Hora 7 Entrevistamos um desenvolvedor para entender Kosmokrats, um game indie de humor e sci-fi

Entrevistamos um desenvolvedor para entender Kosmokrats, um game indie de humor e sci-fi

No mundo do jogo, a URSS ainda existe e nós temos que liderar os esforços espaciais do país, lidando com recursos escassos e burocracia

  • Hora 7 | Filipe Siqueira, do R7

No game, jogador deve montar frota espacial e lidar com recursos escassos

No game, jogador deve montar frota espacial e lidar com recursos escassos

Divulgação/Modern Wolf

Imagine um futuro alternativo onde a União Soviética não apenas continuou existindo, como ainda lidera um esforço para tirar a humanidade de um planeta já moribundo. É a utopia socialista levada ao espaço, junto com burocracia, ordens que podem não fazer tanto sentido, montes de camaradas e... a voz inconfundível de Bill NIghy (Piratas do Caribe).

Essa é uma forma de tentar entender o que é Kosmokrats, um game desafiador (principalmente para um reconhecido perdedor em games de puzzle, como é meu caso), engraçado e uma síntese das qualidade de um bom jogo indie.  O jogo é a estreia do estúdio polonês Pixel Delusion, com produção da Modern Wolf,  e nele o jogador é um piloto de drones e deve ajudar a montar naves no espaço, além de viver uma aventura cada vez mais expansiva e complexa.

O game mistura elementos de ficção científica, puzzles, administração de recursos, humor — e também se insere em um subgênero de games "sistemas de burocracia", junto com pérolas como Papers, Please e Universal Paperclips. Além disso, o jogo é retrofuturista, por imaginar um futuro onde os soviéticos ainda são vanguarda, mas todo o desenvolvimento estético envolve uma ponte com as criações tecnológicas da década de 1960. O que significa que computadores não parecem os mais avançados e as estruturas de naves parecem saídas de um passado distante.

Além disso, Kosmokrats é um dos chamados "jogos de sistemas", uma simulação onde contínuas interações mecânicas do game criam caminhos únicos a cada jogada.

Carl Granberg é líder de desenvolvimento do game

Carl Granberg é líder de desenvolvimento do game

Divulgação/Pixel Delusion

Para entender melhor como essa mistura funciona, conversamos com Carl Granberg, fundador e chefe de desenvolvimento do Pixel Delusion, sobre corrida espacial, utopias, descascar batatas, desenvolvimento de jogos de forma independente e o fim do mundo!

HORA 7: Kosmokrats é bastante distópico com relação à exploração espacial. Quais foram as principais inspirações narrativas do game nesse sentido?

CARL GRANBERG: A ideia principal por trás do arco de história do jogo é a própria União Soviética. Como passou de uma ideia idealista de igualdade para a corrupção e decadência, e como os que estão no poder estavam prontos para fazer qualquer coisa... para permanecer no poder. Eu realmente queria colocar o jogador e a Força Espacial em situações difíceis. Todas as batatas se foram, o equipamento está constantemente falhando, enquanto ao mesmo tempo a propaganda diz que as coisas nunca estiveram melhores.

Por que escolher a União Soviética como protagonista do game, um país nem sempre associado com senso de humor?

Quando se trata de Exploração Espacial, a URSS realmente liderou. Kosmokrats teve um único ponto de partida: “e se” a queda da União Soviética nunca tivesse ocorrido. No Ocidente, durante gerações, pintamos um quadro perverso do comunismo (ao mesmo tempo que pintamos quadros perversos dos capitalistas). No final, somos todos apenas pessoas, e isso é algo que eu queria que este jogo mostrasse. Nenhum lado é melhor do que o outro. Quanto ao humor, a burocracia pode ser muito divertida (desde que você não fique preso nela).

No jogo, você é piloto de um drone e constrói unidades espaciais

No jogo, você é piloto de um drone e constrói unidades espaciais

Divulgação/Modern Wolf

Isso é um reflexo da ideia do estúdio de trabalhar com histórias complexas e "áreas cinzentas"?

Bem, quando se trata de Comunismo vs Capitalismo, o Bem e o Mal se tornam nada mais do que uma questão de perspectiva. Ambos alegarão ser bons e chamarão o outro de mal. Em Kosmokrats (e na realidade) existem pessoas boas (e más) em ambos os lados da cerca política. Não pressionamos um lado em particular como sendo 'certo', eles são apenas diferentes. Temos também uma vasta narrativa ramificada (17 finais), onde qualquer um dos personagens principais pode acabar no comando da Força Espacial (tudo graças ao que o jogador faz, é claro).

Kosmokrats é bem retrofuturista e ocorre em um futuro que não aconteceu. Isso é uma mostra que nossa realidade, com o espaço se tornando uma fronteira de exploração de bilionários, é um tanto sem graça?

Definitivamente há algo romântico nos primeiros passos da corrida espacial. Lembre-se que o módulo de pouso lunar tinha muito menos poder de processamento do que um telefone comum atual. As conquistas da União Soviética foram compartilhadas por todo o seu povo. Acho que as conquistas dos bilionários são para os acionistas, e não para o povo, então sim, isso é um pouco enfadonho. Mas nunca diga nunca! Acho que nosso próximo jogo será ambientado em uma distopia capitalista sombria!

Como foi o processo de desenvolver um game cheio de humor e futurismo em uma época em que enfrentamos uma pandemia e mal podemos nos reunir?

Sempre fomos uma equipe muito pequena, espalhada geograficamente, então a pandemia não nos afetou tanto. Mas a pandemia deixou sua marca no jogo. Apenas tente obter o final do 'Techno Wernhers' e você encontrará um vírus capitalista, um bloqueio, a promessa de uma vacina e muito mais.

Quem explora o espaço melhor: um descascador de batatas ou um funcionário de Elon Musk?

Sem dúvida o descascador de batatas. Por mais qualificado que o funcionário de Elon Musk possa ou não ser, ele ainda tem a opção de demitir-se. Este é um privilégio não concedido aos descascadores de batata da Força Espacial. Para eles, o Espaço está à frente (ou o pelotão de fuzilamento espera atrás).

Quando o mundo vai acabar?

O mundo acabará assim que pudermos programar um cometa de tamanho decente. Olhando para 2020, eu diria que temos uma boa chance de encontrar um candidato adequado antes do fim do ano. Eu gostaria que o Socialismo Espacial poderia nos salvar, mas lembre-se: estamos (ainda) presos na linha do tempo capitalista, ao menos por enquanto.

Últimas