Internacional Afeganistão luta para evitar que talibãs tomem cidades importantes

Afeganistão luta para evitar que talibãs tomem cidades importantes

Tropas do governo tentam mantes o controle sobre três capitais de províncias: Lashkar Gah, Kandahar e Herat 

AFP
Policial afegão vigia estrada em Herat em meio à ofensiva dos talibãs na região

Policial afegão vigia estrada em Herat em meio à ofensiva dos talibãs na região

Hoshang Hashimi / AFP - 2.8.2021

As forças leais ao governo lutavam, nesta segunda-feira (2), para evitar que algumas das principais cidades do Afeganistão caíssem nas mãos dos talibãs, na esteira das ofensivas do fim de semana.

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Os talibãs atacaram pelo menos três capitais provinciais durante a noite — Lashkar Gah, Kandahar e Herat — após um fim de semana de combates pesados, em que milhares de civis fugiram do avanço dos insurgentes.

Os combates aumentaram em Lashkar Gah, capital da província de Helmand, onde os talibãs lançaram ataques coordenados contra o centro da cidade e sua prisão.

Os combates se intensificaram desde o início de maio, quando os insurgentes aproveitaram a fase final da retirada das forças estrangeiras comandadas pelos Estados Unidos, que deve deixar o Afeganistão em 31 de agosto, após quase 20 anos de presença.

Em um discurso no parlamento, o presidente Ashraf Ghani culpou Washington pela deterioração da segurança no Afeganistão, garantindo que sua decisão de retirar as tropas internacionais do país "foi tomada abruptamente".

As queixas surgem no dia em que os Estados Unidos anunciaram que hospedariam milhares de refugiados afegãos em meio à escalada da violência.

O país já começou a realocar milhares de intérpretes e suas famílias que trabalharam com eles durante essas quase duas décadas.

Além disso, as embaixadas dos Estados Unidos e do Reino Unido em Cabul acusaram o Talibã de "massacrar civis" no distrito de Spin Boldak (sul), próximo à fronteira com o Paquistão, após conquistá-lo em 14 de julho.

As acusações se baseiam em um relatório da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão (AIHRC). Segundo o documento, os insurgentes assassinaram pelo menos 40 pessoas em retaliação, entre funcionários e oficiais dos governos anteriores e atuais, "pessoas que não tinham qualquer papel combatente".

"A vida está paralisada"

No sul do Afeganistão, o governo enviou centenas de comandos para Lashkar Gah e usa ataques aéreos para evitar que seja a primeira capital provincial a cair nas mãos do Talibã.

"Há combates, cortes de energia, doentes hospitalizados, redes de telecomunicações desligadas. Não há remédios, e as farmácias estão fechadas", lamentou Hawa Malalai, uma moradora local.

O chefe do conselho provincial de Helmand, Ataullah Afghan, acusou os talibãs de "se refugiarem em casas de civis" e usá-los como escudos.

A ONG Médicos Sem Fronteiras afirmou que os feridos aumentam em Lashkar Gah.

"Houve tiroteios contínuos, ataques aéreos e com morteiros em áreas densamente povoadas. Casas foram bombardeadas e muitas pessoas ficaram gravemente feridas", disse a coordenadora da ONG Helmand, Sarah Leahy, em um comunicado.

"É muito perigoso e a vida está paralisada", acrescentou.

Por anos, Helmand foi o centro da campanha militar dos Estados Unidos e do Reino Unido no Afeganistão.

Os vastos campos de papoula da província fornecem a maior parte do ópio para o comércio internacional de heroína, tornando-o uma fonte lucrativa de impostos e de receita para os talibãs.

A perda de Lashkar Gah seria um golpe estratégico e psicológico para o governo, que prometeu defender as capitais provinciais a todo custo depois de perder grande parte das áreas rurais para os talibãs nas últimas semanas.

"Erros estratégicos"

Os combates também se intensificaram em alguns distritos da província de Kandahar, um antigo reduto dos insurgentes, e nos arredores de sua capital de mesmo nome.

O aeroporto de Kandahar foi atacado na noite de domingo. Os talibãs lançaram foguetes que danificaram a pista, causando a suspensão dos voos por várias horas.

Esta instalação é vital para manter a logística e o apoio aéreo necessários para evitar que os insurgentes invadam a cidade, ao mesmo tempo em que fornece apoio aéreo em grandes áreas do sul do Afeganistão, incluindo a vizinha Lashkar Gah.

O presidente Ghani disse que as autoridades traçaram um plano de seis meses contra os talibãs, mas reconheceu que os insurgentes não são mais um "movimento disperso e inexperiente".

A captura de uma grande cidade por parte dos talibãs levaria sua ofensiva a outro nível e aumentaria as preocupações sobre as capacidades do Exército afegão.

"Se as cidades afegãs caírem (...) a decisão dos EUA de se retirarem do Afeganistão será lembrada como um dos erros estratégicos mais notáveis da política externa americana", opina Nishank Motwani, especialista em Afeganistão que trabalha na Austrália.

No passado, os talibãs tomaram cidades afegãs, mas mantiveram o controle sobre elas apenas por um curto período.

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