Universitários têm dificuldade para fazer TCC durante pandemia

Projetos são complexos e realizados em várias etapas que, muitas vezes, não podem ser feitas a distância, como gravação de imagens e visitas técnicas

Muitos estudantes tiveram que mudar, de última hora, projetos inteiros

Muitos estudantes tiveram que mudar, de última hora, projetos inteiros

Pixabay

Alunos dos últimos anos de faculdades e universidades de São Paulo relataram ter dificuldades na produção dos TCCs (Trabalhos de Conclusão de Curso) por causa da pandemia do novo coronavírus e do isolamento social adotado no estado de São Paulo.

Muitos estudantes têm projetos que não podem ser realizados a distância, como documentários e análises técnicas, por exemplo, e tiveram que alterar o modelo proposto ou deixar de fazer partes do projeto.  

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O grupo de Alicia Gouveia, estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, precisou mudar todo o formato do projeto depois de ter problemas para produzir o material bruto. O objetivo era fazer um documentário sobre os estereótipos e estigmas das mulheres torcedoras de futebol.

Alicia Gouveia, estudante de jornalismo, teve que mudar o formato do TCC

Alicia Gouveia, estudante de jornalismo, teve que mudar o formato do TCC

Reprodução/Arquivo pessoal

“A ideia era ir em barzinhos em dia de jogo, visitar a casa dessas torcedoras para mostrar quartos, gavetas, essas coisas. Ir a estádios gravar o ambiente, a revista na entrada, mostrar como é ser uma mulher num ambiente tão hostil e masculinizado”, conta a jovem.

Porém, com a pandemia, todos os campeonatos de futebol foram cancelados, barzinhos foram fechados e “acabou a história de visitar casa de torcedoras”, lamenta Alicia.

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A estudante conta que o grupo até tentou manter o formato de documentário, mas não deu certo. 

Tentamos manter o formato porque queríamos fazer um TCC democrático, que a nossa família pudesse consumir. Gravamos entrevistas em vários aplicativos, mas não deu certo. Tínhamos um conteúdo feio e com pouca qualidade de áudio e imagem
Alicia Gouveia

Depois de passar pela frustração de não utilizar o modelo escolhido, o grupo resolveu mudar. Agora, realizam um projeto multiplataforma que junta episódios de podcast e posts no Instagram.

“As gravações estão sendo feitas em uma plataforma chamada Zencast e as entrevistadas ajudam a gente mandando fotos e vídeos de arquivo pessoal para publicarmos”, finaliza Alicia.

Também no universo esportivo, a estudante de fisioterapia da USP (Universidade de São Paulo), Núria Gomez, havia se preparado para entregar vídeos e análises de vídeos sobre rugby.

Com o cancelamento das atividades esportivas, o grupo dela não conseguiu acompanhar jogos, nem realizar filmagens, parte base do trabalho.

Com isso, todo o processo de produção foi alterado e o grupo agora usa imagens de terceiros. Mas, para utilizar os vídeos, eles precisam da autorização de quem fez as imagens e de quem aparece nelas.

Como o contato com os envolvidos é difícil, o projeto tem partes paralisadas. Núria teme não conseguir produzir o necessário dentro do prazo estipulado ou até ter de realizar outras mudanças grandes no projeto.

Para finalizar seu TCC, Yuri Bianchi, formando de direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, precisava fazer visitas técnicas e entrevistas presenciais em centros de acolhida e órgãos governamentais. Com o fechamento das unidades e a proibição de visitas, o projeto foi afetado. O trabalho, que tinha a parte prática, foi entregue somente com as análises teóricas.

Entreguei dentro do prazo, mas senti que teve uma qualidade inferior à esperada. Deixei de fazer coisas que propus no projeto
Yuri Bianchi
Estudante de engenharia química, Giuliana não conseguiu produzir parte do projeto

Estudante de engenharia química, Giuliana não conseguiu produzir parte do projeto

Reprodução/Arquivo pessoal

A estudante de engenharia química do Instituto Mauá de Tecnologia, Giuliana Robles, teve dificuldades técnicas e não tem como produzir uma parte do seu projeto.

A ideia inicial era realizar uma fase de testes de reagentes em laboratório e outra de produção em si. “Precisava do acesso aos recursos dos laboratórios da faculdade como impressora 3D, por exemplo, coisas que não tenho em casa”, conta a estudante.

De acordo com a universitária, o Instituto comunicou a liberação, a partir desta segunda-feira (29), do acesso aos laboratórios só para a produção de TCCs. Porém, por enquanto nenhuma lista de reserva de laboratório foi liberada e não foram divulgadas orientações para o uso do espaço.

Uma outra parte da nota de Giuliana virá da apresentação do protótipo produzido em uma feira que acontece no final do ano. Sem saber se será possível a realização do evento ou a produção do protótipo, ela e seu grupo estão incertos sobre a entrega e, por enquanto, trabalham somente na parte teórica. 

Barreiras psicológicas

Debora: ansiedade afetou sua produtividade no TCC

Debora: ansiedade afetou sua produtividade no TCC

Reprodução/Arquivo pessoal

Debora Krakauer, formanda de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, relatou ter passado por dificuldades psicológicas durante a produção do seu projeto, que foi entregue nesta segunda-feira (29).

Realizar o TCC no meio de uma pandemia fez com que a jovem desenvolvesse crises de ansiedade e insônia. A condição era tão intensa que se manifestava de forma paralisante, afetando sua produtividade.

“Eu fiz a primeira parte do projeto, entreguei. Mas não está como eu gostaria que estivesse. Me considero uma pessoa privilegiada já que as minhas dificuldades não são relacionadas com questão de acessibilidade e recursos, mas estou sofrendo muito com a ansiedade”, conta.

Outro ponto relatado foi a falta de motivação e de perspectiva do futuro em decorrência da pandemia. “Não sei se vou conseguir me formar este ano. Não sei como será o desenvolvimento final deste projeto”, lamenta Debora.

*Estagiária do Portal R7 sob a supervisão de Karla Dunder.