Ver o conteúdo do artigo
Do R7

André Tal, do Jornal da Record

O choro persistente, agudo e traumático. O choro da fome chega aos ouvidos dos pais, impotentes diante da falta de leite ou comida, e se espalha em forma de desespero.

Nossa equipe chega aos povoados isolados de Iguaracy, interior do Pernambuco e se depara com o lado mais agressivo da fome: o estômago vazio  de uma criança.

Silmara e Wellington estão marcados por um episódio que aconteceu dias antes. Ela conta, que , recentemente, não tinha mais leite para dar para as crianças.

“O necessário é o leite dos meninos. A gente, como a gente já é grande, come o que vier. Foi terrível, porque criança chorando não dá certo, é direto ao pé do ouvido chorando atrás de leite, desabafa Silmara.

Foram dois dias de desespero. “Não sei nem o que dizer ", desabafa Silmara.

Silmara Martins da Silva tem 19 anos e está desempregada. Ela já tem dois filhos. Ruan, de 1, e Elisa, de 3. O pai, Wellington Damião Bezerra, é carvoeiro, mas não tem licença ambiental para trabalhar e, como a fiscalização apertou, ele depende dos R$ 300 do Bolsa Família, que pouco rendem no mês.


Wellington tem dificuldade em falar sobre os dois dias em que não havia nada para os filhos comerem. Ele repete a frase da filha."Papai, eu quero gagau."  Wellington teve que dar a resposta mais dolorosa da vida. “Não tem, filha”.

O casal conseguiu comprar um pouco de leite em pó num mercadinho. O suficiente para menos de uma semana. Ainda faltam 15 dias para eles receberem o benefício do governo.

Essa é uma das 14,5 milhões de famílias brasileiras que vivem na miséria, segundo dados do Ministério da Cidadania.

Além da fome, falta dignidade. A casa de taipa, comprada por R$ 500 está ruindo pouco a pouco. Pedaços de barro e de pau caem e dão espaço a buracos onde as crianças brincam de forma inocente.

https://img.r7.com/images/iguaracycardfome-dos-invisiveis-06062021171704133

Silmara está preocupada. "A gente fica porque essa minha criança aqui à noite gosta de ficar sentada aqui bem na parte mais frágil.”

Na casa ao lado, uma família numerosa. Maria Aparecida da Silva , dona de casa, 35 anos, apresenta os seis filhos.

"Essa daqui é a Ana Beatriz tem 2 anos e 9 meses. Esse é Misael, tem 5 anos. Essa é Ana, tem 7 anos. Esse é Moisés, 9 anos. Esse é o Samuel tem 11 anos. Esse é Caíque Bezerra da Silva tem 13 anos, é o menino mais velho”, apresenta a mãe.

Samuel e Caíque já têm consciência sobre a fome, uma realidade na rotina da família afetada pela pandemia e que sofre pela falta de trabalho, aumento dos preços dos alimentos e a suspensão das aulas. A merenda da escola faz muita falta por aqui. 

O irmão, de 11, explica como é dormir com fome."Às vezes, a gente bebe água e passa a sede e a fome."

As duas crianças mais novas são alimentadas basicamente com mamadeiras, já que o feijão é pouco. Na sala da casa humilde, vimos Ana Beatriz e Misael pedirem mingau, ao mesmo tempo. Mingau, no caso, é um pouco de leite com amido de milho.

Dona Maria Aparecida tem bem pouco leite e pra enganar o estômago dos dois, dá a mingau pra caçula, mas pro garoto de cinco tem apenas a chamada “garapa”, que na região significa água com açúcar. A mamadeira não tem valor nutritivo, mas acalma o menino.

Esse relato é de apenas mais um dia na vida dessas famílias, arrastadas pela pandemia para a fome e que se  apenas à esperança de que tudo possa melhorar.


motorista e auxiliar: Antônio Clodoaldo cinegrafista: Antônio Carlos Barbosa repórter: André Tal produtora: Mariana Soares fotos: André Tal e Mariana Soares edição e coordenação digital: Marcio Strumiello