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Do R7

Nove crianças sentadas no chão quente da sala apertada.  Não há mesa, nem cadeira. Estão todas famintas.

A mais nova tem um ano, a maior, 14. São todos irmãos ou primos. As mães estão agoniadas. As irmãs Vanderléa e Maria dos Remédios se ajudam no enorme desafio que é criar os filhos em terras tão isoladas e pobres.

O extremo sul do Piauí é uma das regiões mais pobres do Brasil. O índice de desenvolvimento humano na cidade de Paulistana, onde estamos, é comparável ao de países africanos como o Quênia.

Já passava das duas da tarde e ninguém havia tomado sequer café da manhã. Duas panelas cozinham no fogo à lenha. Treze pessoas, entre elas quatro adultos, vão dividir um quilo de arroz e um quilo de feijão. E tem que render: essa vai ser a única refeição do dia.

Vanderléia tenta controlar a ansiedade dos sobrinhos e filhos."É complicado. Muito complicado. São todos pequenos. A gente fala, mas eles ficam insistindo, porque querem comer, mas não tem."

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O feijão está quase no ponto e não dá pra esperar mais. Os pratos são servidos. Por enquanto, apenas para as crianças. E elas comem ali mesmo, no chão. Pouco importa. Elas estão famintas e comer hoje já é um privilégio. O silêncio prevalece. Irmãos e primos não conversam, apenas comem, rápido. Muito rápido.

A caçula termina e lambe o prato. A irmã mais velha pega mais um pouco na panela para a menina de um ano. É a única que se atreve a repetir. Os outros sabem que se comerem tudo o que gostariam, vai faltar pros adultos.

Tímida, Vanderlúcia, de 12 anos, é perguntada se gostaria de comer um pouco mais. “Só um pouquinho”, responde. Mas ela sabe que não pode. “É pra deixar pra minha mãe.”

A prima dela, Rita, tenta superar a infância de privações. A adolescente de 14 anos se permite imaginar uma vida profissional de sucesso, com renda, sem miséria. A filha do sertão quer ser arquiteta e ganhar o mundo.

"A minha madrinha mora com a patroa dela. A patroa dela faz coisas interessantes que eu nunca tinha visto na minha vida. E desde que a minha madrinha começou a falar sobre ela, falar com ela, eu falei pra minha madrinha que eu tinha vontade de ser arquiteta."

A determinação da filha  em mudar os caminhos da fome emociona a mãe. Encostada no tanque onde lava roupas com água barrenta, Maria dos Remédios faz apenas um alerta.


"Se ela se envolver com algum tipo de namoro, essas coisas, com certeza atrapalha um pouco a carreira dela."

Os medos de Maria dos Remédios são resultado de uma realidade dramática em toda região: a falta de planejamento familiar. A gravidez precoce e as gestações em sequência fazem parte da grande maioria das famílias dos povoados isolados.

“O coração de mãe vai se sentir muito emocionado de ver a filha chegar no ponto em que pode ajudar a sua mãe e ajudar outras pessoas que necessitam também,” diz a mãe, que sonha com dias melhores para a filha.


motorista e auxiliar: Antônio Clodoaldo cinegrafista: Antônio Carlos Barbosa repórter: André Tal produtora: Mariana Soares fotos: André Tal e Mariana Soares edição e coordenação digital: Marcio Strumiello