Abate de avião aumenta pressão interna e externa sobre o Irã

Canadá e Ucrânia pedem que país se responsabilize pelo acidente e que responsáveis sejam condenados; população diz que regime mentiu

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Avião da Ukranian Airlines foi destroçado: Irã diz que míssil foi atirado por engano

Avião da Ukranian Airlines foi destroçado: Irã diz que míssil foi atirado por engano

Nazanin Tabatabaee/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS - 7.1.2020

A queda de um avião ucraniano no Irã na madrugada de quarta-feira (8), mesmo dia em que o país atacou duas bases americanas no Iraque, levantou suspeitas se a tragédia tinha sido um acidente ou não.

Desde o primeiro momento, o governo iraniano descartou as hipóteses, confirmadas por membros da inteligência americana a uma revista e pelo primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, e dizia que iria investigar a causa do acidente.

Porém, na noite de sexta-feira (10), o Irã confirmou que abateu sem querer o avião. A revelação, agora, pode ser o estopim para mais pressão e conflitos com outros países, além de protestos da população.

Cúpula iraniana foi manchada

O professor de Relações Internacionais do Insper, Leandro Consentino, diz ao R7 que a revelação pode fazer com que a imagem da alta cúpula iraniana seja manchada e a credibilidade do regime seja questionada.

“Isso é uma coisa que eles vinham negando. Se desde o início eles dissessem que foi um engano, [o resultado] poderia ser uma coisa mais tranquila”, diz. “Agora fica a imagem de que a cúpula do regime talvez não seja tão confiável."

O Irã estava brigando diretamente com os Estados Unidos, mas agora o Canadá e a Ucrânia podem entrar na confusão.

“Agora, a crise ganha contornos mais amplos”, diz o professor.

A Ucrânia disse hoje que espera que o Irã leve o caso da queda à Justiça e que pague uma indenização aos familiares das 11 vítimas, sendo 2 passageiros e 9 membros da tripulação.

Já o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, disse em coletiva de imprensa que quer explicações pelo acidente e que espera que o Irã se responsabilize por completo pelo abate da aeronave, que deixou 63 canadenses mortos.

Mais sanções

A Guarda Revolucionária do Irã assumiu a responsabilidade pelo acidente, afirmando que um operador confundiu o avião, com 176 passageiros, com um míssil de cruzeiro e disparou contra ele.

O professor diz que os dois países podem sancionar e pressionar o Irã, seguindo os limites do direito internacional e do regime de segurança.

"Invasão de território ou morte, como no caso dos EUA matando o comandante Soleimani, não são respostas no marco do Regime de Segurança da ONU, mas sanções e retaliações sim."

Os Estados Unidos ainda não se pronunciaram sobre a autoria da culpa pela queda do avião.

Protestos no país

Vigília por vítimas virou protesto contra o governo iraniano

Vigília por vítimas virou protesto contra o governo iraniano

Nazanin Tabatabaee/WANA via Reuters - 11.1.2020

Durante este sábado (11), milhares de iranianos foram às ruas para protestar contra o regime e dizer que eles mentiram sobre a derrubada do avião. No começo, o país negou participação na queda e disse que rumores eram “ilógicos”. Porém, o governo sabia a causa da queda desde o início.

Esse distanciamento da culpa faz com que a população questione a transparência e as intenções do governo.

“O Irã não é um regime democrático”, diz o especialista.

Sendo assim, os iranianos não conseguem se expressar a insatisfação com o governo da mesma forma que outros países, mas os protestos podem chamar atenção. “Os protestos podem ganhar apoio do Ocidente e dos Estados Unidos."

De vítima a algoz

Agora, o Irã perde a imagem de vítima que tinha desde que os Estados Unidos atacaram e mataram o comandante das Forças Revolucionárias Iranianas, Qasem Soleimani, perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, e passam a ser visto também como culpado.

“O Irã deixa de ser passivo depois de ter sujado as mãos com a queda”, diz Consentino. “Não tem como ter 100% de garantia de certeza sobre as intenções do Irã. Ele fica com uma imagem dúbia."

E é justamente com essas dúvidas que os Estados Unidos podem tentar ganhar e participar da narrativa da queda do avião, ainda que não tivesse nenhum passageiro americano a bordo.

“Eles podem falar que o regime é perigoso a ponto de derrubar um avião civil”, explica Consentino. “Os Estados unidos certamente incentivarão essa narrativa."