Eleições 2018 Candidatos apelam para título de 'professor' nas urnas

Candidatos apelam para título de 'professor' nas urnas

Mais de 1.200 concorrentes a diversos cargos utilizam "professor" ou "professora" no nome mostrado na urna

Na urna, título de educador é valorizado. Mais de 1.200 concorrentes a diversos cargos utilizam "professor" ou "professora" no nome mostrado na urna.

Candidatos estão usando mais seus títulos de educador na urna

Candidatos estão usando mais seus títulos de educador na urna

Lucas Lacaz Ruiz/Fotoarena/Folhapress - 29.9.2014

Apesar da profissão ser tida como desvalorizada no Brasil, o número de candidatos cujo nome na urna carrega o título de "professor" ou "professora" cresceu 49 vezes desde 1994, quando há os primeiros dados disponíveis.

Nessas eleições, são 1.225 concorrentes a cargos de deputado, senador, governador e vice-presidente, que incluíram a referência à educação em sua identificação. O número é maior do que qualquer outra categoria, como os militares, religiosos ou "doutores".

A maioria do grupo de professores (69%) é homem, o que também contrasta com o retrato do magistério brasileiro, majoritariamente feminino. E há nomes curiosos como Eu sou a Professora Linda, candidata a deputada federal em São Paulo pelo PRP, ou Professor Minhoca (PSDB), que quer uma vaga de deputado estadual e usa o slogan "deixa o minhoca entrar".

"É uma campanha diferenciada, engraçada", explica o empresário Jobert Alexandrino, de 37 anos, que é vereador em Santo André e deu aulas por dois anos numa escola particular. A ideia da brincadeira, completa o Professor Minhoca, é a de "entrar" na Assembleia Legislativa. Alexandrino é formado em educação física e dono de uma consultoria que presta serviços sobre qualidade de vida para empresas.

Os vices dos presidenciáveis João Amoêdo (Novo) e Cabo Daciolo (Patriota) — Christian Lohbauer e Suelene Balduino Nascimento, respectivamente — também se identificam como professores.

Professor Christian, de 51 anos, é especialista em relações internacionais e docente convidado da Fundação Dom Cabral. Nos populares vídeos de seu canal no YouTube e nas postagens nas redes sociais, fala pouco de educação e muito de economia, política e agronegócios. Ele foi vice-presidente da farmacêutica Bayer até este ano e declarou ao Tribunal Superior Eleitoral um patrimônio de R$ 4 milhões.

A Professora Suelene Balduino, de 56 anos, dá aulas na rede pública do Distrito Federal há 20 anos.

O Brasil tem hoje 2 milhões de professores trabalhando em escolas e 380 mil dando aulas no ensino superior. Para o especialista em ciência política do Mackenzie Rodrigo Prando, pode haver uma tentativa dos candidatos de conseguir o voto desse grupo numeroso, que frequentemente reclama melhores condições de trabalho. O piso salarial do docente de ensino básico público no País é de R$ 2.455 e há muitos Estados que sequer cumprem esse valor. Em recente avaliação internacional, só 2,4% dos jovens de 15 anos declararam querer ser professores no Brasil.

Prando também acredita que o título de docente agrega valor para a maioria da população por causa da memória afetiva. "Vem a lembrança de seus próprios professores e de uma categoria que se dedica a ensinar e a cuidar."

A situação da educação brasileira - em que boa parte dos alunos está em níveis insuficientes de aprendizagem - também pode atrair votos para um candidato que pareça preocupado com a área. "O pai e a mãe imaginam que ele poderá lutar por melhorias da escola do seu filho", diz a professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Dirce Zan. "Mas usar o adjetivo de professor não legitima o candidato necessariamente como compromissado com a educação. Alguns podem estar usando o nome para angariar votos."

São Paulo

Os professores representam 4,5% de todos os concorrentes para todos os cargos nas eleições deste ano. A maioria disputa vagas de deputados estaduais e federais. O Estado de São Paulo é o que tem a maior índice de representantes do grupo (14,5%) e, inclusive, com uma candidata a governadora, a educadora Lisete Arelaro (PSOL). Ela usou pela primeira vez o "professora" na frente do nome nessas eleições porque acha seu sobrenome difícil de pronunciar.

"Apesar da profissão não ser reconhecida, nos dá muito prazer e orgulho. Estou contando com um voto a mais, do eleitor que esteja em dúvida e pense: vou votar naquela professora", brinca. A ex-diretora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) tem 2% das intenções de voto na mais recente pesquisa Ibope.

Entre os partidos que mais têm candidatos identificados como professores estão o PSOL, o PT, o PCdoB e a Rede. "Quando falo que sou professora, o olhar do eleitor é outro, diferente do que ele dá para um pastor, um advogado. É um olhar de dó, mas também de confiabilidade", conta a candidata a deputada federal pela Rede Jacqueline Moreira dos Santos de Almeida, de 46 anos, a Professora Jacqueline. Ela dá aulas de matemática na rede pública há 22 anos.

Caso seja eleita, diz que vai tentar acabar com a "aprovação automática", política que permite reprovação apenas em algumas séries e é defendida por muitos educadores para não desestimular a criança. "Eu sei realmente o que acontece dentro da escola e por quê não dá certo."

    https://noticias.r7.com/eleicoes-2018