de resistência. Em 2021, o Enem trouxe a música Admirável gado novo, do Zé Ramalho, para pensar sobre o contexto político durante a Ditadura", destaca.

Outro ponto destacado por ele é que todos os anos as escolas de samba, lançam seus sambas-enredo com letras que se tornam grandes hinos populares, exaltando aspectos principalmente da História do Brasil e da “história que a história não conta”, como diz o samba da Mangueira. "Muito além da festa e diversão que nos proporcionam, os sambas trazem reflexões importantíssimas sobre a história do Brasil que podem nos ajudar muito para o Enem", finaliza.

Dicas de estudo para o Enem

A influenciadora digital Débora Aladim, possui mais de 1 milhão de seguidores no Instagram. A jovem é formada em história pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e esclarece que na reta final de estudo o foco deve estar nos exercícios. "Algo que vai ajudar muito são exercícios comentados: tem vários vídeos no YouTube de professores resolvendo a prova do Enem e explicando o raciocínio e auxiliam o aluno a compreender melhor a matéria", conta.

Para ela, a maior parte da prova de história do Enem é História do Brasil. Desde a colonização até a atualidade. "Mas recomendo focar em Brasil Colônia e Império, que tem sido bastante recorrentes nos últimos anos", comenta.

Um alerta feito pela influenciadora aos vestibulandos desse ano se dá respeito ao descanso. "Isso porque estudar na véspera muitas vezes causa o efeito inverso do esperado: o aluno vê quanto conteúdo tem e quanta coisa ele não estudou e fica ansioso logo antes do grande dia. Eu prefiro evitar todo tipo de pânico e descansar a mente, até porque serão muitas horas de prova", avalia.

*Estagiário do R7 sob supervisão de Karla Dunder

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