Após 46 dias isolados, alpinistas conhecem realidade do coronavírus

Grupo de 18 alpinistas de diversos países ficou 46 dias treinando em montanhas na Bolívia e só descobriu sobre pandemia semana passada

Alpinistas isolados não sabiam do coronavírus

Alpinistas escalaram picos
 como o Huayna Potosí sem saber da pandemia

Alpinistas escalaram picos como o Huayna Potosí sem saber da pandemia

Martin Alipaz / EFE - 30.3.2020

Um grupo de alpinistas passou 46 dias em vários picos perto de La Paz, em um curso de formação sem sinal de celular, sem internet e sem conhecer as medidas tomadas pelo governo transitório da Bolívia contra o coronavírus, até que foram evacuados para uma cidade "deserta" por conta da quarentena.

Leia também: Bolívia registra primeira morte pelo novo coronavírus

O grupo de 18 pessoas, entre elas alpinistas da Alemanha, Bolívia, Chile, Colômbia e França, começou no último dia 10 de fevereiro um curso para "guias de trekking e chefes de expedições", explicou à agência EFE Sergio Condori, um dos guias bolivianos.

Sem contato na montanha

Os participantes escalaram diversas montanhas, como o Huayna Potosí, um pico de 6.088 metros de altitude perto de La Paz, para aprender na prática técnicas de resgate, glaciologia e gestão de riscos, entre outros.

Os alpinistas ficaram nas montanhas a maior parte do tempo e a comida chegava em "pontos de acesso" da travessia, como abrigos, mas eles não tinham sinal de celular e pouca bateria nos rádios.

"Tivemos muito pouca informação, não entendemos muito bem o que acontecia, na montanha não chega sinal e tínhamos apenas baterias para os rádios quando conseguíamos carregar com os painéis solares", contou Condori.

A evacuação

A última parada do curso aconteceu na parte nevada do Huayna Potosí, onde o grupo chegou no último dia 25 de março, e foi lá que eles souberam das medidas tomadas pelo governo interino da Bolívia, como a quarentena total em todo o país e o fechamento das fronteiras.

"Quando entendemos a situação, nós, por respeito e para cumprir o protocolo, porque em nenhum momento queríamos quebrar nenhuma regra, solicitamos que os bombeiros fizessem a extração", contou o guia.

Na última sexta-feira (27), os bombeiros evacuaram 13 dos participantes — já que os outros cinco vivem em povoados próximos — e os levaram para a cidade de La Paz, para que pudessem se resguardar e cumprir todo o processo médico, depois de 46 dias vivendo nas alturas. 

Uma cidade deserta

La Paz está em quarentena para deter coronavírus

La Paz está em quarentena para deter coronavírus

Luis Ángel Reglero / EFE - 26.3.2020

 Voltar à capital boliviana foi "um choque" para todos eles, vendo as ruas "desertas", todos os estabelecimentos fechados e a maior parte da população usando máscaras e luvas, segundo o alpinista boliviano.

"Foi totalmente impressionasnte, porque saímos daqui com uma situação normal, com as ruas cheias, as pessoas dançando, com os negócios abertos, agora voltamos para uma cidade vazia, sentimos o pânico e a paranoia", contou

A situação dos estrangeiros

Condori comentou que os estrangeiros passaram por exames médicos, para descobrir seus estados de saúde, e que todos estão bem.

Agora todos estão cumprindo quarentena e a associação de guias do país começou a coordenação para que os quatro franceses e os três chilenos possam voltar aos seus respectivos países. Os alpinistas da Alemanha e da Colômbia moram na Bolívia, segundo Condori.

A Bolívia se encontra em estado de emergência sanitária, em uma tentativa de evitar a propagação do coronavírus. O esforço inclui o fechamento de fronteiras e a suspensão do tráfego aéreo, mas alguns voos humanitários para evacuar estrangeiros têm sido liberados.