Hora 7 Cientistas da USP ganham prêmio Ig Nobel por pesquisa de escorpiões constipados: 'Muito felizes'

Cientistas da USP ganham prêmio Ig Nobel por pesquisa de escorpiões constipados: 'Muito felizes'

Glauco Machado e Solimary García-Hernández analisaram o comportamento dos 'Ananteris balzani' após mutilarem parte da cauda

  • Hora 7 | Filipe Siqueira, do R7

Resumindo a Notícia

  • Uma pesquisa de biologia feita por cientistas da USP ganhou o prêmio Ig Nobel
  • A premiação é famosa por laurear pesquisas científicas inusitadas e engraçadas
  • A dupla analisou escorpiões que mutilam parte da cauda para se livrar de predadores
  • Os dois também ressaltam que prêmios do tipo humanizam os pesquisadores
Pesquisadores da USP ganharam o prêmio por pesquisa sobre hábitos de escorpiões

Pesquisadores da USP ganharam o prêmio por pesquisa sobre hábitos de escorpiões

Reprodução/YouTube/Improbable Research

Uma pesquisa sobre pequenos escorpiões capazes de soltar a cauda e fugir de predadores rendeu a dois cientistas da USP (Universidade de São Paulo) o prêmio Ig Nobel, na categoria de Biologia. Na análise, os biólogos descreveram os dias de dor e sofrimento vividos pelos animais, que morrem constipados após a perda da parte do corpo — mas ainda conseguem se reproduzir.

Pesquisas com esses componentes inusitados são premiadas anualmente pelo Ig Nobel, uma honraria concedida pela revista de humor científico Annals of Improbable Research (Anais da Pesquisa Improvável, em português), que une humor e ciência.

Em 2022, na 32ª edição da premiação, a categoria de Biologia ficou com Glauco Machado e Solimary García-Hernández, ambos da USP. Na entrega do prêmio, realizada em um evento online no dia 15, a dupla até demonstrou, com um escorpião de pelúcia, o processo de mutilação da cauda. No vídeo do evento também ficou claro que os dois estavam extremamente felizes com a distinção.

Glauco foi orientador de Solimary, uma cientista colombiana, que desenvolveu uma tese de doutorado intitulada "Como os escorpiões lidam com a perda permanente de sua 'cauda'?".

"Esse tipo de prêmio humaniza o pesquisador, pois o coloca em uma posição engraçada, em que pode rir de si mesmo. É bem diferente do clima dos congressos científicos, geralmente caretas", afirma Glauco Machado, doutor em ecologia e professor do Instituto de Biociência da USP, em entrevista ao HORA 7.

"Nem toda pessoa é capaz de rir de si mesmo, e esse prêmio premia as pessoas que conseguem", completa ele.

O pesquisador conta que ele e Solimary foram abordados por uma integrante do júri do prêmio,  também docente da USP, que perguntou se aceitariam a congratulação. A medida é uma forma de evitar um eventual constrangimento aos acadêmicos, em virtude do caráter humorístico do Ig Nobel.

Glauco ressalta que, para alguns cientistas, esse tipo de premiação parece significar um retrocesso na carreira, uma imagem que já está mudando. Não é o caso dele e de Solimary.

"Pensando na minha carreira, não tinha nada a perder. Sou professor titular da USP, de forma que o Ig Nobel não me afetaria negativamente", conta Glauco. Apesar disso, ele conversou durante algum tempo com a orientanda, uma vez que ela ainda está no início da carreira.

Após a conversa, ficou claro que ganhar a distinção seria benéfico para a carreira dela também. "A Soly e eu brincamos muito com a premiação, e ficamos muito felizes", conta Glauco, que revelou que a pesquisa também ganhou o prêmio de melhor tese do Programa de Pós-graduação en ecologia da USP.

Glauco confidencia ainda que há muito tempo é atraído pelo Ig Nobel, mas achava "intangível" ser laureado com um. "Pensava que ganhar um [Ig] estava tão distante quanto o próprio Nobel", diz ele, entre risadas.

"Cauda" ejetável

A pesquisa de Solimary e Glauco analisou o comportamento dos escorpiões do gênero Ananteris, encontrados na América do Sul. São animais pequenos (de 2 a 3 cm de comprimento) e rápidos, que tiveram o comportamento de soltar a "cauda" analisado por uma pesquisa internacional anterior, da qual Solimary fez parte, de 2015.

Após uma descrição científica objetiva desse estranho comportamento, o grupo encerrou as atividades. E aí coube a Solimary e Glauco descobrirem as consequências reprodutivas da espécie após soltarem a cauda do corpo — além de descreverem o triste fim da vida deles.

A pesquisa foi publicada em 26 de janeiro de 2021 no periódico The American Naturalist — e também virou tema de uma revista em quadrinhos disponível na internet.

"Além do ferrão, eles [os escorpiões] perdem parte do abdômen, que inclui a parte posterior do intestino, do sistema nervoso e do sistema circulatório, estruturas que não se regeneram. Sem o ânus, o animal não consegue mais defecar e passa o resto da vida em permanente constipação", descreveu Solimary, em entrevista à revista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Mas, como a vida precisa prosseguir, os animais sem cauda conseguem se reproduzir. Glauco explica que, sem a manutenção da fertilidade, esse tipo de comportamento não seria mantido na espécie.

"O escorpião precisa sobreviver a um ataque de predador e deixar filhotes. Se o comportamento de perder a cauda o deixa infértil, o gene se perde", afirma o professor Glauco.

Prêmio que faz rir e pensar

Antes de finalizar a entrevista, o professor fez questão de mostrar a importância de premiações engraçadas, como o Ig Nobel, que conseguem nos fazer rir e pensar ao mesmo tempo.

"Há três pontos a ressaltar sobre o Ig Nobel. O primeiro é que vários dos cientistas que aceitam participar da entrega do prêmio já ganharam o Nobel em suas áreas. O segundo é que diversos trabalhos premiados foram antes publicados em periódicos importantes. E o terceiro é que esses trabalhos são inusitados também por responderem questões totalmente novas e abrirem portas para várias outras perguntas", encerra Glauco.

Relembre abaixo todo o sofrimento que os escorpiões enfrentam quando liberam a cauda em um momento de perigo!

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