Internacional Após atentado, primeiro-ministro de Israel alerta Biden sobre Irã

Após atentado, primeiro-ministro de Israel alerta Biden sobre Irã

Reunião ocorreu em momento difícil e Bennett se disse satisfeito com garantia dos EUA em relação a programa nuclear iraniano

  • Internacional | Eugenio Goussinsky, do R7

Biden recebeu Bennett no dia seguinte ao atentado em Cabul

Biden recebeu Bennett no dia seguinte ao atentado em Cabul

Avi Ohayon/GPO/27-08-21

O que já era para ser um importante encontro entre o presidente dos Estados Unidos e o primeiro-ministro de Israel Naftali Benett ganhou ainda mais relevância por causa do duplo atentado em Cabul, ocorrido na quinta-feira (26), o que obrigou o presidente Joe Biden a adiar a reunião para sexta-feira (27).

A partir do atentado, alguns momentos históricos se sucederam na relação entre os dois países. Primeiro, somente o fato de Biden fazer questão de manter o encontro na agenda, mesmo com o legítimo direito de desmarcá-lo, em função da morte de 13 militares americanos, mostrou que Israel continua sendo prioridade para os Estados Unidos.

“Estou realmente grato ao presidente e a toda a sua equipe por sua determinação em realizar a reunião”, disse Bennett, após o encontro. O primeiro-ministro completou o agradecimento elogiando a “atenção e foco no auge de um complexo incidente americano”.

A permanência por mais um dia da delegação em Washington também se tornou um acontecimento marcante para os israelenses.

O The Times of Israel contou que, no grupo, havia muitos judeus ortodoxos, inclusive o primeiro-ministro. Eles não poderiam voltar a tempo, como antes programado, para passar o Shabat (celebração da chegada do sábado) em Israel.

Foi feito, então, um esquema especial para organizar a cerimônia de Shabat, ocorrida toda sexta-feira à noite, considerado um dia sagrado no judaísmo.

Foi improvisada uma sinagoga em um dos quartos do hotel. A cerimônia em si ocorreu no salão de baile. Bennett recitou salmos de David, para contar sua trajetória política e sobre como chegara até aquele momento, em que reivindicava o direito de segurança de Israel em meio a um momento de turbulência no mundo.

Em relação à reunião, antes de deixar Washington, já no dia seguinte, Bennett ressaltou novamente que o tema primordial da conversa com Biden foi mesmo o Irã.

E se disse satisfeito com a reação do presidente americano em relação à tentativa recente de alguns países da União Europeia e a China de retomarem o acordo nuclear de 2015, do qual os Estados Unidos, em 2018, deixou de ser signatário.

“Obviamente, a questão principal sobre a qual falamos aqui é a corrida do Irã por uma arma nuclear. Conversamos sobre isso dentro da sala e fiquei feliz em ouvir as palavras claras do presidente de que o Irã nunca poderá adquirir armas nucleares, enfatizando que tentará a via diplomática, mas existem outras opções se isso não funcionar", disse Bennett.

Biden, em reunião realizada no Salão Oval da Casa Branca, afirmou que os Estados Unidos não permitirão que o Irã desenvolva armamentos nucleares. Mas tentarão que isso ocorra por meio do diálogo.

“Estamos colocando a diplomacia em primeiro lugar e vendo aonde isso nos leva. Mas se a diplomacia falhar, estamos prontos para recorrer a outras opções”, garantiu.

Bennett, por sua vez, utiilizou o exemplo trágico do atentado em Cabul como um alerta sobre como, segundo o governo israelense, seria perigoso se um país extremista islâmico tivesse armamento nuclear.

"Em primeiro lugar, em nome do povo israelense, quero estender nossas condolências e profunda tristeza pela perda de vidas de americanos em Cabul. Os militares americanos perderam suas vidas durante uma missão para salvar a vida de outras pessoas, definição de coragem e sacrifício. Que descansem em paz. Especialmente neste dia, quero ser claro como o cristal: Israel está sempre junto com os Estados Unidos da América, de forma inequívoca", disse o primeiro-ministro. E emendou.

“Esses dias ilustram como seria o mundo se um regime islâmico radical adquirisse uma arma nuclear. Esse casamento seria um pesadelo nuclear para o mundo inteiro", enfatizou Bennett em sua declaração.

Segundo o The Washington Post, após a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear, o Irã enriquece uma quantidade de urânio de até 63%, o que é considerado um passo para a construção de armamentos, em comparação com 3,67% no acordo. O país também tem girado centrífugas muito mais avançadas e em maior número do que o permitido pelo acordo. Teerã insiste que seu programa é pacífico.

Proteção própria

O primeiro-ministro observou ainda que o objetivo de Israel é se manter com forças para se proteger e, com isso, ter condições de contribuir com o mundo, por meio de sua diplomacia e do intercâmbio comercial e tecnológico.

“Não podemos perder de vista, nem por um momento, que estamos na região mais difícil do mundo. Temos Daesh em nossa fronteira sul. Hezbollah em nossa fronteira norte, Jihad Islâmica, Hamas, milícias iranianas que nos cercam. Todos eles querem nos matar, matar israelenses. Todos eles querem aniquilar o Estado judeu", disse Bennett, e completou.

“Mas em nossa região, fazer o bem não é suficiente. Israel tem que ser forte para fazer o bem. Seja forte para que possamos fazer o bem".

Bennett também ressaltou a maneira com que o governo israelense vê a importância do apoio dos Estados Unidos. Tal premissa vem desde os anos 1970, época em que a primeira-ministra de Israel, Golda Meir, tinha acaloradas conversas com o secretário de Estado americano, Henry Kissinger, judeu e um elo com os Estados Unidos comandado pelo irascível presidente Richard Nixon.

Na época, Kissinger tinha de se equilibrar entre os humores de Nixon, os interesses dos Estados Unidos imersos na pressão por causa da Guerra do Vietnã, e, em meio a um período dramático, impedir que os países árabes hostis saíssem vitoriosos de seus interesses em destruir Israel.

As palavras de Bennett, ainda que em um momento distinto, no qual Israel já assinou acordos de paz com vários países árabes e exporta tecnologia, remeteram a esse período, com a mesma máxima utilizada por Golda Meir.

“Como eu disse a você, senhor presidente (Biden), Israel nunca pediu e nunca pedirá aos Estados Unidos que enviem tropas para defendê-lo. Esse é o nosso trabalho. Nunca iremos terceirizar nossa segurança. É nossa responsabilidade cuidar de nosso destino. Mas, agradecemos pelas ferramentas e pelo apoio que você tem nos dado e está dando", disse Bennett.

O encontro ainda tratou de formas de combate à pandemia. Bennett destacou que Israel tem controlado a recente onda que fez a covid-19 reaparecer com mais força no país, por causa da variante delta. Para isso, disse que a introdução da terceira dose da vacina em Israel, além dele afirmar ter sido pioneira, tem dado resultados.

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