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O que acontece no seu cérebro minutos após aplicar a “caneta emagrecedora” e o risco de parar do nada

As canetas emagrecedoras não atuam apenas no estômago; elas também influenciam circuitos cerebrais ligados à fome e à saciedade

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Fala Ciência|Do R7

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A caneta emagrecedora também age diretamente no cérebro. (Foto: Moderngolf via Canva) Fala Ciência

Poucos medicamentos despertaram tanta atenção nos últimos anos quanto às chamadas canetas emagrecedoras. Medicamentos como semaglutida, liraglutida e tirzepatida passaram a fazer parte das conversas sobre perda de peso e controle do apetite. E existe um motivo para isso: muitas pessoas relatam que, após iniciar o tratamento, alimentos antes irresistíveis parecem perder parte do seu poder de atração.

À primeira vista, pode parecer que tudo acontece apenas no estômago. Porém, a realidade é muito mais fascinante. Pouco tempo após a aplicação, uma série de sinais bioquímicos começa a atuar em regiões do cérebro responsáveis por regular a fome, a saciedade e até a sensação de recompensa associada à comida.


É por isso que as canetas emagrecedoras vão muito além de simplesmente reduzir o apetite.

Como as canetas emagrecedoras conversam com o cérebro


As canetas emagrecedoras mais utilizadas atualmente atuam em mecanismos relacionados ao GLP-1, um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições. Esse hormônio participa da comunicação entre o sistema digestivo e o cérebro, ajudando a regular a fome e a saciedade.

Medicamentos como a semaglutida e a liraglutida imitam a ação do GLP-1. Já a tirzepatida atua tanto em receptores de GLP-1 quanto em receptores de GIP, outro hormônio envolvido no metabolismo energético.


Apesar das diferenças entre elas, essas medicações compartilham uma característica importante: a capacidade de modular os sinais biológicos que controlam o apetite.

Como consequência, muitas pessoas percebem:


  • Maior sensação de saciedade;
  • Menor fome entre as refeições;
  • Redução do desejo por alimentos muito calóricos;
  • Menor interesse por beliscos ao longo do dia;
  • Maior controle sobre a ingestão alimentar.

A mudança não acontece apenas no estômago

Um dos aspectos mais interessantes dessas medicações é que elas influenciam diretamente regiões cerebrais relacionadas ao comportamento alimentar.

Entre elas está o hipotálamo, considerado um dos principais centros de controle da fome e da saciedade.

Quando os receptores são ativados, o cérebro recebe sinais mais intensos de que o organismo já está alimentado. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas passam a sentir satisfação com quantidades menores de comida.

Além disso, áreas envolvidas na recompensa alimentar também podem ser influenciadas. Em outras palavras, o cérebro passa a responder de forma diferente a estímulos que antes despertavam forte desejo por alimentos ricos em açúcar, gordura ou calorias.

Por isso, o tratamento não age apenas sobre a quantidade de comida consumida. Ele também pode alterar a forma como a comida é percebida pelo cérebro.

Como a semaglutida altera os sinais de apetite 

Em maio de 2025, um estudo publicado na revista científica Cell Metabolism, liderado por Júlia Teixidor-Deulofeu, investigou especificamente os mecanismos cerebrais da semaglutida, uma das medicações mais utilizadas para o tratamento da obesidade.

Os pesquisadores identificaram grupos específicos de neurônios envolvidos na comunicação entre intestino e cérebro e observaram que sua ativação esteve associada à redução da ingestão alimentar e ao controle do balanço energético. Os resultados ajudam a compreender por que medicamentos dessa classe conseguem produzir efeitos tão expressivos sobre a fome e o comportamento alimentar.

Por que a náusea é um efeito tão comum?

Um dos efeitos adversos mais relatados por quem utiliza essas medicações é a náusea.

Isso acontece porque os agonistas de GLP-1 promovem um retardo do esvaziamento gástrico, fazendo com que os alimentos permaneçam mais tempo no estômago.

Embora esse mecanismo contribua para aumentar a saciedade, ele também pode causar:

  • Sensação de estômago cheio por mais tempo;
  • Desconforto abdominal;
  • Enjoo;
  • Sensação de empachamento, principalmente nas primeiras semanas.

Na maioria dos casos, esses sintomas tendem a diminuir conforme o organismo se adapta ao tratamento.

O risco de interromper o tratamento sem orientação

Uma dúvida frequente surge quando a pessoa atinge o peso desejado: é possível simplesmente parar a medicação?

A resposta exige cautela.

Durante o tratamento, o organismo permanece recebendo sinais constantes que favorecem a saciedade. Quando a medicação é interrompida abruptamente, esses estímulos desaparecem.

Como consequência, algumas pessoas podem experimentar:

  • Aumento importante da fome;
  • Maior interesse por alimentos altamente palatáveis;
  • Dificuldade para manter os novos hábitos alimentares;
  • Recuperação parcial ou total do peso perdido, conhecido como efeito rebote.

Por isso, qualquer decisão sobre redução ou interrupção do tratamento deve ser feita com acompanhamento profissional.

Muito além da perda de peso

As canetas emagrecedoras não funcionam por mágica. Na verdade, elas atuam em uma complexa rede de comunicação entre intestino e cérebro, modificando temporariamente sinais ligados à fome, à saciedade e à recompensa alimentar.

É justamente essa ação cerebral que ajuda a explicar por que muitos pacientes passam a comer menos sem sentir o mesmo grau de privação. Porém, pelos mesmos motivos, interromper o tratamento de forma repentina pode tornar o controle do apetite muito mais difícil.

Quando entendemos a ciência por trás dessas medicações, fica mais fácil perceber que seus efeitos vão muito além do número mostrado na balança.

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