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Do R7

André Tal, do Jornal da Record

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” A frase de Euclides da Cunha no clássico “Os Sertões” resume com simplicidade magistral a vida de quem vive no semiárido.

Escrita na época da batalha de Canudos, a obra prima da literatura nacional trouxe um relato da vida em meio a seca que chocou as elites do sudeste. E mostrou a elas a brutalidade do confronto entre as tropas republicanas e um grupo de miseráveis que seguia o fanático Antônio Conselheiro. O ano do conflito era 1896. O livro foi publicado em 1902. De lá pra cá, a luta pela comida mudou muito pouco por aqui.

Em Canudos, encontramos seis irmãos de pouco mais de vinte anos de idade, abandonados pelo pai depois que a mãe morreu de câncer. Numa cozinha improvisada, Daniela, a mais velha dos seis, preparava apenas feijão. Quando perguntada sobre qual a renda que possuem, a resposta é direta."Dinheiro nenhum."

O pai, que abandonou a família, só carregou consigo a pensão da ex-mulher. Foi embora com uma mulher que conheceu um mês após a viuvez. Na casa que deixou, os filhos passam os dias sem nada pra comer. "Tem vezes que fica na faixa de uns três dias a quatro", confessa Daniela.

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Sobrou para a Daniela a liderança que foi um dia da mãe."Quando a minha mãe era viva, não faltava nada. Ela me dava de tudo."

Ela quer se mostrar forte diante dos irmãos, mas olhar cansado diz outra coisa."Pra mim se eu ficar um dia sem comer, eu não sinto nada. Estou boa."

Ela que prepara o almoço dia. Na panela, apenas feijão. Quando questionada se isso o que há para o almoço, ela desconversa. "Não, vou fazer o arroz ainda. Eu vou lavar os pratos que estão todos sujos, as panelas."

Não é a primeira vez que vemos uma cena como essa. Não há arroz, é apenas feijão pra casa toda. É duro para Daniela admitir. Passar fome dá vergonha, machuca a alma. 

Eles sentiram o peso da pandemia. Ninguém na casa consegue trabalho. Sem saber ler nem escrever, conseguiram apenas o cadastro no Bolsa Família. Recebem menos de R$300 por mês.

Não é só a falta de dinheiro e a falta de comida. Os irmãos vivem isolados  no meio da Caatinga. Daniela tem que andar mais de 5 horas para chegar ao mercadinho para fazer as compras com vinte reais no bolso.

Hoje ela comprou farinha de milho para fazer um cuscuz e algumas bolachas. O que pode parecer uma compra trivial pra muita gente, para eles é algo de grande valor.

Domingos, dois anos mais novo que Daniela, comemora. "Pra mim hoje é um dia feliz, né? Ela entrar com essa sacolinha... Pelo menos já vai rendendo o que tinha."

Mas ele sabe que isso vai durar pouco. "Acho que não dá pra muitos dias, não. A família é grande." 

A fome também.


motorista e auxiliar: Antônio Clodoaldo cinegrafista: Antônio Carlos Barbosa repórter: André Tal produtora: Mariana Soares fotos: André Tal e Mariana Soares edição e coordenação digital: Marcio Strumiello