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Do R7

Mariana Soares, do Jornal da Record

Saímos de Minas Gerais em direção à Bahia. Ao chegarmos em Monte Santo, cidade com cerca de 50 mil habitantes, sabíamos que iríamos encontrar situações de fome extrema. O que não imaginávamos era que, além da carência alimentar,  nos encontraríamos também com carência afetiva.

A primeira casa que visitamos era de um jovem casal. Ricardo, 22 anos e Luciene, de apenas 14 anos. Ele, um adulto em busca do sustento da roça, da água da chuva e do feijão da plantação. Ela, uma criança tímida que precisou amadurecer antes da hora para dar conta dos afazeres domésticos e da vida a dois.

Luciene não quis dar entrevista na frente das câmeras mas falou comigo assim que o microfone e as lentes saíram de cena. Na minúscula sala da pequena casa, sentada no canto do sofá, quase acuada, aos poucos ela foi cedendo às minhas tentativas de interação. Eu prometi que não gravaria a nossa conversa para ela se sentir mais à vontade. E foi o que aconteceu.

Sempre monossilábica, a menina que não sabe ler nem escrever respondia às minhas perguntas. Quando não falava, acenava sim ou não com a cabeça. Soube que ela tinha 9 irmãos, um deles bebê. Ela mostrou a foto no celular. Me contou que antes de se juntar com o marido, morava com a mãe. O pai já não vivia mais no lar.

Tentei saber mais detalhes do pai, mas sempre que insistia em qualquer nova informação, a menina se retorcia. Parecia que o corpo falava o que a boca evitava. Talvez algum trauma?

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Depois que desisti de saber sobre o pai, perguntei se ela estava triste. Ela movimentou o rosto para cima e para baixo me informando, timidamente, que sim. Questionei sobre o motivo e ela se calou. Ao ver o olhar dela fitar o chão, senti que precisava fazer apenas mais uma indagação e sem pensar muito soltei: “você quer um abraço?".

Era uma das únicas coisas que eu poderia oferecer para Luciene naquele momento, além da minha atenção. E pela primeira vez ela olhou nos meus olhos e me abraçou forte e demoradamente.

O tempo parou pra mim. Segundos depois do contato, tentei relaxar meus braços mas ela continuou agarrada a mim. Meu coração sentiu o dela. E  mais do que isso, senti o quanto existia uma carência afetiva. A fome já não era mais o foco naquele momento. Mas o carinho sim.

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Não sei há quanto tempo ela não recebia um abraço. Não sei se aquele momento foi importante pra ela tanto quanto foi pra mim.

Luciene também não soube responder qual a data do próprio aniversário. Não lembrava. Já eu me lembrarei pra sempre da menina que não tem comida na mesa, mas tinha um força absurda para abraçar e não desistir da vida.


motorista e auxiliar: Antônio Clodoaldo cinegrafista: Antônio Carlos Barbosa repórter: André Tal produtora: Mariana Soares fotos: André Tal e Mariana Soares edição e coordenação digital: Marcio Strumiello