Internacional Após tortura e xenofobia, refugiado sírio reconstrói vida no Brasil

Após tortura e xenofobia, refugiado sírio reconstrói vida no Brasil

Guerra civil que completou dez anos nesta semana já deixou ao menos 388.652 mortos e 205.300 desaparecidos

  • Internacional | Sofia Pilagallo, do R7*

Resumindo a Notícia

  • Na Síria, Obaid atuava como jornalista e trabalhava em um programa de televisão estatal
  • Em 2012, o sírio foi sequestrado por opositores do governo, mantido em cativeiro e torturado
  • Temendo por sua vida, Obaid fugiu para o Líbano nesse mesmo ano
  • Três anos depois, o Brasil abriu as portas para o sírio, que mora no país desde então
Anas Obaid está há seis anos no Brasil e mora em São Paulo

Anas Obaid está há seis anos no Brasil e mora em São Paulo

Arquivo pessoal

Fugido da guerra civil na Síria, Anas Obaid, 33 anos, está há seis anos no Brasil — tempo suficiente para aprender o novo idioma, mas não para esquecer os horrores de um dos maiores desastres humanitários da atualidade, que completou dez anos nesta semana.

Segundo o OSDH (Observatório Sírio dos Direitos Humanos), até dezembro de 2020, o conflito deixou ao menos 388.652 mortos e 205.300 desaparecidos. Entre as vítimas fatais, estão dois tios de Obaid.

A guerra é um desdobramento da onda de protestos pacíficos conhecida como Primavera Árabe, que, em dezembro de 2010, levou multidões às ruas no Oriente Médio e norte da África. Sob o governo do atual presidente Bashar-al Assad — sucessor político do pai, Hafez, que governou o país por 30 anos até sua morte, em 2000 —, a população reivindicava, à época, um Estado mais democrático, com mais empregos e melhores condições de vida.

A resposta de Bashar-al Assad foi agir com repressão, e assim, a violência se espalhou por todo o país — sobretudo a capital da Síria, Damasco, onde Obaid nasceu e viveu até 2012. Nesse ano, o sírio, que atuava como jornalista e trabalhava em um programa de televisão estatal, foi surpreendido por um evento trágico que mudaria o rumo de sua vida.

"Um dia eu estava saindo do trabalho e fui treinar a voz na casa do meu professor. Quando saímos de casa, passou um carro com oito pessoas armadas e nos levaram para uma espécie de cativeiro no interior, onde ficamos por 11 dias. Durante esse período, sofremos todo tipo de tortura, até que meu professor foi assassinado bem na minha frente. Pensei que morreria ali também", afirma.

Após a família de Obaid pagar um resgate equivalente a R$ 70 mil aos opositores do governo, ele foi enfim libertado. Traumatizado, mas ciente de que precisava fugir para sobreviver, ele então procurou refúgio no Líbano, país vizinho, para onde conseguiu escapar sem passaporte.

A experiência do sírio no território libanês, no entanto, não foi nada positiva, o que o levou a procurar abrigo em outro país três anos depois. "Além do fato de que tudo começou a ficar muito caro, nós, sírios, sofríamos muito preconceito e xenofobia. Para se ter uma ideia, tinha um cemitério em que alguém escreveu algo como 'não enterramos sírios'. Pensei: 'Se eu morrer aqui, o que será de mim?'"

"Em 2015, então, comecei a entrar em contato com embaixadas de todos os países e o único lugar que aceitou me dar um passaporte foi o Brasil. Eu contei a minha história e a embaixadora olhou para mim e disse: 'Bem-vindo ao Brasil'", completa.

Vida no Brasil

Levou apenas vinte dias para Obaid conseguir um emprego em São Paulo, sua nova casa. Ele passou a trabalhar em um restaurante sírio, lavando louças de segunda a segunda. Às quartas-feiras, para quebrar a rotina, o sírio frequentava um karaokê da região, onde fez amigos e aprendeu a cantar músicas brasileiras. A experiência foi parte fundamental do processo de aprendizado do novo idioma.

Obaid no Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão

Obaid no Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão

Arquivo pessoal

"Em oito meses, já conseguia me comunicar com uma certa fluência, e após algum tempo, comecei a ser chamado para dar palestras em escolas e compartilhar a minha história de vida. Era daí que vinha boa parte da minha renda até o início da pandemia. Ainda dou algumas palestras, mas sempre de forma remota", diz.

"Também trabalho atualmente com perfumaria árabe. Antes de março do ano passado, participava de feiras e eventos, onde preparava perfumes personalizados na hora. Esta é uma tradição muito forte no meu país", completa.

O isolamento social, no entanto, não foi de todo mau para Obaid. Durante esse período, ele encontrou tempo para focar em seus dois maiores projetos pessoais — um livro e uma série de autoria própria —, além das aulas online de teatro na ESCH (Escola Superior de Artes Célia Helena), onde ganhou uma bolsa integral da ONG de refugiados Adus, que o acolheu aqui no Brasil. Apesar de ser jornalista de formação, seu grande sonho é um dia ser diretor ou produtor de filmes.

"Na Síria, eu não cogitava essa possibilidade, pois além de o mercado dessa área ser muito fraco no país, eu também não tive as oportunidades que estou tendo aqui", afirma. "Posso dizer que o Brasil reacendeu o meu sonho de trabalhar com o que realmente amo."

Além da série e do livro, o sírio também escreve monólogos, nos quais aborda "praticamente tudo" — desde seu sofrimento durante a guerra até problemas que ele enxerga aqui no Brasil, como a desigualdade social e, mais recentemente, a falta de empatia dos brasileiros frente à pandemia.

Obaid ama o povo brasileiro e garante que sempre foi bem acolhido, mas conta que ficou bastante decepcionado com a forma que algumas pessoas lidaram com a crise sanitária por aqui. "Em um dia, cerca de 2.800 pessoas morreram em decorrência de uma única doença. Isso não é aceitável. Em um dia de guerra lá na Síria, não morrem tantas pessoas assim", diz. "Se você parar para pensar, proporcionalmente, morreu menos gente em dez anos de conflito do que em um ano de pandemia no Brasil." 

Saudade da família

Apesar de todos os problemas, o sírio considera que São Paulo é hoje a sua "nova Damasco" e garante que não pensa em voltar para a sua terra natal. A maior questão para ele é a saudade da família, sobretudo dos pais, que não vê há cerca de um ano.

"Para contornar a situação, me apego a alguns objetos que tenho em minha casa, como flores que minha mãe me deu, um tabuleiro de xadrez que usava com meu pai e um recipiente onde meu tio, que foi morto em uma explosão, guardava café. De certa forma, sinto como se eles ainda tivessem aqui comigo", afirma.

Emocionado, Obaid revela que seu maior sonho, além de ser diretor ou produtor de filme, é continuar escrevendo. Com isso, ele almeja dar voz àqueles que, assim como seus familiares e tantas outras vítimas da guerra, não puderam ser ouvidos.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Pablo Marques

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