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Internacional Algoritmos impõem ritmos frenéticos a entregadores na China

Algoritmos impõem ritmos frenéticos a entregadores na China

Plataformas limitam tempo de entrega, e milhares de trabalhadores acabam pondo a vida em risco nas grandes cidades

AFP
Entregador de comida atravessa uma viela em dia de neve em Pequim

Entregador de comida atravessa uma viela em dia de neve em Pequim

Noel Cellis / AFP - 7.11.2021

Furando o sinal vermelho ou dirigindo na contramão, os entregadores de comida na China tentam atender aos ritmos frenéticos impostos pelos algoritmos de suas plataformas para satisfazer a clientes cada vez mais impacientes.

"Se eu pudesse escolher, certamente não seria entregador. É um trabalho muito perigoso", diz Zhuang Zhenhua entre dois pedidos, já com o capacete na cabeça e pronto para dar a partida em sua motocicleta em direção a um restaurante em Pequim.

Na China, o setor de entrega de comida é especialmente popular, e a pandemia acelerou a tendência. Em um país ultraconectado, o setor gera 664 bilhões de iuanes (quase US$ 104 bilhões, o equivalente a R$ 546,5 bilhões), de acordo com uma federação local.

Todos os dias, na hora do almoço, um exército de entregadores roda pelas ruas do país para atender ao apetite de milhões de trabalhadores.

Os gigantes da tecnologia dominam essa indústria em expansão, apoiados por um arsenal de aplicativos e algoritmos.

Mas diante da pressão dessas plataformas, que costumam estimular a direção perigosa, as autoridades anunciaram em julho novas regras para garantir aos entregadores um salário superior ao mínimo legal e cargas de trabalho razoáveis.

Antes da intervenção das autoridades, irromperam vários escândalos que expuseram ao público a precariedade do trabalho.

No início do ano, um entregador ateou fogo a si mesmo no leste da China após um suposto conflito com sua empresa.

Ele trabalhava para a Ele.me ("Você está com fome?" em mandarim), uma das líderes da indústria. O episódio gerou revolta.

"Responsáveis"

Mas as melhorias demoram, de acordo com testemunhos de uma dezena de entregadores contactados pela AFP.

"Antes, o aplicativo dava de 40 a 50 minutos para um pedido. [...] Agora não dá mais do que 30 minutos para uma entrega em um raio de 2 quilômetros", protesta Zhuang, que trabalha para o Meituan, outro gigante do setor.

Por isso, o homem diz que não tem escolha a não ser "ir rápido demais, furar o sinal vermelho ou dirigir na contramão".

O caso é que, se ultrapassarem o prazo estabelecido, os entregadores têm de pagar multa.

Muitos acham que estão pondo a vida em perigo por causa dos algoritmos — programas que funcionam como o cérebro de um bom número de aplicativos e serviços digitais.

Os algoritmos determinam quais pedidos aceitam com base em sua posição geográfica e definem o tempo de entrega. Também permitem fazer recomendações aos clientes com base em seus costumes e preferências.

Liu, outro entregador que não quis revelar seu nome completo, garante que o prazo inclui o tempo de preparo do prato, fator que não está em suas mãos mas pode penalizá-lo.

Se houver atraso na cozinha, "os entregadores são os responsáveis", lamenta o homem, de 40 anos.

Questionado pela AFP, o Meituan garante que os prazos de entrega são calculados "levando em consideração a segurança dos entregadores como prioridade e atendendo às necessidades do consumidor".

A plataforma, com mais de 600 milhões de usuários na China, acrescenta que seus funcionários podem recorrer de qualquer multa que considerem injusta.

Essa indústria depende essencialmente do trabalho de migrantes, muitas vezes pouco qualificados e de áreas rurais, que vão para as cidades na esperança de melhorar suas condições de vida.

Mas, assim que chegam às megacidades chinesas, eles se tornam mão de obra barata para essas empresas e facilmente substituíveis.

"Todo mundo quer que os entregadores sejam mais bem tratados, mas ninguém quer pagar por isso", diz a especialista digital Kendra Schaefer, da consultoria Trivium, em Pequim.

Poucos clientes atendem, por exemplo, à opção de alguns aplicativos de estender o prazo de entrega.

"É feito um algoritmo para maximizar a eficiência. Infelizmente, com a modernização da sociedade, isso prejudica o ser humano", aponta Schaefer.

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