Ver o conteúdo do artigo
Do R7

André Tal, do Jornal da Record

O  tempo passa devagar, muito devagar, quando se espera o momento de comer.
O nosso encontro com fome deixou rapidamente essa primeira lição. Logo no início das gravações, descobrimos que em todas as famílias onde a comida é racionada, é proibido comer quando a barriga pede, quando o corpo implora. Comer tem hora certa e essa hora sempre demora a chegar.

Se na mesa de casa tudo o que há são poucos gramas de arroz e feijão, muitas vezes não há café da manhã, lanche ou jantar. Só existe o almoço. E num horário calculado: não pode ser muito cedo porque o dia é longo. Melhor esperar até, pelo menos, duas da tarde para aguentar até a noite.

https://img.r7.com/images/aracuai-mg-03062021115653784

Seu Vildacir Santos é agricultor e resume a rotina de passar boa parte do dia de barriga vazia. "Só levantei cedo, tomei um cafezinho preto sozinho e fui pra roça arrancar mandioca e fiquei até agora sem comer."

Traçar um roteiro de viagem para fazer um raio-x da fome no interior do Brasil -em tempos de pandemia- exige logística de deslocamento e gravações. Mas mais do que isso, força emocional. Mesmo com toda experiência dessa equipe, estávamos apreensivos diante da perspectiva de encontrar tantas histórias dramáticas de privação.

O lado profissional  e pragmático tenta mascarar a tensão de embarcar numa jornada tão pesada. Saímos de São Paulo animados com a possibilidade de fazer algo marcante como jornalistas. Uma missão de respeito.

O difícil é quando o projeto sai do papel e chega às casas das famílias que entrevistamos. Quando a fome ganha rosto e voz, diante da lente da nossa câmera e do microfone da reportagem. Qualquer pessoa se abala ao ouvir de um pai ou mãe sobre a frustração e impotência de não poder saciar a fome de um filho.

São histórias de jejum forçado para que sobre um pouco para as crianças. Ou do alívio de se conseguir meio pacote de macarrão quando o almoço já parecia comprometido.

A situação é mais assustadora do que se imagina. Nas terras mais isoladas do Brasil, muitas famílias comem pouco. Ou mal comem. Carne, legumes, frutas, leite, pão… Nada disso faz parte da rotina.

"Eu acho que a última vez que comi carne... nem sei”, confessa Gabriela da Costa, dona de casa, que nós recebe e mostra a geladeira vazia. Ela diz que o gosto da carne é, já faz um certo tempo, uma lembrança distante. "Do gosto eu lembro, minha boca chega até encher de água. Mas, como é que come?"

“Encher o bucho”, como eles dizem, mesmo que seja apenas com feijão e farinha, é raridade. É um jeito diferente de comer:  enganar o estômago e não para saciar a vontade porque tem pouco e, se tem pouco, vai faltar depois.

O encontro com a fome frustra: o  que podemos fazer como jornalistas parece ser muito pouco para mudar a situação atual. E ainda que mude - e que o tão sonhado fim da pandemia traga dias melhores para essas pessoas - a fome pode até ir embora, mas deixa marcas na pele, no corpo, na mente... Marcas irreversíveis.


motorista e auxiliar: Antônio Clodoaldo cinegrafista: Antônio Carlos Barbosa repórter: André Tal produtora: Mariana Soares fotos: André Tal e Mariana Soares edição e coordenação digital: Marcio Strumiello